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Macau 20 anos depois

É o título da série documental de Carlos Fraga e Helena Madeira. Realizador e produtora querem perceber o que mudou em Macau desde o fim da administração portuguesa.

Carlos Fraga e Helena Madeira voltaram a Macau para gravar o quarto documentário de uma série de seis sobre a cidade. O trabalho da produtora LivreMeio é uma viagem pelas alterações que sofreu o território e quem nele vive desde 1999, quando se deu a transferência do exercício da soberania para a República Popular da China. Os documentários e a longa-metragem – que vai compilar o melhor de cada episódio – vão ser transmitidos nas celebrações dos 20 anos da RAEM, em 2019, em Macau e em Portugal. Foi na Casa Garden que falámos com a dupla – na vida pessoal e profissional. Começámos a entrevista com o realizador à qual se juntou Helena, mulher e produtora.

– Como é que surgiu a ideia para este trabalho sobre Macau?

Carlos Fraga – Fizemos um documentário, em 2013, sobre a comunidade chinesa em Lisboa. Passou na RTP e também na Universidade de Lisboa porque tivemos a ajuda de uma professora de lá. Durante a projeção, fomos abordados pelo Carlos Piteira, professor na universidade, e surgiu a oportunidade de fazer outro filme com base num trabalho seu sobre os macaenses em Lisboa. Coincidiu com uma proposta que fizemos à televisão para uma série de documentários sobre as diferentes comunidades em Lisboa e achámos que devíamos avançar com os macaenses. Durante o documentário, as pessoas falavam muito de Macau. Decidi que tínhamos de vir cá. Já tinha andado pela Ásia, mas nunca tinha vindo a Macau, e impactou-me. Senti que havia muito por descobrir e que era complexo. Filmei o que precisei para o outro documentário, mas começou a cozinhar-se outra ideia. Fazia falta um complemento que seria sobre os portugueses em Macau, tendo em conta que já tínhamos os macaenses em Lisboa. E é assim que surge o segundo documentário. Continuámos a sentir que ficaria incompleto e foi quando surgiu a ideia que dá título à série: Macau, 20 anos depois. Pensámos que seria interessante realizar um trabalho que nos desse uma perspetiva do que é Macau hoje e que fosse integrado nas comemorações dos 20 anos da transferência de soberania para a China, em 2019. Estamos agora nessa aventura.

– Quais são os temas de cada episódio?

CF – São seis documentários com cerca de uma hora. “Macaenses em Lisboa”, o segundo “Portugueses em Macau”, o seguinte chama-se “Dar e Receber a Portugalidade”, este é sobre a “Interculturalidade”, que fala da lusofonia e as comunidades lusófonas. O próximo será sobre os macaenses em Macau e o último é só sobre os chineses e o que pensam da presença portuguesa.

– Referiu que Macau é uma realidade complexa. O que é que o impressionou na cidade?

CF – O exotismo desta combinação entre o Oriente e Ocidente. É realmente um sítio onde sinto que as identidades estão mais confusas. Depois o que nos rodeia. A presença portuguesa que ainda se nota, mas que acaba por não se sentir muito na vida quotidiana. Há uma série de situações complexas e algumas até difíceis de entender. Por exemplo, como é que se dá este equilíbrio entre culturas e comunidades tão diferentes? Como é que isto convive com os chineses? Como é que os chineses aceitaram esta presença e não foram demasiadamente contagiados?

– As questões da identidade e coexistência entre diferentes comunidades, sobretudo entre a portuguesa e a chinesa, são temas recorrentemente abordados. O que é este trabalho pode acrescentar?

CF – Quando abordo qualquer comunidade ou grupo, tento ir buscar várias pessoas de diferentes estratos sociais e idades para ter uma realidade ampla e complementar. Não sei o que posso acrescentar de novo. O que creio, e isso está a ser confirmado pelos antropólogos que colaboram connosco, é que é uma boa abordagem.

– Como foi o trabalho de produção ao nível da eleição dos sítios e das pessoas?

