CHUI SAI ON, AS DUAS FACES - Plataforma Media

CHUI SAI ON, AS DUAS FACES

 

Foi o povo que deu a oportunidade a Chui Sai On de começar a sua carreira política, em 1992, quando o então jovem de 35 anos foi eleito por sufrágio direto para a Assembleia Legislativa de Macau. E foi o mesmo povo que lhe recusou um novo mandato, quatro anos depois. Este é o homem que acaba de ser confirmado para a liderança do Governo da RAEM nos próximos cinco anos por um colégio eleitoral de 400 membros. O político e o homem, num perfil do Plataforma Macau.

 

1957

A Europa assentava poeira, era o culminar de um processo de estabilização económica e política que fragilizara o continente após a II Guerra Mundial; a China comunista estava prestes a entrar num dos piores períodos de sempre, a Grande Fome, resultado de políticas económicas falhadas e que tiraram a vida a milhões de pessoas. E, enquanto a Malásia conseguia a independência do Reino Unido, Portugal mantinha-se descansado sob o seu império. Tinha perdido há três anos dois enclaves da Índia Portuguesa, Dadrá e Nagar-Aveli, mas em Macau, os dias passavam sem problemas para a governação de Pedro Correia de Bastos.

O jogo estava legalizado, os impostos do setor já mexiam com as economias da cidade, embora Stanley Ho ainda não tivesse aparecido em cena; Macau continuava a ostentar aquele que se dizia ser o edifício mais alto do ultramar português – o Hotel Central na Avenida Almeida Ribeiro; a comunidade macaense perdia um dos seus expoentes das letras, Deolinda da Conceição, enquanto, lá longe, Albert Camus recebia o Nobel da Literatura.

A 13 de janeiro desse ano, Chan Keng Fan, mulher do magnata da construção Chui Tak Seng, deu à luz em casa o seu segundo filho, Chui Sai On. Os caracteres do nome própriosignificam paz no mundo.

O Plataforma Macau traça aqui o perfil de Chui Sai On, reconduzido no cargo de Chefe do Executivo e homem que os meios de comunicação têm dificuldade em chegar perto e analisar. Para entender quem está por trás do político e o político neste homem, não foi possível contar com a colaboração do próprio, que rejeitou o desafio deste jornal na semana passada, alegando falta de tempo.

A família de Chui Sai On, com raízes em Xinhui, a oito quilómetros da cidade de Jiangmen na província de Guangdong, estava há já várias gerações em Macau. O tio, Chui Tak Kei, um dos líderes da influente Associação Comercial de Macau era um nome importante na vida política e empresarial de Macau.

Foi na casa onde nasceu, no número 40 da Rua de António de Basto, mesmo atrás da Casa Memorial Sun Yat Sen, que Chui Sai On passou a infância, de acordo com o jornal de Taiwan CD NEWS. Magro, de cabelo curto e negro, passaria despercebido entre os muitos que fariam todos os dias o caminho até à escola primária Ling Nam, a poucos metros de casa.

Au Kam Iong, ainda hoje diretora do estabelecimento de ensino, lembra-se de um rapaz alto, que gostava de jogar futebol e com mais espírito de grupo do que de liderança. “Gostava de ajudar os alunos e respeitava os professores”, nota ao Plataforma Macau.

Au sublinha que o pequeno Chui era “otimista, honesto” e que se destacava em todas as disciplinas com boas notas, especialmente na matemática e inglês.

 

1973

O inglês seria essencial nos próximos oito anos em que Chui Sai On iria passar por três cidades nos Estados Unidos.

Deixou Macau em mudança. Nesse mesmo ano, foi levada a cabo a reforma do Estatuto Político-Administrativo da Província de Macau (substituído em 1976 pelo Estatuto Orgânico), em que o Conselho Legislativo passou a ser designado por Assembleia Legislativa (AL); a Revolução dos Cravos iria acontecer dentro de meses em Portugal, mas passaria despercebida aqui, em Macau, entre a população chinesa. Trouxe, no entanto, transformações profundas ao sistema político, visíveis por exemplo na eleição direta de parte da AL. Estas eleições seriam fulcrais para o lançamento político de Chui Sai On duas décadas mais tarde.

