São dias de tempo suspenso. Ansiedade. Angústia. Solidariedade. O surto do novo tipo de coronavírus irrompeu pelo Ano Novo Lunar do Rato, trazendo uma ventania de contágio, morte e medo. Em vários aspetos com maior impacto que a pneumonia atípica (SARS) de 2003.
A crise que vivemos – cujos contornos e profundidade estão por avaliar – constitui um enorme teste a todos: serviços de saúde, Governos, instituições, empresas, grupos sociais e cidadãos. Por parte das autoridades não pode haver outra opção além da transparência total e capacidade reativa e preventiva determinada. Infelizmente não foi isso que aconteceu na China continental, em Wuhan, quando surgiram os primeiros casos de uma pneumonia de origem desconhecida. Tudo aponta para uma subavaliação, negligência e falta de transparência na fase inicial do surto por parte das autoridades de Wuhan, com consequências devastadoras. A resposta posterior do Governo Central foi firme, estando em curso medidas nunca antes vistas para procurar conter um novo tipo de vírus para o qual ainda não há vacina e que demonstra níveis infecciosos bem mais elevados que a SARS, embora a taxa de mortalidade nesta fase ainda seja bastante menor. Além das medidas de urgência que se impõe no imediato, outras se deverão seguir não apenas de proibição do comércio de animais selvagens – como é defendido num artigo de opinião do China Daily que republicamos nesta edição – mas também mudanças efetivas que coloquem um ponto final à cultura de opacidade e secretismo que, não obstante progressos registados nos últimos anos, prevalece no sistema do Continente. Isso é inaceitável sobretudo em situações de crise de saúde pública. Transparência traz confiança. São dois lados da mesma moeda. Paralelamente, há que promover o esclarecimento contra a abundante informação falsa que inunda as redes sociais.
Em Macau, as autoridades agiram com eficiência e determinação, sendo mais expeditas que as da cidade vizinha de Hong Kong, o que traz à luz a aprendizagem local desde o surto da pneumonia atípica em 2003. É cedo para perceber se será suficiente, havendo vozes que, compreensivelmente, pedem ao Governo que vá mais longe quer ao nível de maiores restrições nas fronteiras, quer com o encerramento temporário dos casinos.
Ao mesmo tempo que o grau de exigência de transparência e expectativa de proteção da sociedade é absolutamente central nesta fase, é importante fortalecermos os laços de interajuda na comunidade e de solidariedade com os cidadãos afectados e com as regiões na China continental fustigadas pelo surto.
A chave para a saída estará na prevenção eficiente, resposta rápida, solidariedade e cooperação internacional. A saúde pública é um bem público global.
José Carlos Matias 31.01.2020