CF – A eleição das pessoas tem vindo a depender de cada um dos filmes. Como o professor Carlos Piteira é macaense e está como assessor, a escolha das pessoas parte muito dele. O que fazemos depois é perceber se essa escolha cumpre o requisito da variedade que queremos ter. Neste caso, tenho de delegar pelo desconhecimento da realidade. Mas o que procuro sempre é ter pessoas anónimas a quem ainda não se deu voz. Quero evitar o discurso construído e que já se conhece. No caso de Macau, não será tão fácil por desconhecer e porque há muitos incontornáveis. Não tenho a liberdade que teria se estivesse a trabalhar num mundo que domino.

– Disse que o último episódio será sobre a comunidade chinesa. Do que vai à procura?

CF – Quero saber o que sentem e o que pensam, que relação têm com os portugueses, o que esperam do futuro, que influência sentem e como olham para o passado. Esse documentário – pela temática, características da comunidade e dificuldade de comunicação – vai ser difícil.

Helena Madeira – Posso meter a colherada? Tenho uma opinião ligeiramente diferente da tua. Não acho que o documentário será difícil. Já fizemos um sobre os chineses em Portugal e pensávamos que seria difícil e não foi. Tivemos a ajuda de uma pessoa com ligação à comunidade, que falava bem mandarim e que já tinha feito trabalhos com eles. E as pessoas abriram-se. Esse mito que há em Portugal de que são uma comunidade fechada, desapareceu. São fechados enquanto não se comunica com eles. A partir do momento em que se domina a língua, interagem e abrem-se. Neste episódio, como também vamos ter um antropólogo que domina o cantonês e vamos entrevistar pessoas escolhidas a quem não chegamos anonimamente, não vai ser difícil. Temos sim muita curiosidade.

– Quando fizeram o documentário sobre a comunidade chinesa em Portugal, o que é que mudou na vossa perspetiva e que de alguma maneira vos levou a este projeto?

HM – Nós os dois complementamo-nos. O Carlos olha para os temas muito sob o ponto de vista estético e como realizador. E eu, que não percebo nada disso, valorizo mais o ponto de vista humano. Havia, e digo havia porque deixou de haver, uma série de mitos e disparates que se diziam sobre a comunidade chinesa que eu, tendo um realizador ao meu lado, queria saber se eram verdade. O documentário mostrou que são emigrantes que sofrem porque estão longe da família, que se fartam de trabalhar para juntar dinheiro, como nós portugueses fizemos e ainda fazemos. No fundo o objetivo destes projetos é chegar à conclusão de que somos todos seres humanos que vivemos nesta aldeiazinha e que, pelos traços culturais e educação, temos comportamentos que parecem diferentes. Quando nos misturamos e comunicamos, percebemos que não somos assim tão diferentes. O que queremos saber com esse último episódio é que influência teve a presença de uma cultura ocidental na maneira de estar dos chineses.

– A questão das fronteiras e identidades voltam a estar na ordem do dia, e pelos motivos mais tristes. Sentem que o vosso trabalho, que assenta muito no entendimento do outro, faz ainda mais sentido agora?

HM – Principalmente, por ajudar a perceber as semelhanças. As diferenças já todos conhecemos. O que as pessoas se esquecem com frequência é que não somos assim tão diferentes.

– É a quinta vez que estão em Macau. Sentem que as comunidades estão realmente integradas?

CF – Sinto que se conseguiu um equilíbrio na coexistência. A integração não a acho tão real. Sinto que as diferentes comunidades coexistem, mas depois dentro delas há muitos grupos e vivem de forma isolada. Não há, em princípio, conflitos, mas vive-se muito em grupos. 

HM – As pessoas veem o mundo muito da sua janela. Fala-se sempre dos grupos. Os grupos existem em todo o lado. Em Lisboa há grupos, em Coimbra há grupos. Vivi quatro anos em Paris e há grupos. Tu viveste 25 em Sevilha e também havia grupos. Até nos sítios onde há menos estrangeiros e mais pessoas da terra há grupos, como na aldeizainha onde vivemos que tem três mil habitantes. É uma atitude animal e natural. E isso não é diferente em Macau. O que acho especial aqui é estarmos na China e sentir Portugal. 

– Sente Portugal?