Com 16 anos, partiu para Honolulu, onde frequentou a Hawaiian Mission Academy, um escola fundada em 1897 (na altura chamada Academia Anglo-chinesa) pela Igreja Adventista do 7.º Dia e para onde importantes comerciantes chineses enviavam os filhos para estudar.

À semelhança do irmão mais velho, Chui Sai Cheong, e do primo direito, Chui Sai Peng, também completou os estudos universitários em solo norte-americano. Foi na Universidade da Califórnia, em Sacramento, que terminou a licenciatura em Gestão de Saúde Pública. Na Universidade de Oklahoma completou o mestrado e doutoramento na mesma área.

Um trabalho da revista Macau Business realça que o grau de doutoramento foi concluído com uma tese sobre o abuso juvenil do consumo de drogas leves. Coincidência ou não, a estadia do estudante de Macau nos EUA apanhou o país a meio da revolução hippie e na ressaca das manifestações contra a Guerra do Vietname.

Em 1981, Chui Sai On voltou a Macau. A China lançava com Deng Xiaoping novas reformas económicas; Lisboa e Pequim tinham reatado há dois anos as relações diplomáticas, que iriam permitir discutir em breve o futuro de Macau.

De regresso a casa, Chui dedica-se à sua área de formação com o negócio Chui´s – Laboratório de Análises Clínicas e Radiografia.

Mais tarde assume o cargo de diretor executivo da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e casa-se com Winnie Fok, com quem tem uma filha. Winnie é sobrinha de Henry Fok, um dos fundadores da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau – ao lado de Stanley Ho – e vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Juntavam-se duas das mais influentes famílias em Macau. Chui e Fok.

 

1992

Mas Chui Sai On tinha duas faces. A de empresário e a de político. No mesmo ano em que John Woo lança o filme Face Off, Chui Sai On é eleito por sufrágio direto para a Assembleia Legislativa. John Travolta e Nicholas Cage são os atores que entram no filme preferido de Chui Sai On, segundo revelou há poucos anos a um jornal de Macau. “É a realidade”, comentou na altura.

Mas, se em Los Angeles o cenário era de ação, na AL de Macau, a realidade revelava um deputado “não muito ativo”, segundo um dos seus parceiros de bancada, Ng Kuok Cheong. Era “normal” e “um membro muito comum”, acrescenta.

A entrada na esfera legislativa coincide com a morte do presidente da AL e líder da comunidade macaense Carlos d’Assumpção. Sucedeu-lhe Anabela Ritchie, que ocupou o cargo até a transferência de administração, em dezembro de 1999.

A nova legislatura ficou marcada ainda com mudanças na eleição dos deputados. Pela primeira vez é introduzido o método de Hondt, com algumas alterações. “É um método que favorece as minorias”, explica ao jornal Anabela Ritchie.

Nesse ano votaram 28.526 pessoas. Chui Sai On foi o segundo deputado eleito por sufrágio direto da lista B – União para o Desenvolvimento – ao lado de Tong Chi Kin. Foi o povo que escolheu Chui – na altura com 35 anos.

“Ele dava o seu melhor, participava nos debates, fazia intervenções no período antes da ordem do dia”, recorda a antiga presidente, salientando que, já na altura, a área social fazia parte das suas prioridades.

A vida de Chui na AL foi curta e 1996 ficou marcado por uma derrota política, com a UPD a conseguir eleger apenas um deputado.

Nas bancadas, sentar-se-ia já no fim dessa legislatura o irmão mais velho, Chui Sai Cheong, em substituição de Edmund Ho, que se preparava para assumir em 1999 o cargo de primeiro Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau.

Fora do primeiro plano político, Chui Sai On dedicou-se à atividade privada que nunca tinha abandonado.

 

1999

Dois anos e meio após a transferência de administração de Hong Kong, Macau seguia o mesmo caminho. A China assumia cada vez maior visibilidade a nível internacional. Nesse mesmo ano, lançou a primeira missão não tripulada ao espaço.

Cá em baixo, Chui Sai On regressava aos palcos políticos como super-secretário. Nos primeiros dois governos da RAEM, o responsável acumulou as pastas do desporto, cultura, turismo educação e saúde.

