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À procura de paz interna

Os conflitos persistem entre dirigentes, desde o topo da liderança de órgãos de soberania até às secções partidárias de base. Um simpósio internacional juntou este mês figuras guineenses e estrangeiras e voltou a recomendar diálogo. Mas haverá alguém com poder para o pôr em prática e chegar a resultados?

Rosantina começa a chorar a meio da entrevista. O tema é o aniversário da independência da Guiné-Bissau, pela qual o marido lutou. Mas foi o país independente que o matou e cobriu Rosantina com uma tristeza que ainda hoje se vê. Pior ainda, depois de fuzilado, houve rituais que dilaceraram o corpo de Paulo Correia. “Que barbaridade é essa? Porquê? Porquê”, questiona em voz alta, alterada, de punho cerrado, como que há 32 anos a conter uma revolta imensa contra o ex-presidente Nino Vieira (assassinado em 2009). “Não sei quando é que isso vai acabar no meu coração”, reconhece.

Desde a luta que culminou com a independência em 1973 que incontáveis famílias da Guiné-Bissau acumulam histórias de conflitos nunca resolvidos semelhantes ao de Rosantina Correia. Episódios entre guineenses, discórdias que têm ajudado a atear vinganças e lutas pelo poder ao longo de décadas. “[A crise política] que temos hoje resulta das lutas dentro do PAIGC, de combatente contra combatente”, porque o discurso ético do partido morreu com Amílcar Cabral, líder assassinado em 1973, e desde então cada um “safa-se como pode, em vez de salvar o país”, resume Delfim da Silva, militante do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e um estudioso da história guineense.

Paulo Correia foi um destacado combatente guineense e proeminente membro do Governo. O presidente Nino Vieira mandou-o prender a 17 de outubro de 1985. Paulo Correia era ministro da Justiça e vice-presidente do Conselho de Estado. Foi acusado de estar envolvido num alegado golpe de Estado. Passou oito meses na prisão e foi fuzilado com outros cinco militares. “Aquilo foi um crime porque não havia nenhum golpe. Assassinaram as pessoas sem razão. Era só inveja porque o Paulo começou do nada” e era uma figura que mobilizava muitos jovens, defende Rosantina.

“Houve fuzilamentos e enterraram-nos. Mas ao Paulo não: cortaram-no ao meio, em dois. Puseram-no num helicóptero e metade [do corpo] foi deitado no alto mar. Porquê”, pergunta Rosantina, em lágrimas. Contaram-lhe que a ordem veio de Nino. O chefe de Estado terá dito que “se o enterrassem completo, o Paulo ia levantar-se”. Porque uma vez, na luta armada “o Paulo morreu, puseram-no debaixo de uma árvore, cobriram-no e depois encontraram-no na tabanca [aldeia]”. Ou seja, ele “era capaz de se levantar depois do fuzilamento. Que barbaridade é essa?”.

Quebrar o ciclo

A mulher e os quatro filhos de Paulo Correia, três raparigas e um rapaz (hoje fora do país), souberam pela rádio que o pai tinha sido fuzilado. Rosatina recorda que Vladimir, na altura com 12 anos, “foi logo para o Porto do Pindjiquiti”. “Queria ir para a ilha de Bolama fazer o serviço militar para acabar com todas as pessoas que mataram o pai” e esta tem sido uma forma de os conflitos se perpetuarem. É para quebrar este ciclo e consolidar a paz que entra em cena o padre Domingos da Fonseca. Ele lidera a única equipa na Guiné-Bissau que está a tentar quebrar esta trágica rotina. 

A Comissão para Organização da Conferência Nacional “Caminhos para Paz e Desenvolvimento” entrou em funções em 2015, já ouviu mais de três mil pessoas em todo o território da Guiné-Bissau e estudou a experiência de reconciliação noutros países como Timor-Leste e Costa do Marfim. Há poucos dias promoveu um simpósio internacional em Bissau para reforçar o debate. O convidado de honra para o evento, entre 09 e 11 deste mês, foi José Ramos-Horta, Nobel da Paz em 1996, ex-presidente de Timor-Leste e representante da ONU em solo guineense durante 18 meses, entre 2013 e 2014. Uma figura chamada para partilhar a experiência de reconciliação em Timor e assim enriquecer o simpósio que pretende ser meio caminho andado até à conferência nacional – ainda sem data marcada. Uma conferência que “não vai resolver os problemas “ da noite para o dia, mas vai “apontar caminhos” sobre como deve ser feito o processo de pacificação, destaca Domingos da Fonseca – salientando que vai ser preciso tempo, muito tempo, para sarar feridas como a de Rosantina e assim alcançar uma paz duradoura. A conferência deve responder a muitas perguntas: que tipo de justiça, que tipo de confrontação entre vítimas e agressores deve haver? Com ou sem amnistia? E qual a tipologia de conflitos abrangida?

A intervenção do Nobel da Paz acabou por insistir na necessidade de diálogo. Nas pistas para a reconciliação nacional e consolidação da paz na Guiné-Bissau, Ramos-Horta apontou como fundamental “a cooperação sã entre órgãos de soberania do Estado”, que devem estar “permanentemente abertos ao diálogo institucional” e que “não devem competir, mas sim coordenar-se entre si”. 

Da mesma forma, o relatório final da comissão organizadora da conferência pela paz propõe a criação de um Espaço Nacional de Diálogo e Reconciliação Nacional, “com autonomia administrativa e financeira, sob o Alto Patrocínio do Presidente da República enquanto símbolo da unidade nacional, com assistência direta dos fundos públicos do Estado”. É também proposto o enquadramento da “justiça transicional (que reúne ações políticas, judiciais e sociais) na realidade guineense de modo a estabelecer condições de compensação das vítimas” de conflitos.

A receita é antiga, mas até hoje os líderes políticos guineenses continuam a preferir que o futuro seja cozinhado sob pressão. Falta equilíbrio, como ilustrou Domingos da Fonseca. “Haja equilíbrio entre a cabeça e o coração para que encontremos remédio para a nossa doença”, referiu.

“Timor-Leste é uma história de sucesso na construção da paz graças ao povo e aos parceiros internacionais”, concluiu Ramos-Horta. Já em solo guineense a história está por escrever: “Guiné-Bissau i sedo quil qui misti sedo”, rematou em crioulo, Domingos da Fonseca: “A Guiné Bissau é aquilo que se quer que seja”. 

Luís Fonseca• Exclusivo Lusa/Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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