“QUE A CHINA VOLTE AS ATENÇÕES PARA AS INFRAESTRUTURAS NO BRASIL” - Plataforma Media

“QUE A CHINA VOLTE AS ATENÇÕES PARA AS INFRAESTRUTURAS NO BRASIL”

 

Nos próximos quatro anos, a modernização de infraestruturas do Brasil vai custar aos cofres do Estado cem mil milhões de dólares americanos. A China pode

ter aqui um papel decisivo, diz o Embaixador brasileiro na China, que realça haver “entendimentos entre empresas chinesas e brasileiras já em andamento.”

Em entrevista ao Plataforma Macau, Valdemar Carneiro Leão faz um balanço positivo dos 40 anos das relações diplomáticas entre Pequim e Brasília.

O crescimento “vertiginoso” do comércio bilateral e a abertura de uma agência do Banco do Brasil na China – o primeiro banco latino-americano

a fazê-lo –são sinais de que as relações vão de vento em popa. Mas existem ainda questões a resolver: “A China é hoje o único grande mercado mundial

que está fechado à carne brasileira.”

 

PLATAFORMA MACAU – O Brasil foi um dos primeiros países a assinar uma parceria estratégica com a China. Em 1974 os dois estabelecem relações diplomáticas. Quarenta anos depois em que estágio estão estas relações?

VALDEMAR CARNEIRO LEÃO – Esses 40 anos foram um período em que as relações diplomáticas entre os dois países nos mais diversos campos sofreram uma evolução exponencial e muito positiva. A vertente mais visível dessa evolução é claramente o comércio. Depois de um período inicial de alguma fraqueza no comércio bilateral, os últimos dez ou doze anos realmente testemunharam um crescimento vertiginoso no comércio entre os dois países. Para se ter uma ideia, no início dos anos 2000, nós tínhamos um comércio nos dois sentidos de aproximadamente 6,7 mil milhões de dólares. Hoje nós estamos chegando à casa dos 90 mil milhões. De modo que isso dá bem uma ideia de como evoluiu a relação e do potencial que ainda existe pela frente.

 

PM – Durante este período também se dá um grande crescimento do investimento.

V.C.L. – Sim, creio que outro dado a ressaltar é o investimento. Os chineses se interessaram em investir no Brasil muito depois de outros países, com os quais temos laços tradicionais, históricos, de investimento recíproco na Europa e nos Estados Unidos.

A China chegou mais tarde e, apesar disso, tem tido uma aceleração muito grande nos investimentos que faz no Brasil, e que fez com que saísse de uma posição de aproximadamente da faixa de 18.º a 20.º maior investidor em termos de stock, de investimento já existente, para uma posição provavelmente da faixa de 8.º ou 9.º investidor. Isto quer dizer que a China realmente cresceu muito nestes últimos anos. Houve um fluxo de recursos muito grande de investimento no Brasil. Isso começou inicialmente na área de mineração, energia e está gradualmente evoluindo para a área de indústria de transformação, manufaturas, etc. Agora, o nosso interesse é que a China volte as atenções para a área de infraestruturas do Brasil, particularmente na área ferroviária, onde tem grande experiência. O Brasil está lançando um programa de modernização de sua infraestrutura, que envolve aproximadamente cem mil milhões de dólares nos próximos quatro anos e que assentará em portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, energia e outras áreas de infraestruturas. A China tem uma experiência extraordinária, sobretudo na área das ferrovias que seria muito útil ao Brasil neste momento.

 

PM – Com a viagem de Xi Jinping ao Brasil em julho, podem ser fechados esses acordos?

V.C.L. – O Presidente Xi Jinping vai fazer uma visita oficial ao Brasil, onde vai participar da Cúpula do BRICS em julho e depois vai fazer uma visita de Estado. Há entendimentos entre empresas chinesas e brasileiras já em andamento e há uma expetativa com as duas partes com o lançamento dos primeiros leilões que o Brasil vai fazer para as conceções dessas ferrovias. Existe já portanto entre empresas um início de entendimento que nós esperamos que prospere. Eu estou na expetativa de que saia o edital para o leilão para poder detalhar e articular melhor o seu interesse.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PM – Mencionou a reunião do BRICS. Quais são as prioridades deste bloco? Fala-se da criação de um banco para estabelecer uma infraestrutura de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Isto pode acontecer em breve?

V.C.L. – Nós estamos com a expetativa de que na Cúpula de Fortaleza tenhamos dois avanços importantes dentro do BRICS. O primeiro seria a finalização, a assinatura de um acordo de contigência de reservas financeiras, pelo qual os diversos países formam um pool de reservas para situações de emergência. Isso está em fase avançada de negociações. O segundo diz respeito à criação de um banco de desenvolvimento – o Novo Banco de Desenvolvimento – que se destinaria a projetos em países em desenvolvimento com condições que fossem naturalmente complementares às que já existem no Banco Mundial. O banco não quererá concorrer com o Banco Mundial, mas procurará atender a países em desenvolvimento em condições que possam ser bastante atraentes. Esse é o objetivo.

