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Comunidade sustenta negócios independentes em Macau

Longe dos casinos e das grandes artérias turísticas, pequenos cafés independentes tentam sobreviver com uma aposta simples: criar comunidade. É o caso do Fill Cafée do Kokomo Coffee, que procuram depender menos do fluxo de visitantes e mais da fidelidade dos residentes, da identidade local e da capacidade de resistir a um mercado cada vez mais apertado

Diogo Pereira, Ng Chan Tong

Enquanto a economia de Macau continua fortemente associada ao turismo e ao Jogo, uma parte da atividade comercial mantém-se fora desse circuito. Em ruas secundárias e zonas históricas, cafés independentes procuram um espaço próprio, apostando numa clientela de bairro e numa relação mais próxima com quem vive na cidade.

Foi essa lógica que levou Miguel Rodrigues, coproprietário do Fill Café, junto ao Templo de A-Má, a escolher um local afastado dos principais eixos comerciais. “Queria encontrar um sítio que fosse uma espécie de jóia escondida”, explica ao PLATAFORMA. “Aqui encontrei um ambiente mais descontraído, quase como Coloane. Parece um refúgio isolado no meio da agitação da cidade”.

No Kokomo Coffee, instalado num estreito beco residencial, André Ng, dono do estabelecimento, descobriu o espaço por acaso, mas acabou por encontrar ali o ambiente que procurava. “Um amigo encontrou-o quando eu ainda estava a decidir que negócio queria abrir”, recorda. “O que mais gosto é precisamente o facto de estar longe das zonas turísticas e dos casinos”.

O peso da operação diária

Apesar das diferenças entre os dois projetos, a rotina é semelhante: gerir um pequeno café significa acumular funções e lidar com tudo ao mesmo tempo.

“No nosso caso não existe uma divisão de trabalho especializada”, afirma Miguel Rodrigues. “Posso estar a preparar cafés, limpar uma mesa, voltar à cozinha e responder a perguntas praticamente ao mesmo tempo. É, essencialmente, multitasking constante, o que considero ser a parte mais desgastante, mentalmente”.

Para além da operação diária, o maior desafio é manter consistência: “É difícil para uma pequena loja atingir a mesma consistência de uma grande cadeia. Por isso damos muito valor à comunicação com os clientes”, acrescenta.

No Kokomo Coffee, André vê o trabalho de outra forma: “Quase nunca sinto desgaste mental”, diz. “Só sinto cansaço físico, em vez de stress mental. (…) No geral, sinto pouca pressão psicológica, porque gosto mesmo de passar tempo a conversar com os meus clientes”.

A comunidade como modelo de negócio

Essa proximidade define o modelo de negócio dos dois cafés. No Fill Café, mais de 70% da clientela é local.

“O número de turistas varia bastante. Ao mesmo tempo, temos os nossos próprios clientes habituais. Muitos deles conheceram-nos durante as festividades religiosas e acabaram por voltar”, diz Miguel.

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Para fidelizar esse público, o contacto direto tornou-se parte da estratégia: “Por um lado, como a nossa loja é pequena, podemos explicar os produtos aos nossos clientes ou convidá-los a provar novos produtos. Por outro, a nossa comunicação com os clientes locais decorre sem problemas. Eu próprio gerencio a nossa conta do Instagram para reforçar a imagem da nossa marca, o que é muito útil para o marketing”.

No Kokomo Coffee, a relação é ainda mais informal: “Funcionamos de uma forma pouco comercial”, explica André. “Trato os clientes habituais como amigos. A minha mãe e eu criamos aqui um ambiente descontraído e relaxante, o que atrai muitos visitantes assíduos; alguns chegam mesmo a vir todos os dias”.

Mercado mais apertado

Nos últimos anos, vários cafés independentes encerraram em Macau, como o Pink Bird, na Taipa Velha, e o Highway, na Praça Ponte e Horta, e Miguel acompanha esses casos com preocupação.

“Claro que penso nisso. Mas também me fazem voltar às minhas intenções iniciais. Ajustar a nossa mentalidade é, na verdade, mais crucial, porque optar por encerrar é relativamente fácil”.

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André olha para o fenómeno com menos ansiedade, mas reconhece o problema: “O meu modelo de negócio, o estilo da minha loja e o meu público-alvo são completamente diferentes dos desses cafés”, diz. “Acho simplesmente que, de um modo geral, Macau carece de uma cultura diversificada de lojas locais, pelo que estes resultados não me surpreendem”.

A concorrência também mudou com o aumento das deslocações de residentes para Zhuhai. Para Miguel, “a diferença residia no produto, enquanto hoje reside na filosofia e na cultura”.

“Por se tratarem de produtos criados por habitantes de Macau, partilhamos a mesma sintonia cultural com os nossos clientes. Em termos de comunicação, expressão e criação, estamos muito mais próximos dos gostos e das filosofias locais. É precisamente essa a nossa vantagem”, acrescenta.

Identidade, preços e futuro

Ainda assim, o Fill Café teve de ajustar a estratégia: “Não baixámos diretamente os preços, mas criámos campanhas de descontos entre 20% e 30%”.

No Kokomo Coffee, a opção foi manter tudo praticamente igual. “Nunca alterámos o menu nem o modelo de negócio para acompanhar o mercado”, afirma André. “Se mudarmos constantemente para seguir tendências, acabamos por perder a identidade”.

“O aumento dos preços das matérias-primas é um problema generalizado em todo o setor. Temos de aumentar ligeiramente os nossos preços em resposta a esta situação. Até ao momento, as nossas receitas mantêm-se estáveis, sem grandes dificuldades operacionais”.

Quanto ao futuro, Miguel quer “gerir este espaço como uma pequena loja que possa durar vinte ou trinta anos”. “O importante é continuar a melhorar os produtos e fortalecer a ligação à comunidade”.

“O mundo muda demasiado depressa para fazermos grandes planos”, admite André. “Enquanto continuar fiel àquilo em que acredito, sinto que estou no rumo certo”, conclui.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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