Paulo Rego - ALEXIS E OS CINCO ELEMENTOS - Plataforma Media

Paulo Rego – ALEXIS E OS CINCO ELEMENTOS

 Na tradição chinesa, o corpo e o espírito, o tempo e o espaço, a dinâmica dos astros e a harmonia universal giram em torno do equilíbrio entre cinco elementos: madeira, fogo, terra, metal e água. Na política de Macau, cinco secretários projetam um novo modelo de governação de inspiração continental: ativo e poderoso, preso à roda do fazer que enrola o jogo e a especulação imobiliária, que tudo mina nos ventos do faz de conta. Nas cinco medidas anunciadas na Assembleia Legislativa, Alexis Tam corta a cabeça ao diretor do hospital público; cavalga na educação para a excelência; transforma a ruínas do Hotel Estoril num centro de indústrias criativas; embrulha, com mestria, o currículo patriótico na energia do saber: da região para a nação, a caminho do mundo. Em resumo, põe a própria cabeça a prémio, multiplicando o combate e disparando compromissos. O futuro dirá do seu destino. O presente, esse, mostra um líder que ergue a bandeira dos cinco novos governantes.
Logo após Lionel Leong ter formatado o novo ciclo, era difícil voltar a brilhar. Porque nunca na RAEM um secretário da Economia tinha erguido no parlamento a estrela de onde emana o poder. Manda quem pode; não é quem quer. E quem pode é agora poder institucional; não é quem enche os cofres do Estado e dos amigos da economia. Será mesmo assim? Sem exageros nem de ingenuidades, porque nada na vida é a preto e branco. O mundo continua a mexer e o poder fático está vivo e dará nota de si. Mas não é preciso ser génio ou guru para se ver que um discurso tão musculado tem a rede que vem do norte. Depois de Lionel ter cravado o metal na madeira que manda na terra, anunciando a avaliação das sub(concessões), antes de pensar em renovações; e depois de tantas promessas e decisões, anunciadas sem água na fervura, a passagem de Alexis Tam pelas Linhas de Ação Governativa ameaçava ser um balão esvaziado. Afinal, guarda ainda ar que sopra como se fossem bolas de fogo.
Voltando à história dos cinco: exposto nas Obras Públicas ao trabalho de Hércules, numa cidade paralisada com a hecatombe de Ao Man Long, Raimundo do Rosário aplica multas, exige prazos, troca nomes, pessoas e métodos… Até monta a comunicação; ele que que é conhecido por evitar holofotes. A Segurança, já se sabe, está neste mundo complexo de submundos como os árbitros estão para o futebol: quanto menos se fala deles melhor. Com a crise de nervos nos casinos, com tanto junket descapitalizado, a prova de fogo de Wong Sio Chak faz-se com a leveza com que passa pelos buracos da chuva. A maior incógnita, Sonia Chan, passeia a Administração e a Justiça como quem passa despercebida. Mas para quem veio da escola das Senhoras Democráticas, tendo no passado recente a marca do ferro de morte cravado no referendo à democracia, lá deixou na Assembleia uma marca de água tranquila. Os códigos são para ficar; o Estado de Direito é para durar. Talvez não saiba brilhar, mas ainda nada abalou. Menos mal… A magistratura de influência da China estimula e promete mais do que a cidade corporativa da oligarquia autonómica. Mas como não há almoços grátis, importa vigiar o sistema de direitos, liberdades e garantias. A fatura, se vier daí, não virá por bem.
Há duas estrelas incontornáveis no firmamento pentacular: Lionel Leong e Alexis Tam. Porque estão nos lugares de ponta, cruzando economia, educação e cultura, triângulo de onde pode emanar a magia da diversificação económica, da integração regional e do projeto lusófono chinês. Mas também porque provam ter perfis de comando. Lionel, mais discreto, já vinha com escola e fama disso. Alexis e mais surpreendente. Liberto das correias que o ataram no gabinete do Chefe do Executivo, assume-se como ícone do novo ciclo. Quando atua, projeta a imagem de que tudo mudou no círculo dos cinco. Na política, nem tudo é o que parece; na comunicação, parece que é mesmo assim.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Artigos relacionados
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter