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Paulo Rego – ESPERO QUE O BRASIL RECUPERE

 

Primeiro surpreendeu, depois assustou; chegou mesmo a deprimir… Quando o quinto golo alemão chegou, cumprida escassa meia hora de jogo, fui dormir. Mas a agitação era muita. Voltei. O estádio estava perplexo. Já ninguém chorava. A paralisia substituiu a emoção. Há coisas que não acontecem, que não é suposto entrarem na História. E uma delas foi a o drama que viveu a seleção de Filipe Scolari. Daqui a 50 anos, um adolescente alemão que tenha assistido a este “baile de bola” vai erguer uma caneca de cerveja e sorrir, afagando o ego com a memória deste marco histórico. Os brasileiros, esses, vão levar muito tempo a recuperar. Sofrer sete golos em casa, numa meia-final do Campeonato do Mundo, é pior do que o mais terrível pesadelo. Os brasileiros nunca vão esquecer, porque há coisas que não se apagam da memória. Não sou brasileiro, mas durante a meninice habituei-me a torcer pela “canarinha”, porque Portugal nunca lá chegava. Mesmo com esse distanciamento, próprio de um torcedor em secunda instância, escrevo ainda atónito e incrédulo. Aconteceu mesmo.

Vários autocarros queimados, lojas saqueadas, veículos vandalizados, arrastão na praia de Copacabana. O resultado, deprimente e humilhante, colocou o Brasil em alvoroço. Não vale a pena, nem faz sentido. Perde-se muito mais que um jogo. Vai-se o juízo, a razão e a dignidade. “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”, diz a Presidente do Brasil, citando um sucesso popular da década de 1950. Saberia certamente retirar dividendos emocionais e políticos se o Brasil fosse campeão do mundo. Mas esse sonho já lá vai. Agora Dilma Rousseff tem de gerir a depressão e portar-se como quem não tem nada a ver com o que se passou em campo. Na verdade não tem. Mas também não terá nas urnas a energia positiva que o futebol consegue passar a uma nação. Essa luz é germânica; vai iluminar o ego de um povo que faz vingar na Europa uma visão muito particular do mundo, com base na ética protestante, na qual impera a dedicação total ao trabalho, a eficiência como ética do comportamento, a austeridade como fator de superioridade. Mas também a ambição de domínio político e económico, como se o resto do mundo estivesse condenado a perceber quem tem razão.

Não é essa a minha praia, para usar uma expressão brasileira. Esse messianismo é tão seco na Alemanha como é triste quando impera nos lóbis norte-americanos, que minam a Casa Branca. Quase pior do ver o estádio do Mineirão em coma profundo é vislumbrar, na final de domingo, o sorriso de Angela Merkel, de peito aberto no alto da tribuna. A verdade é que os alemães merecem. Não há volta a dar. Chama-se àquilo um banho de futebol, com uma saúde física e mental imbatível e uma capacidade estonteante de aliar o seu tradicional rigor tático a uma técnica e uma fantasia que não estavam no programa. A Alemanha vale sempre muito, mas desta vez tirou todos os coelhos da cartola. A magia estava toda de um lado; o outro estava hipnotizado e rendido à evidência. De joelhos. Sobre futebol a questão é mais complexa do que parece. O Brasil iludiu-se, quis ser europeu, assentando o seu jogo nos trincos a meio-campo, trocando a fantasia pela organização e rigor. Faliu. Perdeu a sua identidade e faz mal aquilo que não lhe está no sangue. Espero que recupere o ego, o sonho e a identidade. A alma está zangada, quer voltar àquilo que era. Curiosamente, as equipas europeias que mais brilham – Alemanha e Holanda – são precisamente aquelas que juntam a criatividade à consistência que se lhes reconhece. Mais do que uma lição, há uma reflexão importante a fazer. No futebol, claro, mas na própria ideia de evolução. Aliás, a questão é global. Também na China, porque não? Harmonia, rigor e projeto, sim. Mas também alma, criatividade e fantasia.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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