O boom do turismo chinês - Plataforma Media

O boom do turismo chinês

Em 2015, o número de chineses que viajaram pelo mundo continua a impressionar.
O aumento do PIB chinês per capita e o apetite para viagens continuou a crescer

Ao longo dos próximos dez anos os números vão continuar a subir, o que marcará o surgimento de novos destinos. A maior parte dos analistas prevê que o número viajantes com origem na China praticamente dobre, para 220 milhões em 2025. 

Houve um aumento significativo de saídas: 120 milhões de turistas chineses viajaram para o exterior em 2015. Entre eles, 67 milhões tiveram como destino Hong Kong e Macau; cerca de cinco milhões foram para o Japão, 12 milhões para a Coreia, Taiwan e países da ASEAN; dois milhões para os Estados Unidos . Mais de metade dos turistas chineses têm como destino Hong Kong e Macau. Se excluirmos estes dois destinos, o número de turistas chineses aumentará duas vezes e meia em 2025, atingindo os 130 milhões.

Nos últimos três anos, os chineses foram aqueles que mais viajaram no mundo. Hong Kong teve 59 milhões de visitantes em 2015, 78% dos quais provenientes do Continente: 46 milhões. Macau acolheu 30 milhões de turistas, 67% vindos da China continental: 20 milhões. Ainda assim, menos de 10% dos chineses – 1,3 biliões no total – viajaram para fora das suas fronteiras em 2015.

A desaceleração da economia china não deve ter grande impacto no turismo. O número de titulares de passaporte chinês deverá expandir para mais 100 milhões, na próxima década, durante a qual crescerá a classe média e a geração dos millennials, geração nascida entre 1980 e 2000 – entre os 15 e os 35 anos – com fome crescente de novas aventuras.

Uma geração diferente
Apenas 4% dos chineses possui hoje um passaporte (55 milhões), número muito inferior ao dos japoneses (25%), norte-americanos (35%), australianos (50%), canadianos (60%) ou ingleses (80%). Espera-se que o número de chineses detentores de documentos de viagem triplique em 2025 (150 milhões) contra um aumento 25% em termos globais. As viagens para o exterior têm maior correlação com o aumento do número de passaportes do que o crescimento económico.

No que toca à evolução demográfica aos hábitos turísticos, dois terços dos viajantes chineses são millennials. Entre eles jovens, mais de 70 milhões devem formar-se nas universidades chinesas durante a próxima década, sendo eles o principal motor para o número projetado de portadores de passaportes, em 2025. Esta geração, bem informada e familiarizada com a internet, tem acesso fácil à informação, fala línguas e está interessada em viajar para o exterior. O crescimento da classe média faz também antever um maior apetite pelas viagens e pelo aumento dos gastos em entretenimento.

O crescimento do PIB per capita será acompanhado pelo aumento da classe média urbana, com rendimentos para viajar. Para além de Hong Kong e Macau, com mais poder de compra os chineses irão expandir seus horizontes a outros destinos asiáticos e, mais tarde, à Europa e aos Estados Unidos.

A percentagem de rendimento das famílias dedicada ao lazer é ainda baixa na China. Em termos absolutos, a despesa média anual per capita é 10% inferior ao valor gasto no Japão, EUA ou Coreia, razão pela qual se prevê que essa despesa cresça.

No lado da despesa, os turistas chineses devem gastar 450 mil milhões de dólares em viagens ao exterior, em 2025, mais 250 mil milhões do que em 2015. No ano passado os turistas chineses gastaram 200 mil milhões em viagens, dos quais 60 mil milhões em compras no exterior. Valor, este, que deverá atingir os 130 mil milhões em 2025.

 

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Fatores-chave para deslocação

Os turistas chineses levam em conta vários fatores quando escolhem um destino, tais como a distância, política de vistos, diversão ou compras.

Muitos países asiáticos estão apenas a três a quatro horas de avião, o que tem vantagens em relação à Europa e aos EUA. No entanto, para muitos deles é difícil obter vistos a partir de China, o que faz com que pareçam mais longe. Nos últimos dois anos, vários países baixaram entretanto a exigência de vistos para turistas chineses. O mercado japonês, por exemplo, captou mais 50 milhões de visitantes chineses, contra os 10 milhões antes alteração, em janeiro de 2015. Não há por isso dúvidas sobre o impacto direto no turismo da liberalização da política de vistos.

Os jovens Millennials representam dois terços dos viajantes chineses e são os mais propensos a novas experiências, o que resulta no aumento nos gastos relacionados com o lazer e a diversão: comer fora, desporto, jogos on-line e aventura continuam a crescer, apesar do abrandamento económico. Ainda assim, os gastos per capita dos chineses em entretenimento continuam abaixo da média mundial: 9%  contra 16-17% nos EUA e Japão.

