“Português tem uma natureza prática” - Plataforma Media

“Português tem uma natureza prática”

A língua portuguesa é hoje um canudo que dá emprego. Já não é uma paixão poética ou cultural. Isso obriga a rever processos, formatos e currículos para adaptar o ensino às necessidades do mercado, explica o coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau. Carlos André segue uma estratégia clara da instituição: mapear no Continente formas de ajudar a rede nacional de ensino do português a evoluir.

Plataforma – Qual foi a estratégia deste seminário?

Carlos André – Sentar frente a frente entidades ligadas ao mundo empresarial e ao mundo académico. As universidades que ensinam português em Macau e na China discutem regularmente entre si; por isso, quando o Fórum Macau me abordou sugeri que talvez valesse a pena uma coisa diferente. Como o Fórum habitualmente senta à volta da mesa entidades ligadas a atividade económica e comercial, sugeri que juntássemos ambas as partes: os que ensinam português e as empresas que recorrem aos nossos bilingues.

Com que sentido?

[C.A.] – Faz todo o sentido, sobretudo se percebermos que os diplomados em português, na sua esmagadora maioria, vão para as empresas que mantêm relações comerciais com os países de expressão portuguesa.

Já não vão para a Função Pública?

[C.A.] – Está a mudar. Segundo os últimos estudos da Universidade de Xangai, as empresas contratam-nos para assessorarem a administração nos contactos com os países lusófonos.

Essa tendência vai crescer?

[C.A.] – Costumo dar este exemplo: a China está na “short-list” para a construção da linha de alta velocidade no Brasil – e tem sérias possibilidades de ganhar. Ainda que Dilma Rousseff imponha uma quota, para 4.500 km de linha férrea serão precisos milhares de chineses que não falam uma palavra de português e vão precisar de “babysitters de língua”, que são os nossos diplomados. Quantos serão necessários e quantos tradutores teremos de formar, tendo em conta este crescimento exponencial? As universidades têm de fazer o ajustamento e as empresas têm de perceber o que é que lhes podemos oferecer, para configurarem a sua gestão à realidade que lhes chega do sistema universitário.

Essa adaptação pode ser feita a que níveis? 

[C.A.] – Na própria configuração dos cursos. Que outros modelos devemos adoptar? Que temas devemos abordar? As empresas querem gestores e engenheiros, muitas vezes esquecendo-se que a comunicação é fundamental. Um grande amigo meu, industrial português, dizia-me que tinha excelentes engenheiros; mas o problema é que não sabiam ler nem escrever. No fundo, não sabiam comunicar. Conceber esta realidade no mundo ocidental é uma coisa; agora, em dois mundos substancialmente tão diversos – as estruturas não têm nada a ver e a forma de pensar a língua é totalmente diferente – é necessário criar mecanismos de comunicação. As empresas que nos digam onde reside o problema e as universidades podem transformar os seus sistemas.

Mesmo nos currículos?

[C.A.] – Talvez seja necessário, porque a maior parte das pessoas que organizaram as malhar curriculares viveram sempre no ensino, tendo-os estruturado em função dessa realidade.

O português nunca foi também instrumento de plataforma… 

[C.A.] – Pois não. E na China não se falava de bilinguismo; aprendia-se português para a comunicação política. Um francês e um português não têm necessidade de falar em bilinguismo, só têm que resolver os problemas de comunicação. Mas aqui a parede é tão grande que é necessário o bilinguismo. As pessoas têm de ser competentes nas duas línguas, porque os pontos de intersecção são muito escassos. É também essa a riqueza da civilização chinesa.

Faz sentido ensinar um português “comercial”? 

[C.A.] – Não necessariamente, mas é preciso entendê-lo como instrumento de natureza pática. O ensino do português no mundo tinha o paradigma da cultura, da história e da literatura; até da linguística enquanto ciência. Hoje, sobretudo na China, o objetivo é pragmático. Os alunos aprendem a comunicar em português e, de repente, ficam entusiasmados pelas culturas brasileira, portuguesa ou angolana, tal como eu me entusiasmo pela cultura chinesa. Mas querem é comunicar para ganhar a vida. Aprendem português como outros aprendem física ou gestão industrial: precisam de um emprego.

As universidades aceitam isso? 

[C.A.] – Muita gente entende que o saber se cultiva enquanto saber. Mas ninguém pergunta a um professor de arquitetura por que os seus alunos aprendem arquitetura; já se sabe que querem ganhar a vida como arquitetos. Quando um miúdo vai para a universidade escolhe uma carreira, não está com grandes especulações filosóficas. Se calhar será uma coisa completamente diferente, mas quando inicia um curso tem como objectivo a carreira. Se isso vale para as ciências, porque não há de valer para as línguas e linguagens?

Há uma diferença. Quem aprende línguas pode ir depois para muitas carreiras diferentes. Como é que a formação se completa? 

[C.A.]– Tocou num ponto nevrálgico: não podemos conceber que uma pessoa aprende línguas para ser tradutor. Ganha bagagem nas linguagens e na comunicação e, se acessoriamente aprender gestão, economia ou direito, pode tornar-se um especialista com a vantagem de trabalhar com as linguagens que conhece. Toda gente conhece o MBA; o que a maior parte das pessoas desconhece é que foi das primeiras formações académicas a não requerer formação específica de base. Uma pessoa com uma graduação em português, ao fazer um MBA está na área dos negócios e tem um grande potencial do ponto de vista da comunicação.

