Da “chamada revolucionária” ao “interesse e amizade” - Plataforma Media

Da “chamada revolucionária” ao “interesse e amizade”

A aventura começou nos idos anos de 1960, quando a primeira licenciatura em língua portuguesa abriu em Pequim uma nova janela para o mundo. Em 2002 a fúria espalhou-se e “o raio queimou toda a pradaria”, diz um velho ditado chinês.

James Li, silhueta típica da década de 1960, moderou com humor a sessão sobre estratégias para o reforço do ensino do português na China e o papel da RAEM; selando a intervenção de Yan Qiarong com paixão e saudosismo: “Com muitos anos de diferença, somos colegas da mesma escola – Universidade de Comunicação da China, em Pequim – onde a primeira licenciatura abriu. Eu ainda fui levado pela chama revolucionaria, em condições muito difíceis; agora eles fazem-no por interesse e por amizade. Têm de apreciar esta nova etapa e as condições que lhes são dadas para aprender uma língua que é muito bonita e é falada em todo o mundo”.

A frase mexeu com a sala. Em rigor, Sílvia, que fala um português escorreito e completo – sotaque ligeiro, que passa por nem ser chinês – apresentou uma série de estratégias em curso para o ensino do português na China; mas deixou também uma série de sugestões para que o ensino do português dê outro salto. O contraste, quase poético, frisou a relatividade da perspetiva: há meio copo meio cheio – mas a outra metade ainda está vazio.

A coordenadora do curso de português da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade de Comunicação da China foi uma das estrelas do evento. Pelo nome da instituição, pela juventude em cargo com tamanho estatuto; sobretudo pelo conhecimento de causa. Muito se fala da explosão do português, do interesse infinito, das oportunidades em barda e do futuro dourado. Mas “há falta de professores”, como há “défice na formação”; ou de “materiais didáticos”, Sílvia passou a pente fino o que se faz e o que falta fazer para fazer crescer o português. E deixou a nota quiçá mais estratégica – ou a falta dela. A China tem um projeto lusófono, um discurso e um plano; “mas não tem um orçamento nem uma estratégia própria para a língua portuguesa”, tratada no quadro de “uma das 23 línguas pouco faladas”, ao contrário do que acontece com o inglês, o japonês ou o espanhol. “Já não faz sentido dizer que o português é pouco falado, mas na escala da China ainda é assim”, explica. “Macau pode ajudar, com os meios extraordinários que tem”, frisa Sílvia. Como? Três ideias chave: “Bolsas de estudo, formação de professores e produção de materiais didáticos”

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Em que português nos entendemos?

Isabel Poço Lopes partiu a loiça, no sentido da ruptura com o discurso formal. Houve reações, até em tom crítico… “Os linguísticas não gostam muito”, comentava no intervalo da sessão. Não gostam de quê? “Da dúvida, desta coisa de pormos em causa a unidade do português”, responde.

De facto, a linguista do IPM, com carreira feita em Coimbra, não trouxe números, teses ou certezas. Trouxe a dúvida e ateou o debate. Na China, aprende-se o português de Portugal e o do Brasil. Mas será essa a estratégia que faz sentido, dada a ecologia da língua, nesta geografia? Quando baralham as cartas, saltam cartas com o símbolo da China, RAEM, plataforma, relações económicas e comerciais, bilinguismo, língua(s) portuguesa(s), outras línguas. Isabel Lopes explica: “Quero chegar à Lusofonia, à sua diversidade”. Apesar de tudo “há uma unidade”, mas ela faz parte de um grupo menor, quando pensamos que, na Guiné, menos de 10% falam português, em Moçambique talvez 20%. São números. Não são escondidos, mas serão talvez calados. Ainda por cima, não falam todos por igual.

“Ela tocou na ferida”, dizia em busca de água um docente mais experiente. Os cabelos brancos deixam-no mais à vontade. A pergunta parece ser simples: “Afinal, qual é o português que devemos ensinar. Será que, sabendo quem vai para Angola ou Moçambique deve aprender o mesmo que quem vai para o Brasil ou Portugal. Será que as diferenças afetam; poderão influenciar nos negócios?”. A resposta é desafiante: “Só há uma língua portuguesa, mas ela tem variantes e, se calhar, esse podia ser o papel de Macau. Ser uma verdadeira plataforma de estudos é entender essa ecologia da língua portuguesa em toda a sua diversidade”, remata Isabel Lopes.

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