As compras são um dos principais motores para a seleção de destinos. Em 2015, os turistas chineses gastaram 200 mil milhões de dólares no exterior, 30% dos quais em compras. A oferta de produtos mais baratos é um fator-chave porque, ao contrário do que se possa pensar, os produtos de marca são em média 20 a 30% mais caros na China do que em muitos destinos turísticos. No longo prazo, prevê-se que a motivação gradualmente desloque das compras baratas para o entretenimento.

Hong Kong e Macau têm sido os mercados de fácil acesso para os chineses. Embora se preveja que permanecerão destinos importantes, o maior crescimento de visitantes chineses será na Ásia. Sendo o Japão o destino mais atraente para os chineses, a Coreia é o segundo país asiático com maior número de locais referenciados como património mundial na Ásia, tendo uma oferta cultural abundante a apenas três horas de avião, com viagens relativamente baratas. Além disso, há inúmeros cruzeiros, talhados para fins de semana ou férias mais curtas, e a política de vistos é mais relaxada que a do Japão. Os chineses não precisam de visto para a Ilha Jeju e, a partir deste ano, estão também dispensados d visito para a Coreia continental, desde que se desloquem também a Jeju. Para o Japão o processo é mais complexo e demora algumas semanas.

A facilidade na obtenção de vistos e a diferenças de preços são no futuro próximo os dois fatores decisivos na escolha do destino.   

 

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Descontos e novas tecnologias em Macau

Macau está a aumentar a sua capacidade para receber novos turistas. O número total de quartos disponíveis, em 114 hotéis, aumentará em 2017 para 42.000, mais 10.000 do que atualmente (24%), com o crescimento a concentrar-se na oferta de 4 e 5 estrelas. Contudo, novos atrasos na construção Ponte Macau/Zhuhai, Hong Kong Macau, bem como no metro de superfície, poderão afetar o ritmo de crescimento da indústria turística em Macau.

Sendo consumidores experientes, inclusivamente no on-line, os Millennials valorizam a questão do preço nas compras que fazem no exterior. Com a desvalorização do renminbi, a competitividade nos preços será cada vez mais importante e Macau é um dos lugares mais caros do mundo no que toca à hospedagem. Os hotéis de 4 e 5 estrelas são em média 30% mais caros do que na Europa (USD 200); nos casinos a aposta mínima no segmento de massas é também a mais alta do mundo (HKD 500). Dada a queda do mercado VIP, vamos assistir nos próximos anos a uma onda de promoções e descontos nos hotéis, pois os casinos têm de apostar no mercado de massas, com preços mais atrativos.

A diversificação da oferta, com base na cultura, no património, na comida… é outra das tendências em Macau. Para os Millennials, o bem-estar é uma busca diária: fazem mais exercício, comem de forma mais saudável e fumam menos que as gerações anteriores; usam aplicações para telemóvel para rastrear o exercício fisico e procuram on-line alimentos mais saudáveis. É aí que estão cada vez mais dispostos a gastar dinheiro em marcas convincentes.

Outro indicador interessante é o da “busca digital de turismo”, que mede o número de pesquisas feitas on-line sobre a oferta turística. Macau está bem servido em termos de património cultural, mas está muito atrás de Hong Kong no entretenimento, pelo que se espera que os novo casinos venham também reforçar a oferta nesse campo, onde o Governo tem também responsabilidades na definição do plano estratégico para a diversificação.

Sendo a China é a maior comunidade on-line do mundo, faz sentido avançar no sentido das novas tecnologias e da chamada economia on demand. A nova geração de turistas está constantemente on-line e à procura de informações; voltada para um novo conjunto de serviços que fornecem acesso a produtos sem os encargos de propriedade: economia da partilha. A promoção de negócios através de plataformas de comércio eletrónico, eficaz na obtenção de publicidade, é também fonte de novas oportunidades de negócio e de modelos operacionais inovadores. Infelizmente, a ponte E-Commerce entre a China e Macau é ainda subdesenvolvida, para não dizer quase inexistente. Não existe ainda legislação para o efeito em Macau e o o Governo terá de definir o estatuto jurídico de terceiros envolvidos em pagamentos e transações on-line. A internet mudou as coisas, permitindo a conectividade em massa  – peer-to-peer – e trouxe enormes benefícios para os consumidores. Serviços como a Uber, ou AirBandB, provaram em todo o mundo, mas a maioria destes serviços ainda é ilegal em Macau. Governo, operadoras turísticos e casinos devem investir em serviços tecnológicos, para as nova gerações que aí vêm.

 

Marco Rizzolio

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