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TRAZER O LIVRO À CIDADE

Com apenas 30 km2, Macau ostenta centenas de anos de História e uma vasta cultura. Neste pequeno pedaço de terra, onde portugueses e chineses fazem coexistir as culturas ocidental e oriental, escritores e outros intelectuais comungam a opinião de que a literatura não se limita ao seu espaço geográfico, procurando uma visão abrangente que afirme Macau no mundo. Na sua terceira edição, o Festival Literário de Macau incentiva escritores de todas as origens a escreverem sobre a cidade. Mais importante ainda, luta para abrir a mente aos escritores locais.

Proprietário do diário de língua portuguesa, “Ponto Final”, o mentor do Festival Literário de Macau, Ricardo Pinto, levou este ano a cabo a terceira edição do evento. Só isso já é “uma conquista”, diz. O evento não é especialmente dirigido à comunidade chinesa, nem é pensado só para Macau, pois quer também chegar à China Continental, a Taiwan e Hong Kong, aprofundando ainda as relações com os Países de Língua Portuguesa.
Porque se quer trazer autores dos quatro cantos do mundo, este ano foram também convidados escritores franceses e cubanos. Para além do elevado número de convidados, o modelo do festival é rico e variado, incluindo debates literários, espetáculos de música, sessões de cinema, exposições e, até, publicações. Na última edição, milhares de alunos conviveram com os vários autores que visitaram mais de dezoito universidades de escolas secundárias.
O festival inclui uma série de atividades complementares como, por exemplo, um concurso de escrita criativa, findo o qual os melhores contos e poemas são editados em livro. Escritores amadores têm assim a oportunidade de partilhar uma obra na qual publicam também escritores famosos na China e na Lusofonia. Na primeira edição, a escolha dos textos foi conduzida por SuTong; a próxima seleção será da responsabilidade de YanGeLing, ou do poeta de Taiwan, BeiDao. Este projeto visa “deixar a herança macaense escrita em texto”, explica Ricardo Pinto, que em dez anos espera ver centenas de contos e poemas escritos em Macau.
Ricardo Pinto elogia todos os que trabalharam para pôr de pé um festival que, este ano, passou de uma semana para dez dias, abrangendo assim dois fins de semana e, com isso, conquistando mais público. A organização do festival cabe ao “Ponto Final”, que recorre a uma equipa de jovens voluntários e conta com uma comissão consultiva que integra instituições como o Fórum Literário. Também a eles Ricardo Pinto agradece o voluntarismo. O vice-presidente do Instituto Cultural de Macau (ICM), instituição que a partir da segunda edição passou a coorganizar o evento, frisa que a equipa não é especializada na organização de eventos, razão pela qual considera “normal” a existência de “alguns precalços”.
YaoJingMing espera contudo que se reconheça a dedicação e o esforço desta equipa. O ICM e a Fundação Macau patrocinaram este ano o evento com um milhão de patacas (123 mil dólares). YaoJingMing justifica o apoio lembrando que a expressão  “uma cidade moldada pela cultura” diz tudo sobre o valor do festival numa cidade “construída e moldada pela cultura”. Espera ainda que este evento estimule o reconhecimento dos diferentes grupos étnicos da cidade, bem como a comunicação entre os autores macaenses e os que vêm de fora.
“Macau não é apenas casinos”, lembra, na esperança de transmitir essa imagem de uma herança cultural rica, que inclui vários estilos literários.
YaoJingMing, que já traduziu obras portuguesas, durante muitos anos lecionou português na Universidade de Macau e mantém-se ligado ao Fórum Literário da China Continental.
Por isso assume os convites a nomes consagrados do mundo literário chinês, participando ainda como autor convidado para eventos do festival. Está “satisfeito” com o evento.
Por um lado, porque  traz grandes nomes a Macau; por outro, porque projeta a cidade lá fora, em Pequim, em Angola ou em Portugal. A presença de autores como YanGeLing confirma o valor desta iniciativa. YaoJingMing lembra que a escritora famosa na China Continental veio a Macau, “há dois anos, para uma curta visita de duas ou três semanas, tendo depois voltado várias vezes para escrever um romance sobre os casinos”. Projeto, esse, que levou dois anos e “descreve bem a indústria do jogo de Macau”. Muita coisa pode melhorar no futuro, admitem os organizadores, destacando a intenção de incentivarem os escritores locais a publicarem os seus trabalhos, mesmo sem participarem no concurso.
Querem também que mais e mais estudantes partilhem ideias com escritores famosos, que projetem mais debates e tragam mais público para eventos diversificados.
“Detalhes”, dizem, que pretendem dar reposta às propostas que vão surgindo na comunidade chinesa local.
Ricardo Pinto está envolvido em muitos projetos diferentes: para além do jornal, dedica-se à organização de eventos culturais e gere a concessão da Livraria Portuguesa. Ao cabo de três anos, o Festival Literário cumpre os seus objetivos: “Estamos agora a fazer o que realmente queremos; estamos no bom caminho, porque o festival atrai não só estudantes como pessoas de todos os setores profissionais”. Questionado sobre o significado de ser um jornal a organizar o festival, Ricardo Pinto explica que os media devem desempenhar vários papéis na sociedade: “A imprensa deve organizar atividades literárias e ter orgulho nisso, pois o seu papel é também criar e incentivar eventos.
O ‘Ponto Final’ espera que as nossas vidas tenham mais cultura. A imprensa não serve só para imprimir coisas, mas também para criar impato e dar cultura à sociedade.”

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