Início » Como nasceu o Campeonato do Mundo? A competição que transformou o futebol num fenómeno global

Como nasceu o Campeonato do Mundo? A competição que transformou o futebol num fenómeno global

O Campeonato do Mundo da FIFA nasceu da ideia de criar uma competição capaz de reunir as melhores seleções do planeta num único torneio. Desde a primeira edição, em 1930, o Mundial passou de uma prova com 13 equipas para o maior evento do futebol internacional

Plataforma

Poucos acontecimentos desportivos conseguem mobilizar audiências à escala global como o Campeonato do Mundo da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). De quatro em quatro anos, a competição reúne seleções de todos os continentes, domina a agenda mediática internacional e transforma-se num espaço onde o desporto cruza a política, a economia, a cultura e a identidade nacional.

A dimensão que hoje caracteriza o Mundial contrasta, porém, com as suas origens. Quando a primeira edição arrancou no Uruguai, em julho de 1930, apenas 13 seleções aceitaram participar. Não existiam contratos televisivos, patrocínios multimilionários nem qualificações continentais. O torneio nasceu da convicção de que o futebol precisava de uma competição própria para determinar a melhor seleção do mundo.

Um torneio para além dos Jogos Olímpicos

Nas primeiras décadas do século XX, os Jogos Olímpicos eram o principal palco internacional para as seleções nacionais. Mas havia uma regra importante: só podiam participar atletas amadores, ou seja, jogadores que não recebiam salário para competir. Isso entrava em choque com a realidade do futebol em países como Inglaterra, Itália, Espanha ou Áustria, onde o jogo já estava a tornar-se profissional.

À medida que o futebol ganhava público e começava a gerar dinheiro, ficava cada vez mais claro que os melhores jogadores nem sempre podiam estar nos Jogos Olímpicos. A FIFA, criada em 1904, viu nessa mudança uma oportunidade para ganhar autonomia e afirmar o futebol como uma competição própria, separada do movimento olímpico.

Leia também: Mundial 2026 entra nos quartos-de-final entre surpresas e despedidas. Como ficou aberta a corrida pelo título

Foi neste contexto que o presidente da FIFA entre 1921 e 1954, Jules Rimet, apresentou uma proposta ambiciosa: criar um campeonato mundial organizado exclusivamente pela federação internacional. Em 1928, durante o congresso da FIFA realizado em Amesterdão, os membros aprovaram oficialmente a criação do torneio, estabelecendo uma periodicidade de quatro anos.

Porque começou tudo no Uruguai?

A escolha do Uruguai como anfitrião da primeira edição refletiu tanto critérios desportivos como políticos. O país sul-americano atravessava um período de prosperidade económica impulsionado pelas exportações agrícolas e apresentava-se como uma democracia relativamente estável numa região em transformação. No plano desportivo, era a maior potência do futebol mundial, depois das conquistas olímpicas de 1924 e 1928.

A coincidência com as comemorações do centenário da independência reforçou a candidatura uruguaia. O Governo comprometeu-se a construir um estádio de grande dimensão – o Estádio Centenário – e a suportar integralmente as despesas de viagem e alojamento das seleções participantes, um argumento decisivo numa época marcada pela Grande Depressão económica.

Um torneio muito diferente do atual

O primeiro Campeonato do Mundo realizou-se entre 13 e 30 de julho de 1930, numa realidade muito distante da atual. A longa travessia do Atlântico por navio demorava semanas e representava um investimento difícil de justificar para muitas federações europeias.

O presidente da FIFA, Jules Rimet, a desembarcar do barco a vapor italiano ‘Conte Verde’, em Montevidéu, Uruguai, para assistir o primeiro Campeonato do Mundo de sempre, em 1930. (Foto: FIFA)

Participaram sete equipas sul-americanas (Uruguai, Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Bolívia), duas norte-americanas (Estados Unidos e México) e quatro europeias (França, Bélgica, Roménia e Jugoslávia). As 13 foram divididas em quatro grupos, e apenas os vencedores de cada grupo avançavam diretamente para as semifinais. Não havia eliminatórias longas nem a complexidade atual.

A viagem até Montevidéu representou uma autêntica expedição. As seleções europeias viajaram de navio durante mais de duas semanas, muitas delas a bordo do Conte Verde, embarcação que transportou igualmente Jules Rimet e o troféu destinado ao vencedor da competição.

