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Jovens cada vez mais envolvidos na política

Na Guiné-Bissau o ambiente político continua tenso e conturbado. As desavenças entre os líderes políticos continuam a acentuar-se todos os dias, mas, ao cenário marcado pela confrontação verbal entre os seniores, juntou-se a voz dos jovens. Nunca se viu tanta participação e interesse dos jovens pela política como nos últimos três anos.

De todas as formas possíveis e imaginárias, a juventude guineense tem vindo a fazer sentir a sua voz de revolta com o que se passa no país, saindo do conformismo do passado, que se manifestava através de longas jornadas de ócio nas chamadas ‘bancadas’, círculos de amigos onde os jovens passavam grande parte do seu tempo a discutir trivialidades do futebol internacional e marcas de carros importados pelos políticos.

O Movimento de Cidadãos Conscientes e Informados (MCCI) é um exemplo de como os jovens exigem um papel de liderança no país. Liderado pelo jurista e ativista Sana Canté, o MCCI foi criado há dois anos em Bissau e visa “despertar a consciência dos cidadãos sobre os malefícios da persistência da crise política, com ênfase junto dos jovens, por serem o presente e que vão ser o futuro do país”.

O ativista, que se viu forçado a abandonar a Guiné-Bissau para fixar residência em Lisboa, depois de ter sido ameaçado fisicamente, enaltece a tomada de consciência dos jovens, mas considera que tem faltado consistência e persistência na luta que travam contra o poder político. O sistema tradicional de poder “precisa de ser constantemente beliscado, questionado e pressionado” para que “aja em conformidade com os interesses da população”, defende Sana Canté. 

Além do MCCI, a tomada de consciência dos jovens guineenses sobre o papel ativo que devem ter na política do país tem sido promovida pelo Conselho Nacional de Juventude e pela Rede Nacional das Associações de Jovens. Na definição do movimento conhecido por ‘inconformados’, tudo o que os políticos fazem acaba por influenciar o futuro dos jovens guineenses.

Pela primeira vez na história democrática da Guiné-Bissau a juventude tem vindo para a rua participar em manifestações cívicas (marchas, comícios e vigílias) quando no passado recente só demonstrava algum interesse pela política nas campanhas eleitorais. 

“É o acordar da juventude”, diz Aissatu Forbs Djaló, a médica de, 26 anos, que lidera o Conselho Nacional de Juventude (CNJ), plataforma que reagrupa associações juvenis, mas que quer “mais e mais dos jovens” na política.

A líder do CNJ congratula-se com o interesse dos jovens pela política guineense, mas ainda assim reclama que devem participar mais nas tomadas de decisões do país, por serem, considera, o presente e o futuro da Guiné-Bissau. Aissatu Djaló diz que “não faz sentido” que, mesmo representando 55% da população, os jovens ainda não estejam nos órgãos de decisão do país. 

Desemprego jovem preocupa 

A carta de Política Nacional da Juventude, elaborada pelo CNJ, destaca o crescimento demográfico da Guiné-Bissau, que se situa na ordem de 2,5% por ano, para criticar as respostas dos poderes públicos em relação às exigências sobre o setor. 

“Um país com aquele crescimento demográfico devia ter outra resposta para as necessidades dos jovens”, observa Aissatu Djaló.

O recenseamento populacional de 2009 indica que a população potencialmente ativa, com mais de 15 anos, representa 37,7 por cento da população total dos quais, mais de 90 por cento, são desempregados.  

“A juventude é um valor garantido para o país. Não se pode considerar a juventude como um problema, mas como uma solução. Ela é um vetor e um importante interveniente para a estabilização do desenvolvimento, e a melhor resposta de que a Guiné-Bissau dispõe para sair das crises cíclicas que prejudicam o seu desenvolvimento”, defende a presidente do CNJ.

Para Aissatu Djaló, “ventos de mudança estão a soprar” e que esse facto pode ser comprovado nas intervenções dos jovens nos media, onde questionam a classe política atual sobre as políticas públicas. 

Uma rádio de Bissau tem um programa interativo de segunda-feira a sexta-feira onde os jovens – que se assumem como ‘deputados’ – comentam a atualidade política do país. Nas redes sociais, o debate sobre as questões políticas domina a conversa entre os jovens guineenses, com todos a darem opiniões sobre o que se passa no país, mesmo aqueles se encontram no estrangeiro a estudar ou a trabalhar. 

A presença dos jovens na vida política guineense também é visível pela dinâmica que os partidos tentam emprestar às suas estruturas juvenis. As duas principais formações políticas no parlamento, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e o Partido da Renovação Social (PRS), operaram mudanças profundas nos seus órgãos de decisão, com a entrada de um grande número de jovens.

O PAIGC elegeu uma nova direção para a estrutura juvenil, a JAAC (Juventude Africana Amílcar Cabral, o ‘pai’ da nacionalidade), propondo, pela primeira vez, pessoas com o máximo de 35 anos, idade limite para se ser considerado jovem na Guiné-Bissau. Pela primeira vez um jovem com 26 anos entrou para o Comité Central (órgão máximo entre congressos) do PAIGC, no que é visto como inovação e modernização do histórico partido guineense.

Pelo menos dois jovens lideram partidos políticos fundados com objetivos claros de trazer um novo paradigma na forma de fazer política no país. Policiano Gomes, do PDD (Partido Democrático para o Desenvolvimento) e Filinto Omar Salla, preside a LIDS (Liderança para o Desenvolvimento Sustentável). Os dois prometem participar nas próximas eleições legislativas – que devem ter lugar ainda este ano – e tentar eleger pelo menos deputados suficientes para formar uma bancada parlamentar.

O país continua dilacerado por uma crise política sem fim, com o Presidente da República, José Mário Vaz, a recusar a dar o cargo de primeiro-ministro ao partido mais votado (PAIGC), criando um impasse institucional que dura já há quase três anos. Em paralelo, a comunidade internacional exige um governo de consenso entre todas as partes e já impôs sanções a vários dos protagonistas, ligados ao Presidente da República. O último primeiro-ministro nomeado, Artur da Silva, é um dirigente do PAIGC, mas ainda não conseguiu ter apoios para escolher ministros e secretários de estado, que continuam a ser os do último governo cessante.  

Mussá Baldé-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  29.03.2018

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