 

PM – Fala-se da expansão deste bloco e da possível entrada da Argentina. A China e a Rússia têm sido cautelosas no que diz respeito ao alargamento, porquê?

V.C.L. – Até onde estou informado, não tive conhecimento sobre isso, a não ser o que li na imprensa.

 

PM – Ainda em relação aos investimentos entre os dois países. Hoje o Brasil está a entrar em força na China e grandes empresas brasileiras têm-se consolidado no país, como é o caso da Embraer ou do Banco do Brasil, que abriu há duas semanas uma agência, tornando-se no primeiro banco latino-americano a fazê-lo. O que é que este banco vai representar na China?

V.C.L. – Acredito que ele será um grande elo para investidores chineses e também para investidores brasileiros – embora acredite que seja mais para investidores chineses – pela capacidade e capilaridade que o Banco do Brasil tem. É o maior banco da América Latina, tem uma tradição multissecular – mais de 250 anos de história. É um banco que tem presença em todo o território nacional e tem uma vasta experiência na área de financiamento de projetos. Portanto, acredito que é um banco que estará muito bem posicionado para assessorar empresas chinesas desejosas de investirem e chegarem ao mercado brasileiro.

 

PM – A China e o Brasil também têm questões pendentes, como é o caso do embargo à carne bovina brasileira. Existem negociações para o levantamento deste embargo?

V.C.L. – Sim, há uma missão de expressão chinesa que está no Brasil e que deve retornar à China por estes dias depois de passar mais de uma semana ou dez dias no Brasil. Nós esperamos que o resultado dessa missão seja positivo. A China é hoje o único grande mercado mundial que está fechado à carne brasileira e nós já fizemos ver aos chineses que essa situação para nós é incompreensível, que nós precisamos de resolver esse problema o quanto antes, que essa decisão chinesa tem de estar baseada em elementos científicos e que não vemos razão para que outros mercados estejam abertos à carne brasileira, inclusive na Europa, e isso mesmo não se dê na China. Nós esperamos que essa missão que foi ao Brasil retorne e traga os elementos para que esse embargo seja rapidamente suspenso.

 

PM – Como têm reagido as autoridades chinesas a esse apelo?

V.C.L. – A reação foi enviar precisamente essa missão ao Brasil.

 

O Fórum tem que beneficiar países africanos e Timor-Leste

 

PLATAFORMA MACAU – Quando em 2003 foi criado o Fórum de Cooperação Económica e Social entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Pequim disse ao mundo que tinha um projeto lusófono chinês. Que papel tem o Brasil no seio deste projeto?

VALDEMAR CARNEIRO LEÃO – Nós acreditamos que o Fórum só tem sentido maior se constituir uma plataforma que beneficie os países africanos e Timor-Leste. É assim que nós vemos esse Fórum e a sua utilidade. Não nos parece que deva ser um Fórum apenas para promover questões ou matérias que sejam do interesse da China e sim para servir como uma plataforma de investimento, de comércio e que seja benéfica para os Países de Língua Portuguesa – e repito, da África e Timor-Leste.

 

PM – E não vê isso a acontecer.

V.C.L. – Cheguei aqui há um ano e só recentemente é que me confirmaram que o Fundo – criado pela China para projetos nesse âmbito – tinha entrado efetivamente em vigor. Isso foi apenas há seis ou quatro meses. Ao chegar aqui, o que eu senti entre os embaixadores africanos foi uma sensação de manifestações de frustração pelo facto de não haver avanços maiores que justificassem ou exemplificassem o trabalho do Fórum.

 

PM – Macau pode ser um motor propulsor destas relações triangulares Brasil – China – Lusofonia?

V.C.L. – Eu acho que isso não dependerá dos outros países, mas de como Macau possa agir e como a China possa também coadjuvar Macau nesse esforço. Sempre deixámos muito claro que a nossa participação tem sobretudo sentido se for uma participação que esteja voltada para uma cooperação benéfica para os países africanos de língua portuguesa e para Timor. O Brasil não espera tirar benefícios materiais do Fórum, mas acredita que ele só desempenhará propriamente o seu papel como um hub entre a China e os países lusófonos se efetivamente as suas atenções e iniciativas estiverem voltadas para beneficiar esses países.

 

PM – Falando agora dos brasileiros na China. Se tivesse que traçar o perfil socioeconómico da comunidade na China, qual seria?