Era na área da saúde que tinha mais experiência – pela formação e atividade profissional. Começou por querer revolucionar o setor e encomendou um estudo de avaliação à RML & Associates, uma equipa de consultores ligados à área na Califórnia.

As opções do então secretário para o setor sofreriam, no entanto, duras críticas quando, em 2011, um relatório do Comissariado de Auditoria alertou para a carência de um plano a longo prazo para a gestão dos recursos humanos. “Os Serviços de Saúde não planeiam os recursos do seu corpo médico a longo prazo e não realizam adequada e antecipadamente a formação em internato médico de acordo com as necessidades futuras “, escreveu o CA.

Outro dos desafios foi a Pneumonia Atípica. A estranha doença que afetou a região asiática no início do século pôs à prova os Serviços de Saúde que, até à data, não tinham sido confrontados com uma situação semelhante.

Passado o susto da SARS, Macau preparava-se para a construção das maiores infraestruturas após o estabelecimento da RAEM para os Jogos da Ásia Oriental, em 2005, Jogos da Lusofonia em 2006 e Jogos Asiáticos em Recinto Coberto em 2007.

Foi uma “revolução do desporto”, relembra Vítor Rebelo, jornalista e editor de desporto da Teledifusão de Macau. Os jogos foram um sucesso, mas, explica o jornalista, “muitas dúvidas se levantaram, até mesmo no hemiciclo, sobre a finalidade a dar a tantas infraestruturas”. Também aqui o Comissariado de Auditoria apontou para um aumento dos custos relativamente à adjudicação inicial das obras. Ilegalidades na concessão de algumas destas empreitadas estiveram ligadas à detenção de um colega do Governo, Ao Man Long.

Em 2005, Chui Sai On foi a Durban, na África do Sul, para aquele que seria o maior triunfo político já no segundo mandato como secretário – a classificação do centro histórico de Macau como património mundial da UNESCO.

Carlos Marreiros, arquiteto e presidente do Instituto Cultural durante a administração portuguesa fala numa “história de sucesso”. De Chui Sai On, aponta: “Como secretário, deixava os diretores de serviço trabalharem, confiava nos seus colaboradores”. Um homem de “trabalho de equipa, ao contrario do primeiro chefe que era mais de liderança forte”.

 

2009

Chui Sai On sucedeu a Edmund Ho. Ainda se especulou a existência de outros candidatos, mas estes nunca avançaram oficialmente. “Os próximos cinco anos vão ser os mais importantes da minha vida”, disse na altura, e, com o caso Ao Man Long ainda na memória do executivo, Chui prometeu um “sunshine government” (governo transparente).

“Preocupa-nos que, após tomar posse, Chui Sai On tenha dito que iria criar um `governo transparente´ e respeitador da liberdade de imprensa, mas a verdade é que a direção tem sido outra”, diz ao Plataforma Macau Connie Pang, diretora da Associação de Jornalistas de Macau, chamando também a atenção para a pouca disponibilidade do governante para falar aos media. “Em quatro anos e meio, deu apenas 110 entrevistas públicas à comunicação social, o que faz uma média de cerca de duas vezes por mês. Acha que é aceitável para um governante?”.

Volvidos cinco anos, Chui voltou a concorrer isolado. Ao segundo dia de campanha deparou-se com protestos na Zona Norte da cidade e um grupo de pessoas que procurava chegar até si. No fim, admitiu sentir-se “um pouco perdido porque havia demasiada gente”, segundo escreveu o jornal Ponto Final.

O arquiteto Carlos Marreiros, que conheceu os irmãos Chui nos anos 80, admite que o Chefe do Executivo “aparenta não gostar de banhos de multidão”. Marreiros acrescenta que Chui, enquanto pessoa pública, é muito diferente em privado “quando é extremamente gentil, simpático”.

As multidões têm sido, no entanto, cada vez mais frequentes na vida do líder. Enfrentou em maio as maiores manifestações desde Tiananmen em Macau e, mais recentemente, protestos de trabalhadores do setor do jogo. Para o futuro, Chui Sai On tem ainda de lidar com uma velha promessa ainda não cumprida, o novo hospital público, e com o grande problema de Macau, os preços da habitação.

 

Catarina Domingues

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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