Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, grande parte da navegação comercial no Mar Negro foi interrompida. O bloqueio dos portos ucranianos dificultou a exportação de cereais e fertilizantes, levando à criação da Iniciativa dos Cereais do Mar Negro, mediada pelas Nações Unidas e pela Turquia, para estabelecer corredores marítimos seguros.
O acordo permitiu retomar parte das exportações agrícolas ucranianas e atenuar a pressão sobre os mercados alimentares mundiais, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
A iniciativa terminou em julho de 2023, após a retirada da Rússia. Em resposta, a Ucrânia criou um corredor marítimo alternativo ao longo da sua costa ocidental, junto às águas territoriais da Roménia e da Bulgária, procurando manter as exportações a partir dos portos de Odesa, Chornomorsk e Pivdennyi.
Este corredor tornou-se progressivamente a principal via de saída dos cereais ucranianos, enquanto os chamados “Corredores de Solidariedade” por via terrestre passaram a complementar o transporte de mercadorias, segundo o Conselho da União Europeia.
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Apesar da adaptação das rotas, os riscos aumentaram. A Ucrânia estabeleceu um corredor marítimo especial nas suas águas soberanas para permitir a passagem de navios comerciais, mas as ameaças à segurança permanecem elevadas devido aos ataques, minas navais e operações militares na região, de acordo com a Organização Marítima Internacional (IMO).
Nos últimos meses, a situação voltou a deteriorar-se. Os ataques russos contra infraestruturas portuárias na região de Odesa reduziram cerca de um terço da capacidade de exportação dos portos ucranianos, obrigando empresas a suspender operações e levando alguns armadores a cancelar viagens devido ao aumento do risco, segundo a Reuters.
As alterações não afetam apenas a Ucrânia. Também a Rússia tem enfrentado perturbações nas suas rotas marítimas. Ataques ucranianos com drones navais e aéreos contra embarcações e infraestruturas russas no Mar de Azov têm dificultado parte das exportações russas de cereais e aumentado os custos logísticos da navegação na região, segundo a Financial Times.
A insegurança alterou igualmente o comportamento do setor marítimo. A guerra no Mar Negro levou operadores a reorganizar cadeias logísticas, recorrer com maior frequência a rotas terrestres e fluviais e enfrentar custos mais elevados com seguros e transporte, de acordo com a UNCTAD. Estas mudanças juntam-se a outras perturbações recentes, como a crise no Mar Vermelho, aumentando a pressão sobre o comércio marítimo mundial.
Os impactos estendem-se aos mercados internacionais. A Ucrânia continua a ser um dos principais exportadores mundiais de trigo, milho e óleo de girassol, pelo que qualquer redução da capacidade portuária pode refletir-se nos preços agrícolas e na segurança alimentar de países importadores. Mais de 90% das exportações agrícolas ucranianas continuam a depender dos portos da região de Odesa, apesar das sucessivas ofensivas russas, segundo a Reuters.