Bitcoin de duas faces

por Arsenio Reis

O Governo Central impôs controlos mais rígidos à saída de moeda chinesa, levando alguns analistas a sugerirem que a bitcoin esteja a ser usada para contornar esses limites. Os especialistas contactados pelo PLATAFORMA MACAU garantem que na China Continental é um instrumento cada vez mais usado, não havendo uma necessária ligação ao reforço da fiscalização da fuga de capital. Em Macau, porém, a sua utilização continua a ser pouco expressiva, ainda que haja potencial de crescimento, sobretudo na indústria do jogo.

Com o reforço do controlo da saída de capital da China Continental, analistas citados na imprensa internacional têm sugerido que a bitcoin possa estar a ser usada como veículo para transferir dinheiro para fora do país. O que é certo é que nos últimos seis meses, mais de 98 por cento das operações envolvendo esta moeda digital, conforme o portal bitcoinity.org, vêm do gigante asiático. As regiões administrativas especiais não parecem estar a seguir a mesma tendência, por serem menos abertas a fenómenos novos, conforme explica o empresário Jase Leung. Porém, sobretudo através da indústria do jogo, o potencial de utilização em Macau é grande.

A bitcoin é uma moeda encriptada que nasceu em 2008, correspondendo a códigos que vivem em carteiras digitais na Internet. “Pela primeira vez, podes enviar capital — o equivalente a moedas e notas — de uma pessoa, diretamente, sem passar por terceiros, sejam bancos ou outras instituições financeiras; é uma revolução global e económica”, explica Filipe Farinha, fundador da empresa de inovação tecnológica Macau Source. “Há muitas pessoas sem acesso a bancos, nomeadamente em África e noutros sítios. Com a bitcoin basta ter um telefone e têm acesso a essa espécie de economia global”, continua.

Salientando que o seu interesse pelo assunto é ideológico, Filipe Farinha diz que a utilização da bitcoin é uma verdadeira revolução, também por ser descentralizada e por não haver nenhuma empresa com controlo. “Tens uma aplicação móvel e crias a tua conta. Podes receber ‘bitcoins’, basta dizeres um dos números da tua conta e eu posso enviar ‘bitcoins’ para essa conta”, diz, acrescentando: “Podes pegar nesse dinheiro para pagar alguma coisa ou enviar para uma pessoa, sem passar por nenhum servidor central, por nenhuma instituição bancária.”

No território, a utilização ainda é limitada. “Consegues fazer câmbio de dinheiro, de dólares de Hong Kong — em Macau tens quatro quiosques onde podes fazer estas trocas”, afirma, esclarecendo que, “de resto, não há muitos sítios onde possas usar a bitcoin”. A sua empresa “foi a primeira [em Macau] a usar”.

Para Filipe Farinha, há vantagens na utilização. “Se queres enviar dinheiro para as Filipinas, por exemplo, pagas muito em taxas. No caso da bitcoin, podes enviar o montante que quiseres e as taxas são insignificantes, além de ser quase instantâneo”, diz, a título de exemplo.

Quatro quiosques

A BitcoinNect, empresa com sede em Hong Kong, lançou os quiosques digitais na região vizinha, e adjudicou o negócio a representantes para chegar a Macau e à China Continental. No território há quatro, criados em 2014, que permitem aos utilizadores comprar e vender bitcoins’em troca de moeda.

Sobre a possibilidade de a moeda digital estar a crescer na China como forma de contornar o controlo do capital pelo Governo Central, o diretor executivo da BitcoinNect, Jase Leung, afirma que “o Executivo tem medo do que a bitcoin possa fazer”, por ser “fácil de transferir”. Ainda assim, o potencial “controlo” que o Governo Central possa pôr, não pode ir além de determinados níveis. “Podem apenas limitar o montante diário de transações”, diz, a título de exemplo.

Ainda assim, nota que nos últimos três anos, as próprias instituições financeiras deixaram de ter tanto medo da moeda digital. “Contrariamente ao que se diz, a bitcoin não é disruptiva, mas construtiva — as transferências normais têm muitas taxas e levam, por vezes, entre três e quatro dias”, diz, acrescentando: “Com a moeda digital podes fazê-lo em 10  minutos.”

