De olhos postos na economia

por Arsenio Reis

Na reunião da 12a Assembleia Popular Nacional, a China fixou a meta de crescimento para este ano nos 6,5 por cento, revelou querer manter a inflação nos 3 por cento e criar 11 milhões de postos de trabalho nas cidades. A sessão termina a 15 de Março.

A economia deve crescer até 6,5 por cento neste ano, a inflação será contida nos 3 por cento e são rejeitadas iniciativas protecionistas. São as principais linhas do discurso dos governantes centrais na 12a Assembleia Popular Nacional (APN). Não há, por agora, quaisquer referências à política norte-americana nem à constituição do Comité Permanente do Politburo, que será renovada este ano.

A APN iniciou-se no último domingo, com uma mensagem de otimismo por parte do primeiro-ministro da República Popular da China, Li Keqiang. “Os elementos essenciais da economia chinesa continuam sólidos. Os rácios de capital e as provisões de cobertura dos bancos continuam a ser elevados”, afirmou, destacando que há “muitos instrumentos financeiros que podem ser utilizados” e existe a “confiança, a capacidade e os meios para prevenir riscos sistémicos”. Além disso, manifestou-se contra “qualquer tipo de protecionismo”, numa altura de “tendência antiglobalização”.

No relatório das orientações económicas do governo da República Popular da China, apresentado na abertura da sessão anual da APN, o Governo Central fixou ainda a meta de crescimento para este ano nos 6,5 por cento, informando ainda que pretende manter a inflação em torno dos 3 por cento, ao mesmo tempo em que espera criar 11 milhões de postos de trabalho nas cidades.

O analista político Arnaldo Gonçalves afirma que, até agora, corre tudo dentro do esperado. “É a racionalização das previsões do crescimento económico do PIB, que teve o seu pico em 2007 e em 2010 estava acima dos 10 por cento”, diz. “Desde 2010 para cá, e desde 2014, tem revelado uma queda de ano para ano,” acrescenta. Assim, para o próximo ano, as previsões situam-se nos 6,5 por cento para este ano, ainda que o Deutsche Bank “preveja uma redução do PIB para 6 por cento, em 2017”. “Segundo o Deutsche Bank, este declínio do crescimento da economia chinesa vai continuar nos próximos anos, a China não se consegue libertar desta tendência,” acrescenta Arnaldo Gonçalves.

O analista destaca ainda os objetivos da China que foram mencionados no decurso desta sessão da APN, e que passam por “cortar a capacidade de produção”, além de “controlar os riscos financeiros e reforçar a regulação”, “tentar arrefecer o mercado imobiliário” e “dar maior dinamismo ao sector produtivo nacional”. Na opinião de Arnaldo Gonçalves, são “metas possíveis de alcançar”, uma vez que o “Governo está a tentar controlar tudo o que seja investimento na banca não-oficial, Internet, aplicações pouco fiáveis, não só do Governo, mas também dos outros agentes económicos”. Define em particular como objetivos a redução “da produção do aço e do carvão”, o que, ainda que “seja passível de ser alcançado”, poderá ter “consequências em termos do emprego”, conduzindo em alguns casos ao “encerramento das unidades industriais”.

Além disso, Li Keqiang mencionou na 12a sessão da APN um investimento do Governo Central na ordem dos 800 mil milhões de yuan na construção de caminhos-de-ferro e 1,8 biliões yuan em autoestradas e ligações por canais, rios ou mar. “Estão relacionados com a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota — e, ligado a isso, a expectativa da China de interligar o território chinês com todo o planalto da Ásia central e ao mesmo tempo reforçar vias de comunicação e transporte com países limítrofes da China”, diz.

No campo das preocupações, Arnaldo Gonçalves realça “o controlo da dívida malparada, resultante de empréstimos a empresas do Estado”, e que “pode refletir uma dívida brutal escondida, e que nunca vai ser sanada”. Além disso, do lado negativo, destaca a redução de investimento em mercados estrangeiros e a restrição de volumes monetários para o exterior.

O que não foi dito

Mas há duas coisas “que não vão ser faladas”, mas que continuam na agenda. “Nada foi dito, mas não se previa que fosse dito, sobre a renovação da liderança [os futuros membros do Comité Permanente do Politburo]. Só em Setembro ou Outubro é que se vai saber quem se posiciona nas primeiras linhas para acompanhar Li Keqiang e Xi Jiping, os dois únicos membros do Politburo que, em princípio, transitam para a nova liderança”, afirma.

Falta também saber a resposta chinesa à nova política norte-americana. “Estão a observar o comportamento dos Estados Unidos”, diz, adiantando que “Donald Trump [presidente dos Estados Unidos] defende a proteção dos produtos nacionais e da indústria nacional” e que isso poderá ter impacto nas importações para a China e nas exportações da China para aquele país.

O presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, Zhang Dejiang, afirmou também que o Governo Central atribui grande importância às eleições que terão lugar este ano. Segundo a imprensa chinesa, Zhang realçou que espera que a eleição no território vizinho decorra de forma “suave” de forma a que seja eleito um Chefe do Executivo patriótico, que ame Hong Kong e que tenha a confiança do Governo Central, bem como que seja capaz de governar e de ter o apoio dos residentes”. Sobre as eleições legislativas de Macau, o dirigente manifestou o desejo de que estas “possam manter a estabilidade” do território e “defender a decisão do Governo de Macau”.

Sobre estas indicações, Arnaldo Gonçalves afirma que, “do ponto de vista político, não há nada a esperar”, já que “as diretivas estão dadas”. Segundo o analista, parecem querer “um Chefe do Executivo menos assertivo na relação com as oposições, mais pragmático, mais suave”. No caso de Macau, “é tudo tranquilo, com o poder alinhado a Pequim, seguindo fielmente as indicações que vêm de lá”. Ainda assim, há uma ponta solta que Arnaldo Gonçalves destaca: “Aquela ideia de Macau ter mais visitantes da China [Continental], não vejo como é que se conjuga com o controlo dos investimentos; […] não sei se Pequim tem vontade de criar mais um estímulo ao consumo.” 

Luciana Leitão

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