V.C.L. – Nós temos uma comunidade muito pequena na China, que está essencialmente concentrada nas proximidades de Cantão. No resto da China, é uma comunidade muito reduzida. A presença do Brasil no país é ainda muito pouco expressiva se comparada com a que nós temos na Europa, Estados Unidos ou mesmo no Japão.

Esta é uma relação recente e é preciso tempo até que alguns brasileiros vejam na China oportunidades para aqui virem. O que tenho notado é que quando vêm, então fazem-no com as próprias empresas brasileiras: são executivos, engenheiros. Também vêm às vezes – como tem sido muito frequente – como altos funcionários de grandes multinacionais que não são brasileiras. Conheço pelo menos três altos executivos de empresas multinacionais aqui na China que são brasileiros e as suas empresas não são brasileiras. Ainda é um contingente muito reduzido e esse lado de trocas humanas ainda está por acontecer.

 

PM – E a cada vez maior aprendizagem da língua portuguesa tem sido um fator de aproximação?

V.C.L. – Sim, não tenho a menor dúvida, como acho que cresce muito no Brasil o interesse pela aprendizagem do mandarim.

 

Na Copa o mundo verá o Brasil como o país é

 

PLATAFORMA MACAU – Começou ontem o Mundial do Futebol. Como vê a contestação social em torno do campeonato?

VALDEMAR CARNEIRO LEÃO – Nós temos disso as imagens que são as imagens da realidade brasileira. A imprensa é livre para documentar e transmitir ao mundo o que vê. Acho que tivemos no ano passado manifestações de descontentamento e insatisfação e de protesto contra a realização da Copa do Mundo e essas reivindicações tinham a ver com exigências de melhor educação pública, melhor saúde pública, melhores transportes. Havia uma gama maior de reivindicações, mas digamos que o núcleo era este. O governo reagiu rapidamente a essas demandas. Não são, em muitos casos, questões que possam ser resolvidas da noite para o dia, mas não somente tem havido um esforço do governo no sentido de aprimorar a oferta da educação pública, a qualidade das escolas brasileiras, como também no caso da saúde pública – aumentar a disponibilidade de médicos para a população. Para ter uma ideia, o Brasil está trazendo do exterior e de vários países milhares de médicos para trabalharem em regiões mais remotas, onde há ainda falta de atendimento. O que ocorre no Brasil muitas vezes é que os graduados de medicina preferem se concentrar nos grandes centros urbanos e hesitam em ir para as localidades mais remotas onde realmente há uma carência. De modo que, também aqui o governo procura responder a um reclamo que se manifestou de maneira muito clara.

 

PM – Houve também um atraso da construção de infraestruturas para o Mundial.

V.C.L. – Creio de que muito do que se fez em torno dos preparativos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas tinha a ver com mobilidade urbana, transportes públicos. E é também uma área em que as realizações não se fazem da noite para o dia. Muitas vezes os recursos para investimentos estão disponíveis – e aconteceu com muita frequência. Há vontade do governo, porém há certos processos que têm que ser cumpridos, há amarras administrativas. O Brasil é um país em que toda a compra pública, todo o gasto do Governo tem de ser submetido a processos licitatórios públicos, transparentes e que podem ser contestados na justiça. Tem sido muito comum que obras tenham sido retardadas porque no processo licitatório uma empresa ou outra achou que os seus interesses não estavam devidamente contemplados e é livre para recorrer à justiça. Muitas vezes isso tem retardado os investimentos de infraestruturas públicas. Porém, com o passar do tempo, as coisas estão caminhando para uma solução adequada nessa área.

 

PM – Que imagem espera o Brasil transmitir ao mundo?

V.C.L. – O Brasil só pode projetar a imagem do que ele é. Porquê? Porque o Brasil é um país em que todos entram, reportam, noticiam o que querem e o que veem. Tenho a certeza que o mundo verá o Brasil da forma que é: de uma sociedade de grande mistura racial, de grande harmonia em que pessoas de diferenças crenças religiosas, diferentes partidos políticos, de diferentes convicções de toda a ordem convivem harmoniosamente. Nós somos uma democracia plena no sentido político, uma democracia racial no sentido social e, cada vez mais, uma democracia social plena. É sabido que o Brasil nos últimos 15 anos elevou para a classe média aproximadamente 40 milhões de pessoas e retirou 15 milhões da pobreza absoluta. Nós temos pela primeira vez na história a possibilidade de erradicar por completo a pobreza no Brasil e nós estamos confiantes de que chegaremos a esse objetivo.

O que o mundo verá, será um país que tem tudo aquilo que se sabe do Brasil: nós temos problemas que não escondemos e procuramos resolvê-los; temos uma sociedade que é amante da paz e que não é ameaça para nenhum dos seus vizinhos, com os quais vivemos harmoniosamente e que está aberta ao mundo e aprecia caminhar com o mundo e quer se ver inserida nele.

Catarina Domingues

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter