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Problema social em ascensão

consumo abusivo de álcool tem-se vindo a agravar nos últimos anos em Cabo Verde, com o primeiro contacto com a bebida a acontecer em idades cada vez mais precoces e o consumo ‘per capita’ a aumentar de ano para ano. A situação é de emergência nacional, segundo o chefe de Estado cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, que chamou para si a responsabilidade de promover uma campanha nacional de prevenção que ajude a travar um fenómeno de “forte pendor” cultural e que beneficia de grande tolerância da sociedade.

E o retrato do consumo de álcool em Cabo Verde traça-se em números categóricos: cada cabo-verdiano consome em média 7,2 litros de álcool puro por ano, segundo dados de 2015 da Organização Mundial de Saúde (OMS) e as famílias cabo-verdianas gastam em bebidas alcoólicas mais do dobro do que em educação e o mesmo que em saúde.

Excluindo desta contabilidade os 61,4 por cento de cabo-verdianos que se declaram abstémios, o consumo médio ‘per capita’ sobe para 17,9 litros por ano.

O álcool é a droga lícita mais consumida e, nos últimos anos, mais de um terço dos doentes internados no único hospital psiquiátrico do país tem problemas associados ao álcool.

Cabo Verde regista uma frequência superior à média africana de perturbações ligadas ao álcool (5,1%) e entre os países lusófonos africanos detém a mais alta percentagem de mortes associadas ao álcool (3,6%).

São números que se traduzem em incapacidade para o trabalho, em violência doméstica, no aumento de mortes por acidentes rodoviários e no risco alargado de doenças crónicas.

Os dados mais desanimadores relacionam-se com o contacto precoce com o álcool, que acontece em idades cada vez mais jovens e encontra nas escolas o principal espaço de iniciação.

“Os jovens veem no álcool uma oportunidade de afirmação e de melhor aceitação e competem entre si para ver quem bebe mais”, lamenta o atleta paralímpico cabo-verdiano Márcio Fernandes, uma das personalidades que se associou à campanha nacional de luta contra o consumo abusivo do álcool, lançada pelo Presidente da República.

Márcio Fernandes deu a cara por um problema que não conhece fronteiras de idade ou classe social e falou publicamente da luta diária do seu pai com o consumo abusivo de álcool e de como isso tem afetado toda a família.

Deixou também uma mensagem  clara para os jovens: “Os jovens devem competir para ser melhores filhos, melhores alunos e melhores atletas porque só assim podemos ter uma sociedade mais equilibrada, com menos álcool e mais vida”.

Mais do que um problema de saúde, um problema social

“Menos álcool, mais vida” é de resto o lema da campanha, que conta com o alto patrocínio do Presidente da República e o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS) e mobiliza mais de 60 entidades, entre departamentos estatais e do governo, autarquias, organizações não-governamentais, associações de voluntários, universidades, escolas, entidades desportivas, sindicatos e congregações religiosas.

A iniciativa, que se desenvolverá em vários suportes, nomeadamente nas redes de sociais e nos órgãos de comunicação social, tem como público-alvo particularmente as crianças e os adolescentes e os homens em idade ativa, mas dirige-se de uma forma geral às famílias, às comunidades e às entidades empregadoras.

Para a ministra da Educação, Família e Inclusão Social cabo-verdiana, Maritza Rosabal, prevenir o acesso das crianças e adolescentes ao álcool é o grande desafio, já que nas escolas cabo-verdianas, à margem do consumo precoce (entre os sete e os 17 anos) registado pelos alunos, há ainda a forte prevalência de alcoolismo entre os professores.

“Isto tem um impacto tremendo nas crianças que reproduzem os comportamentos sociais”, dos adultos, sustenta a governante, para quem o alcoolismo é, além de um problema de saúde, um problema social.

Maritza Rosabal considera a campanha lançada pela Presidência da República “pertinente, importante e urgente face à gravidade da situação”, mas sustenta que é preciso ir mais além e fazer acompanhar a campanha de medidas efetivas, nomeadamente de um plano de recuperação e reinserção social dos alcoólicos.

Cabo Verde aprovou no início do ano um Plano Estratégico de Combate aos problemas ligados ao álcool para o período 2016 – 2020, que estabelece como meta reduzir o consumo abusivo do álcool em 10%.

O consumo de álcool é um das práticas mais enraizadas da sociedade cabo-verdiana, tendo na sua origem fatores sociais como o desemprego, mas regista também um forte “pendor cultural” e beneficiava até há pouco da falta de regulação da produção de aguardente de cana-de-açúcar (grogue), a principal bebida alcoólicas produzida e consumida no arquipélago.

A nova lei que regula a produção e comercialização de grogue entrou em vigor em agosto último e espera-se que venha a reduzir a produção e venda desta aguardente, em muitos casos de produção caseira, ilegal e com recurso a produtos com efeitos nocivos para o organismo, como forma de embaratecer o produto, tornando-o mais acessível a todos.

Aplicação de mais impostos aos produtos alcoólicos, agravamento das punições relativas à condução sobre efeito de álcool e fiscalização da produção ilegal de grogue são algumas das medidas avançadas pela OMS, que propõe ainda uma “monitorização constante desta epidemia”.

O ministro da Saúde, Arlindo do Rosário, não tem dúvidas em considerar o alcoolismo como “um grave problema de saúde pública” que, além dos custos sociais, “representa “custos elevadíssimos” para os serviços de saúde.

“A magnitude dos efeitos nocivos conexos com o consumo abusivo de álcool manifesta-se em número de mortes prematuras nas estradas, na violência baseada no género, nas várias formas de mortes de causas externas, no absentismo ao trabalho, no surgimento de doenças que cursam para a cronicidade e que levam a incapacidades de vária natureza”, disse.

Sociedade consumida pelo álcool

Por tudo isto, a campanha lançada pelo Presidente de Cabo Verde surge como um “grito de alerta” para uma “urgência nacional” que tem sido negligenciada e que, segundo o chefe de Estado, está a consumir as famílias e a sociedade cabo-verdiana.

“O uso abusivo de bebidas alcoólicas constitui um dos grandes males do nosso país […] que juntamente com a pobreza constitui o problema maior a que temos de fazer face”, defendeu.

 “As medidas de política para fazer face a essa realidade têm sido muito limitadas. Estamos perante uma situação de gravidade extrema, temos consciência da mesma, falamos dela, classificamo-la de muito grave, mas de concreto não fazemos o mínimo suficiente e adequado. Diria até que fazemos muito pouco”, disse.

“O uso abusivo do álcool está a consumir-nos enquanto pessoas, enquanto famílias, enquanto sociedade e assistimos, quase impávidos e conformados, a esta situação quase absurda, conduta que configura uma situação de negligência e de conivência coletiva verdadeira e altamente portadora de dano social”, prosseguiu.

Para Jorge Carlos Fonseca, a ação tem-se limitado a um “combate tímido” das consequências sem agir concretamente sobre as causas profundas.

As exceções são, segundo o Presidente, a lei e o Plano estratégico de combate ao alcoolismo e esforços dos profissionais da saúde, educadores, ONG e confissões religiosas que “teimam em não baixar os braços”.

 “Se essa realidade explica, em parte, o problema, ela não pode, de forma alguma, justificá-lo. […] O incentivo direto ou indireto para o consumo exagerado e para o consumo precoce deve ser combatido”, sustentou.

Por isso, o Presidente defende que a “prevenção é a palavra-chave” porque permite “fornecer às pessoas, às famílias, os instrumentos necessários a um relacionamento saudável com o álcool”.

Cristina Fernandes Ferreira 

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