O Governo húngaro anunciou hoje (21) a abertura de uma investigação ao investimento da fabricante automóvel chinesa BYD no país, negociado pelo ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Péter Szijjártó, que deixou recentemente o Parlamento para assumir um cargo executivo na empresa.
O anúncio de Szijjártó, na quarta-feira passada, de que iria integrar a direção da maior fabricante mundial de veículos elétricos desencadeou acusações de conflito de interesses e críticas pelo seu papel na atribuição de avultados subsídios públicos à empresa enquanto exercia funções governativas.
O primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, afirmou hoje no Parlamento que Szijjártó, aliado próximo do antigo chefe do Governo Viktor Orbán, ajudou a BYD “com centenas de milhares de milhões de forints em dinheiro público, apoio diplomático e infraestruturas estatais” enquanto era ministro.
“Vamos examinar todas as decisões, negociações e compromissos assumidos por Péter Szijjártó relacionados com o investimento da BYD na Hungria”, declarou Magyar.
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O chefe do Governo acrescentou que a investigação abrangerá todos os subsídios, benefícios fiscais, licenças, isenções ambientais e investimentos públicos concedidos a grandes empresas multinacionais durante os anos de governação de Orbán.
“Vamos investigar quem tomou estas decisões, quem as preparou, que alertas técnicos foram ignorados e que encargos deixaram para os contribuintes húngaros, os trabalhadores, as comunidades locais e o ambiente”, afirmou.
Nem Szijjártó nem a BYD responderam até ao momento às acusações de conflito de interesses. O antigo ministro apresentou o novo cargo como uma oportunidade “prestigiada” para trabalhar numa das “maiores histórias de sucesso” da indústria automóvel.
Enquanto chefiou a diplomacia húngara, Szijjártó desempenhou um papel central na captação de investimento chinês para o país, incluindo da BYD, que recebeu significativos apoios estatais durante o seu mandato.
Em 2023, anunciou que a BYD iria instalar a sua primeira fábrica europeia na Hungria, permitindo à empresa contornar as tarifas impostas pela União Europeia às importações de veículos elétricos chineses para proteger a indústria automóvel europeia.
Em 2025, revelou ainda que a BYD iria estabelecer em Budapeste a sede europeia e um centro de investigação e desenvolvimento, beneficiando de 20 mil milhões de forints (55,8 milhões de euros) em apoio governamental.
Os investimentos integraram a estratégia do Governo de Orbán para transformar a Hungria num polo mundial da produção de baterias de iões de lítio, através da atração de fabricantes chineses, que abriram várias unidades industriais no país.
A estratégia motivou protestos de residentes, ambientalistas e partidos da oposição, preocupados com o impacto ambiental da nova indústria, a pressão sobre os recursos hídricos e o aumento da dependência económica da China.
Enquanto ministro, Szijjártó manteve também relações próximas com a Rússia, apesar da invasão em grande escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.
Ao contrário da maioria dos seus homólogos da União Europeia, deslocou-se repetidamente a Moscovo para negociar compras de petróleo e gás russos e reunir-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, a quem chegou a chamar “amigo”.
Durante a campanha para as eleições húngaras de 2026, Szijjártó envolveu-se numa polémica depois de o jornal Washington Post noticiar que mantinha contactos telefónicos regulares com Lavrov durante reuniões de alto nível da União Europeia, transmitindo-lhe informações sobre as discussões em curso.
O antigo ministro negou a notícia, embora tenha admitido ter falado com Lavrov antes e depois das reuniões dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia para discutir a agenda e as decisões adotadas.
Numa conferência de imprensa realizada na semana passada, Magyar afirmou que, “tanto quanto sabe”, foi igualmente aberta uma investigação às ligações de Szijjártó ao Governo russo.