HM – Para já, os chineses, se olham para nós, não nos veem como estrangeiros. Em França, por exemplo, acho que nos veem mais como estrangeiros do que os chineses em Macau. A arquitetura, o português presente em muito lado, o irmos no autocarro onde a maioria são chineses, mas depois ouvimos duas pessoas lá ao fundo a falar português, a gastronomia… Sinto essa presença e acho incrível tendo em conta que vivem aqui milhares de chineses e meia dúzia de portugueses.

– Também por causa da interculturalidade, há várias cidades nesta terra. Que Macau querem mostrar?

CF – Nestes episódios, essa dimensão mais chinesa e dos bairros mais chineses não estará muito presente já que andam muito à volta da lusofonia. Provavelmente, o último já nos vai levar a outros sítios. Espero muito que sim. Visualmente também não estava à procura de mostrar uma Macau. Não é um postal. Macau está lá porque as pessoas falam dela, é onde vivem e se relacionam.

HM – É importante não esquecer que, independentemente da variedade das temáticas, há aqui um elo que é o tema “Macau, 20 anos depois”. O grande objetivo é perceber junto das comunidades residentes em Macau o que é que mudou e se foi para melhor ou para pior. 

– O contacto com diferentes comunidades e culturas está muito presente na vossa filmografia. Há uma vontade persistente de perceber o outro?

CF – De perceber o mundo. Sou capaz de estar sentado num sítio a observar durante muito tempo. É um vício que tenho desde pequeno. Gosto de perceber as pessoas e de entrar no mundo delas.

– Como é que surge o documentário, sobretudo com este olhar mais de antropólogo?

CF – Trabalhei como assistente, mas com muita proximidade à realização, que era a função que mais me atraía por ser a que me permitia contar histórias. Quando fui para Sevilha, a ficção cansou-me. Passa-se por muita coisa que não gosto, como a relação com os atores antes da representação. Negociar com eles, aturar as exigências dos divos e das divas… O documentário permitiu-me fugir a isso, estar num mundo mais real, de observação, de estar com as pessoas e percebê-las. Comecei em 73, fiz muita coisa. O documentário surge porque posso controlar muito mais e estou dentro de um campo que me interessa muito mais, que é o da interação entre as pessoas. O documentário tem uma responsabilidade que é a de recolher a realidade e constituir um arquivo do que vai sendo o mundo.

– Numa altura em que as fronteiras entre documentário e ficção são cada vez mais difusas, continua a sentir que o documentário que realiza tem espaço e chega ao público?

CF – A juventude é seduzida por outra linguagem e ritmo. Percebo isso. Não sei se é por ter alguns anos, mantenho-me fiel a mim mesmo e chego com algum atraso a estas mudanças. Tenho de confessar. Poderia chamar, para me defender, coerência. Mas não sei se é isso e nem sei se é a atitude correta. Por exemplo, o documentário sobre a comunidade chinesa foi o segundo programa mais visto na RTP nessa noite. Estamos num mundo onde tudo tem lugar. Continuo a sentir que chego às pessoas.

– E como realizador e câmara, o que acha de Macau?

CF – Agora numa linguagem moderna. É brutal. Oferece uma variedade de detalhes e contrastes. Só é pena a luz, mas faz parte do décor.

– Além desta série documental, há novos projetos na calha?

CF – Estamos concentrados nesta série, mas temos de pensar noutros projetos, até porque temos de sobreviver e a série não tem dado para isso. Essa é outra realidade triste, mas enfim. Quando estivemos no Algarve, onde vivemos 12 anos, metemo-nos numa aventura enorme de fazer um arquivo audiovisual sobre o património imaterial, quando ainda nem se falava nisso. Viajámos quilómetros. Ficámos cheios de nódoas negras nas costas porque toda gente nos dava palmadinhas, mas nunca o realizámos porque não conseguimos financiamento. Aqui não está a acontecer o mesmo, mas quase. Toda gente nos diz que o trabalho é fabuloso e muito importante. Apoios? Temos logístico e pouco mais. E por isso temos de ter outros projetos. Temos um documentário encomendado sobre uma zona urbana num bairro periférico de Torres Vedras e outro projeto pensado com Cabo Verde. 

Sou Hei Lam

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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