Como o Mundial evoluiu

Ao longo das décadas, o Campeonato do Mundo acompanhou a expansão global do futebol. Depois da edição inaugural com 13 participantes, o torneio passou a contar com 16 seleções em 1934, ano em que também foi introduzida a fase de qualificação; em 1950, regressou após a Segunda Guerra Mundial com um formato singular de fase final em grupos.

Em 1974 e 1978, voltou a ser reorganizado em duas fases de grupos; em 1982 aumentou para 24 equipas; em 1998 para 32; e, a partir de 2026, passou a reunir 48 seleções, o maior número de sempre.

Lionel Messi, que joga pela Argentina, é o jogador com mais vitórias no Campeonato do Mundo da FIFA, com 21 vitórias, seguido pelo alemão Miroslav Klose, com 17, e pelo brasileiro Cafu e pelo francês Kylian Mbappé, ambos com 16, de acordo com o ‘ranking’ mais recente da FIFA. (Foto: AFP)

Também o formato foi sendo adaptado. A FIFA introduziu fases de qualificação continentais, reformulou sucessivamente a fase final e adotou novas regras, como o desempate por grandes penalidades, a atribuição de três pontos por vitória, a tecnologia da linha de golo e, mais recentemente, o Árbitro Assistente de Vídeo (VAR, na sigla inglesa), um sistema de arbitragem no futebol projetado para auxiliar os árbitros de campo a evitar erros claros e óbvios em lances que mudam o rumo da partida.

O troféu que acompanhou a história do futebol

A evolução do Mundial pode igualmente ser contada através do seu troféu. A primeira taça, desenhada pelo escultor francês Abel Lafleur, chamava-se inicialmente Victory (Vitória).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o dirigente de futebol italiano Ottorino Barassi escondeu o troféu numa caixa de sapatos debaixo da sua cama, em Roma, para impedir que caísse nas mãos dos nazis. Após a Guerra, foi renomeada Troféu Jules Rimet, em homenagem ao dirigente que idealizou a competição.

Apenas alguns meses antes do início do Mundial de 1966, em Inglaterra, este tesouro do futebol foi roubado durante uma exposição pública. Num desfecho inesperado, mas bem-vindo, acabou por ser encontrado por um cão chamado Pickles – embrulhado em jornal, debaixo de uma sebe num jardim no sul de Londres.

Concebido pelo escultor francês Abel Lafleur, o troféu original (à esquerda) representava Nike, a deusa grega da vitória, a erguer um cálice e foi fabricado em prata esterlina banhada a ouro e assente numa base de lápis-lazúli. O novo (à direita) foi criado pelo artista italiano Silvio Gazzaniga, representando duas figuras humanas a erguer o Planeta Terra, fundida em ouro de 18 quilates. (Foto: FIFA)

Em 1970, o Brasil conquistou a taça, tornando-se o primeiro país a vencer o Campeonato do Mundo três vezes e o último a receber o Troféu Jules Rimet. Desde 1974, os campeões recebem o atual Troféu do Mundial, concebido pelo escultor italiano Silvio Gazzaniga. Ao contrário do anterior, este permanece sempre na posse da FIFA: a seleção vencedora ergue o original durante a cerimónia de entrega, mas recebe apenas uma réplica banhada a ouro para conservar.

No entanto, houve mais uma reviravolta na história em 1983, quando o Troféu Jules Rimet foi roubado da sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Ao contrário do que aconteceu em 1966, não houve nenhum cão salvador.

O troféu nunca foi recuperado e acredita-se que tenha sido fundido, mas a sua base original foi localizada em 2015. Foi encontrada escondida, sem que ninguém a tivesse notado, numa prateleira do arquivo da FIFA, seis décadas depois de ter sido perdida, e está agora exposta no Museu Mundial do Futebol da FIFA, em Zurique.

Um espelho da globalização

Ao longo de quase um século, o Campeonato do Mundo deixou de ser apenas uma competição entre seleções nacionais. Tornou-se um reflexo da evolução do futebol enquanto indústria global, acompanhando o desenvolvimento da televisão, da publicidade, do marketing desportivo e das novas tecnologias.

O torneio sobreviveu a crises económicas e profundas transformações políticas, mantendo, porém, a ideia que esteve na origem da visão de Jules Rimet: unificar e reconciliar as nações através do desporto. O formato mudou, o número de participantes aumentou e o futebol tornou-se um fenómeno global, mas o objetivo essencial do Campeonato do Mundo permanece praticamente inalterado desde 1930.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website