E, diz Jase Leung, já se notam algumas tentativas de controlo oficial, sobretudo através do método conhecido por procedimentos de devida diligência (KYC, na sigla inglesa), em que o usuário deve fornecer toda a sua documentação para poder ter acesso às moedas digitais. “Nas últimas duas semanas, há mais controlos através do KYC”, revela. “E temos visto o volume das transações a diminuir; o Governo Central deve ter feito alguma coisa.” 

O diretor executivo recorda que há muitos receios de que a moeda digital seja usada para fins mais obscuros, como o tráfico de droga ou de armas. “O que nós temos sugerido é mesmo o reforço do controlo através do KYC — sabes quem compra, veem-se as transações.”

A China é “mais aberta”

Na China Continental, comparativamente ao resto do mundo, usa-se muito mais moeda digital, e num volume largamente superior ao das regiões administrativas. “Hong Kong e Macau são mais conservadoras em relação a qualquer tecnologia nova”, diz Jase Leung. E, depois, há outro fenómeno em jogo. “Perto de 90 por cento das operações que se fazem com bitcoin vem dos especuladores, para valorizar a moeda digital”, afirma.

Em Macau, Jase Leung não vê que “a moeda digital tenha grande impacto na economia”, por estar assente no jogo, havendo já um esquema bem estabelecido. Ainda assim, Jase Leung vê grande potencial para a indústria do jogo no recurso à bitcoin, assim que houver mais sinais positivos do Governo Central. “Os casinos não querem arriscar o seu relacionamento com o Executivo. Estão à espera para ver como o Governo lida com a moeda digital”, diz.

“O volume das transações está a aumentar a um ritmo estável, juntamente com o preço da bitcoin e adoção de tecnologia”, diz, por email, Matteo Ventura, representante em Macau da Crypto Currency Trading Group, responsável pelos quatro quiosques digitais do território. O empresário prefere não revelar “números específicos”.

Sobre os utilizadores, Matteo Ventura afirma que não há um perfil específico. “Há esporádicos jogadores que vêm a Macau como turistas”, diz. Porém, o típico jogador que usa bitcoin normalmente prefere apostar na Internet, por ser mais vantajoso. Matteo Ventura afirma também que há já vários residentes que usam bitcoin para compras na Internet. “O que observo é que usam a bitcoin para preencher as lacunas do mercado. Por exemplo, vejo que os gigantes do comércio ‘online’ esqueceram-se de Macau oferecendo limitadas opções de pagamento”, acrescenta.

E nega uma possível ligação entre o aumento do recurso à bitcoin e ao controlo da fuga de capitais na China Continental. “Acredito que o crescimento da moeda digital é orgânico, na perspetiva que o ouro e os metais preciosos sempre foram mais valiosos do que as moedas tradicionais”, diz, acrescentando: “A melhor maneira de descrever a bitcoin é ouro com uma função instantânea de teletransporte. Assim que as pessoas percebem isto, não conseguem parar de angariar ‘bitcoins’, e isto é ampliado pelo constante aumento do valor.” Na quarta-feira, uma bitcoin valia à volta de 1039 dólares norte-americanos.

O economista Henry Lei afirmou, por email, ao PLATAFORMA MACAU, que o controlo imposto pelo Governo Central para limitar a saída de capitais para fora do país afeta sobretudo aqueles que precisam de efetuar transações internacionais. “Se o renminbi estabilizar, isso pode ajudar a abrandar a velocidade da saída de capitais e o Governo Central poderia ter espaço para relaxar esses controlos”, diz.

No que toca a Macau, o analista afirma que poderá “haver mais dificuldades para os investidores chineses enviarem os seus capitais para investimento imobiliário, ou também pode afetar o negócio das seguradoras, com clientes da China Continental”, diz. Sobre a ligação ao aumento do recurso à moeda digital, não houve comentários.

Luciana Leitão

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