Estive dois anos como CEO de uma empresa, na área do vidro, e na nossa extensão em Nova Iorque estava um gestor que era compositor – formação de base em música – e tinha um MBA. A meio do percurso foi para o Japão reformular um estrutura qualquer na Sony. No mundo moderno nada disto é estranho, muito menos quando uma das formações que se combina é na área da comunicação. Quando um jovem me pergunta o que deve aprender digo sempre: estuda o que quiseres, escolhe uma carreira sabendo que poderás não a seguir; mas lê e escreve muito. Isso é fundamental.

O diálogo com as empresas ajuda a descobrir combinações? 

[C.A.]– No fundo é para perceber qual é no mundo de hoje e a orgânica com maior potencial para adaptar esse instrumento de comunicação às possibilidades reais, tendo em conta uma coisa fundamental e estratégica que é a relação empresarial e comercial da China com os países de expressão portuguesa. De que forma devemos formatar a preparação dos talentos bilingues? É uma expressão consagrada aqui, quer se simpatize ou não com ela, para colocá-los ao serviço do desenvolvimento das relações empresariais. Este seminário serve exatamente para percebermos isso.

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“Macau é demasiado pequeno” para competir 

Macau deve competir como centro do ensino das línguas? Ou antes ajudar a China a desenvolver essa competência? 

[C.A.] – Macau é demasiado pequeno e só faz sentido como ponte entre as duas línguas; até pela sua natureza identitária, de ser um embrião de cruzamentos culturais ao longo dos séculos. Agora pode beneficiar da relação que mantém com uma série de países de expressão portuguesa, que explodiram nas últimas três décadas, no bom sentido da palavra. É preciso dizer isto com desassombro: à exceção do Brasil, aos outros países foi-lhes vedada a possibilidade de terem futuro. Portanto, apesar da descolonização está ainda tudo por fazer.

Sobretudo os africanos? 

[C.A.] – Macau tem condições para manter o diálogo com esses países. Não é na sua ligação emotiva a Portugal, antiga potência administrante. Isso faz parte do nosso baú de emoções, mas o nosso projeto político não é esse; é ser a plataforma liga a China à Lusofonia. Faz parte do ADN de Macau usar o português.

As universidades estão preparadas para essa aventura? 

[C.A.] – Prefiro dizer que têm de se preparar. A História tem mais força do que as pessoas e acabará por impor esta situação. O Politécnico, onde tenho toda a honra em trabalhar, tem claramente a noção do seu papel de ligação com os países lusófonos.

Surpreendeu-o a dimensão do ensino do português na China? 

[C.A.] – Continua a surpreender. Não me espanta que amanhã, ao virar da esquina, encontre mais uma universidade a ensinar português, porque há várias a tentarem credenciar-se. Neste momento há 21 com licenciaturas e nove onde se ensina português sem nível de graduação. Aliás, a esse nível não temos informação segura. Fiquei espantado em Sichuan quando visitei uma escola primária onde se ensinava português, o que me leva a crer que existam outros locais que não tenhamos ainda mapeado. A rede das universidades que ensinam português vai crescer e, em dez anos, acredito que chegue às 30/40. Estamos também a chegar ao nível utilitário; ou seja, sem a preocupação de conferir qualquer grau. As empresas nem sempre precisam de diplomados e há um nicho de negócio que vai florescer na China: a formação direcionada às empresas, com cursos intensivos de natureza muito prática.

Como é que essa rede nacional de ensino do português olha para Macau? 

[C.A.] – Já perceberam que com Macau se podem desenvolver muito mais; por isso mantêm relações estreitas, em especial, com o IPM e a Universidade de Macau.

Mais importante do que atrair alunos para Macau será apoiar essa rede nacional? 

[C.A.] – Estamos a formar professores e, desde Janeiro de 2015, já demos mais de 150 horas de formação em seis universidades da China. Esse é o nosso caminho e é uma coisa relativamente simples de fazer.

Foi prematuro anunciar a morte do português em Macau, com a transição de poderes? 

[C.A.] – As línguas não morrem e o exemplo mais interessante é o latim, que não se fala há séculos e continua vivo. As pessoas tiveram a veleidade de imaginar que este era um território de língua portuguesa – e não é. Macau é uma miscigenação de culturas, mas está inserido numa malha chinesa. Agora, termos num território chinês uma língua que eu vejo em todas as placas nas ruas, onde não passo uma hora sem ouvir falar português; onde há um canal de televisão, vários jornais portugueses e um bilingue… Tudo isto são sinais de grande vitalidade. Se somarmos a isto a vontade política de quem manda, acredito que todas as notícias acerca da morte do português foram manifestamente exageradas e não tiveram consciência da realidade.

Durará depois de 2050? 

[C.A.] – Não é no período que vai até 2050 que o português tenderá a definhar. Se soubermos agir bem, o português vai viver muito para além deste período. A História não se mede em troços de 50 anos, mas sim em milénios; e se há um país que nos ensina isso é a China, onde as dinastias duram séculos.

 Paulo Rego

11 DE SETEMBRO 2015

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