Com cerca de 82 quilómetros de extensão, o Canal do Panamá liga o Oceano Atlântico ao Pacífico e permite reduzir significativamente as distâncias entre importantes rotas comerciais. A infraestrutura é gerida pelo Estado panamiano desde 1999, quando os Estados Unidos transferiram formalmente a soberania do canal ao abrigo dos Tratados Torrijos-Carter, assinados em 1977, segundo a Autoridade do Canal do Panamá (ACP).
A passagem marítima tem uma importância estratégica porque permite aos navios evitar a rota pelo extremo sul da América do Sul, reduzindo tempo e custos de transporte. Milhares de embarcações utilizam anualmente esta ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico, incluindo navios de contentores, transportadores de energia e embarcações comerciais de grande dimensão, de acordo com a ACP.
A atual disputa tem origem sobretudo na presença de empresas ligadas à China em áreas portuárias próximas do canal. A empresa de Hong Kong CK Hutchison, através da subsidiária Panama Ports Company, operou durante décadas os terminais de Balboa, no lado do Pacífico, e Cristóbal, no lado do Atlântico – duas instalações localizadas nas entradas da via marítima.
A presença da empresa tornou-se um tema político em Washington, onde vários responsáveis passaram a manifestar preocupação com a possibilidade de Pequim ganhar influência sobre infraestruturas consideradas estratégicas. A operação dos terminais pela CK Hutchison esteve no centro das críticas norte-americanas, embora a empresa não tivesse qualquer autoridade sobre a gestão do canal, que permanece nas mãos da Autoridade do Canal do Panamá, segundo a Reuters.
Leia também: Panamá e China renovam acordo marítimo após crise portuária. Saiba o que está em jogo para os navios panamianos
A distinção entre controlo do canal e operação portuária tornou-se um dos pontos centrais do debate. A China não administra as eclusas, não define as regras de navegação e não controla o tráfego marítimo da passagem. Essa responsabilidade pertence exclusivamente ao Panamá. A influência chinesa estava limitada à exploração comercial de terminais portuários, uma atividade diferente da administração da hidrovia.
A tensão aumentou quando a CK Hutchison anunciou, em 2025, a venda da sua participação maioritária na operação de portos, incluindo os terminais do Panamá, a um consórcio liderado pela BlackRock, Global Infrastructure Partners e Terminal Investment Limited. A operação foi avaliada como uma resposta às crescentes pressões políticas relacionadas com a presença chinesa em infraestruturas estratégicas, segundo a Reuters.
O acordo gerou reações em Pequim, que rejeitou as críticas norte-americanas à presença de empresas chinesas ou de Hong Kong em infraestruturas panamianas, defendendo que estas operações tinham natureza comercial. As autoridades chinesas defenderam também que a presença empresarial no Panamá era uma atividade comercial normal e criticaram aquilo que consideraram uma tentativa de politizar investimentos económicos.
A disputa também teve desenvolvimentos dentro do próprio Panamá. Uma decisão do Supremo Tribunal do Panamá sobre a concessão atribuída à Panama Ports Company agravou a disputa em torno dos terminais operados pela empresa, segundo a Associated Press. Após a decisão, as autoridades panamianas assumiram medidas para garantir a continuidade das operações portuárias.
Para os Estados Unidos, o canal mantém uma importância estratégica por razões comerciais e militares. A rota é essencial para o transporte entre as costas leste e oeste norte-americanas e continua a ser considerada uma infraestrutura relevante para a segurança marítima regional.
Para a China, o Canal do Panamá representa uma ligação importante para as suas cadeias comerciais globais. Pequim tornou-se um dos principais parceiros comerciais da América Latina e tem aumentado os seus investimentos em portos, energia e infraestruturas na região nas últimas décadas.
A disputa em torno do canal insere-se, assim, numa competição mais ampla entre Washington e Pequim pelo acesso e influência sobre infraestruturas críticas. O debate não é sobre quem controla atualmente a passagem marítima – essa autoridade pertence ao Panamá – mas sobre quem terá maior peso económico e estratégico numa das rotas comerciais mais importantes do mundo.