CAIS CARIOCA DO VALONGO QUER SER PATRIMÓMIO DA HUMANIDADE - Plataforma Media

CAIS CARIOCA DO VALONGO QUER SER PATRIMÓMIO DA HUMANIDADE

 

Porta de entrada de escravos no Brasil quer reconhecimento da UNESCO

 

No último dia de setembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu inícioà elaboração de um dossier técnico para reconhecer a candidatura do Cais do Valongo como património cultural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A candidatura faz parte do reconhecimento das matrizes africanas do Rio, expressa no Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana.

O dossier é preparado em conjunto com a prefeitura do Rio. O Cais do Valongo foi construído em 1811 para concentrar o comércio de escravos. Até à proibição do tráfico negreiro, em 1831, ingressaram no país de 500 mil a 1 milhão de africanos trazidos para serem escravizados.

A presidente do Iphan, Jurema de Souza Machado, ressaltou a importância de se classificar o Valongo. “A Unesco tem uma convenção que trata do património da humanidade justamente para dar visibilidade e importância nas políticas públicas de proteção de sítios de bens considerados vitais para a compreensão da história da humanidade.”

O Cais do Valongo estava escondido, soterrado por diversas obras de urbanização ao longo de décadas, localizando-se abaixo de ruas onde fluíam um trânsito pesado. Foi revelado em 2011, durante as obras do projeto Porto Maravilha, que está revitalizando a região portuária do Rio. Atualmente, boa parte do Valongo já pode ser observada, em um trabalho de arquitetura urbana que revela o passado da cidade e suas origens históricas.

O Cais do Valongo foi construído em 1811 pela Intendência Geral de Polícia da Corte da Cidade do Rio de Janeiro, para atender à antiga determinação do vice-Rei, o marquês de Lavradio, feita em 1779. Seu objetivo era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados. O mercado de escravos se intensificou a partir da construção do Cais, porta de entrada de mais de 500 mil africanos, em sua maioria, vindos do Congo e de Angola, Centro-Oeste africano.

Em 1779 o comércio de africanos se estabeleceu finalmente na região do Valongo. Cresceu a cada ano, e viveu seu auge de 1808, com chegada da família real, a 1831, ano em que o comércio de escravos da África para o Brasil passou a ser feito às escondidas. Só em 1811 o cais foi construído, para que o desembarque fosse direto no local. “A partir de 1808, o tráfico quase dobra, acompanhando a cidade que, com a vinda da corte, passa de 15 mil para 30 mil habitantes. De 1811 a 1831, metade da economia do país, metade do PIB, é movida a escravos” diz o historiador Carlos Líbano, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

É nesse período de apenas 20 anos que 500 mil africanos – dos 4 milhões que aqui chegaram até 1850 – entram no Brasil pelo novo ancoradouro. A distância do Centro não impediu, como gostariam as autoridades, que olhares estrangeiros continuassem a descrever o funcionamento do mercado de escravos do Rio. A viajante inglesa Maria Graham, por exemplo, que esteve no Brasil entre 1821 e 1823, escreveu em seu Diário de uma Viagem ao Brasil que, no Valongo, “todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos”. Cada “peça” tinha um preço. Um africano novo e saudável, em 1811, podia chegar a algo em torno de cem mil réis, mas podia alcançar 200 mil se tivesse alguma habilidade especial, como a carpintaria. Como comparação, uma casa pequena no Rio de Janeiro custava cerca de um conto de réis, o que daria para comprar dez escravos normais ou cinco habilidosos.

Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Na primeira intervenção, em 1843, foi remodelado com requinte para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do (então) futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar Cais da Imperatriz, em memória ao acontecimento.

Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o Cais da Imperatriz foi aterrado em 1911. Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico, agora monumento preservado e aberto, atendendo a uma antiga reivindicação do Movimento Negro.

 

OBJETOS ORIUNDOS DE MOÇAMBIQUE E DE ANGOLA

O Cais do Valongo é um lugar simbólico, porque ali está o passado da população afrodescendente do país”, explica Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional que supervisiona as obras no porto. “Ele não foi encontrado por acaso. Desde 2010, sabíamos da existência de um sítio arqueológico naquele lugar”. Havia um totem no local informando que ali existira o Cais da Imperatriz, também enterrado no início do século XX, dessa vez para a reforma de toda a região central do Rio. Em nenhuma referência ao Valongo, que recebeu o maior número de africanos na Américas. Durante as escavações, foram descobertos os dois ancoradouros, um sobre o outro. Junto a eles, uma grande quantidade de objetos de uso pessoal, especialmente amuletos e objetos de culto vindos do Congo, Angola e Moçambique.

 

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