Poucos acontecimentos desportivos conseguem mobilizar audiências à escala global como o Campeonato do Mundo da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). De quatro em quatro anos, a competição reúne seleções de todos os continentes, domina a agenda mediática internacional e transforma-se num espaço onde o desporto cruza a política, a economia, a cultura e a identidade nacional.
A dimensão que hoje caracteriza o Mundial contrasta, porém, com as suas origens. Quando a primeira edição arrancou no Uruguai, em julho de 1930, apenas 13 seleções aceitaram participar. Não existiam contratos televisivos, patrocínios multimilionários nem qualificações continentais. O torneio nasceu da convicção de que o futebol precisava de uma competição própria para determinar a melhor seleção do mundo.
Um torneio para além dos Jogos Olímpicos
Nas primeiras décadas do século XX, os Jogos Olímpicos eram o principal palco internacional para as seleções nacionais. Mas havia uma regra importante: só podiam participar atletas amadores, ou seja, jogadores que não recebiam salário para competir. Isso entrava em choque com a realidade do futebol em países como Inglaterra, Itália, Espanha ou Áustria, onde o jogo já estava a tornar-se profissional.
À medida que o futebol ganhava público e começava a gerar dinheiro, ficava cada vez mais claro que os melhores jogadores nem sempre podiam estar nos Jogos Olímpicos. A FIFA, criada em 1904, viu nessa mudança uma oportunidade para ganhar autonomia e afirmar o futebol como uma competição própria, separada do movimento olímpico.
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Foi neste contexto que o presidente da FIFA entre 1921 e 1954, Jules Rimet, apresentou uma proposta ambiciosa: criar um campeonato mundial organizado exclusivamente pela federação internacional. Em 1928, durante o congresso da FIFA realizado em Amesterdão, os membros aprovaram oficialmente a criação do torneio, estabelecendo uma periodicidade de quatro anos.
Porque começou tudo no Uruguai?
A escolha do Uruguai como anfitrião da primeira edição refletiu tanto critérios desportivos como políticos. O país sul-americano atravessava um período de prosperidade económica impulsionado pelas exportações agrícolas e apresentava-se como uma democracia relativamente estável numa região em transformação. No plano desportivo, era a maior potência do futebol mundial, depois das conquistas olímpicas de 1924 e 1928.
A coincidência com as comemorações do centenário da independência reforçou a candidatura uruguaia. O Governo comprometeu-se a construir um estádio de grande dimensão – o Estádio Centenário – e a suportar integralmente as despesas de viagem e alojamento das seleções participantes, um argumento decisivo numa época marcada pela Grande Depressão económica.
Um torneio muito diferente do atual
O primeiro Campeonato do Mundo realizou-se entre 13 e 30 de julho de 1930, numa realidade muito distante da atual. A longa travessia do Atlântico por navio demorava semanas e representava um investimento difícil de justificar para muitas federações europeias.

O presidente da FIFA, Jules Rimet, a desembarcar do barco a vapor italiano ‘Conte Verde’, em Montevidéu, Uruguai, para assistir o primeiro Campeonato do Mundo de sempre, em 1930. (Foto: FIFA)
Participaram sete equipas sul-americanas (Uruguai, Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Bolívia), duas norte-americanas (Estados Unidos e México) e quatro europeias (França, Bélgica, Roménia e Jugoslávia). As 13 foram divididas em quatro grupos, e apenas os vencedores de cada grupo avançavam diretamente para as semifinais. Não havia eliminatórias longas nem a complexidade atual.
A viagem até Montevidéu representou uma autêntica expedição. As seleções europeias viajaram de navio durante mais de duas semanas, muitas delas a bordo do Conte Verde, embarcação que transportou igualmente Jules Rimet e o troféu destinado ao vencedor da competição.
Como o Mundial evoluiu
Ao longo das décadas, o Campeonato do Mundo acompanhou a expansão global do futebol. Depois da edição inaugural com 13 participantes, o torneio passou a contar com 16 seleções em 1934, ano em que também foi introduzida a fase de qualificação; em 1950, regressou após a Segunda Guerra Mundial com um formato singular de fase final em grupos.
Em 1974 e 1978, voltou a ser reorganizado em duas fases de grupos; em 1982 aumentou para 24 equipas; em 1998 para 32; e, a partir de 2026, passou a reunir 48 seleções, o maior número de sempre.

Lionel Messi, que joga pela Argentina, é o jogador com mais vitórias no Campeonato do Mundo da FIFA, com 21 vitórias, seguido pelo alemão Miroslav Klose, com 17, e pelo brasileiro Cafu e pelo francês Kylian Mbappé, ambos com 16, de acordo com o ‘ranking’ mais recente da FIFA. (Foto: AFP)
Também o formato foi sendo adaptado. A FIFA introduziu fases de qualificação continentais, reformulou sucessivamente a fase final e adotou novas regras, como o desempate por grandes penalidades, a atribuição de três pontos por vitória, a tecnologia da linha de golo e, mais recentemente, o Árbitro Assistente de Vídeo (VAR, na sigla inglesa), um sistema de arbitragem no futebol projetado para auxiliar os árbitros de campo a evitar erros claros e óbvios em lances que mudam o rumo da partida.
O troféu que acompanhou a história do futebol
A evolução do Mundial pode igualmente ser contada através do seu troféu. A primeira taça, desenhada pelo escultor francês Abel Lafleur, chamava-se inicialmente Victory (Vitória).
Durante a Segunda Guerra Mundial, o dirigente de futebol italiano Ottorino Barassi escondeu o troféu numa caixa de sapatos debaixo da sua cama, em Roma, para impedir que caísse nas mãos dos nazis. Após a Guerra, foi renomeada Troféu Jules Rimet, em homenagem ao dirigente que idealizou a competição.
Apenas alguns meses antes do início do Mundial de 1966, em Inglaterra, este tesouro do futebol foi roubado durante uma exposição pública. Num desfecho inesperado, mas bem-vindo, acabou por ser encontrado por um cão chamado Pickles – embrulhado em jornal, debaixo de uma sebe num jardim no sul de Londres.

Concebido pelo escultor francês Abel Lafleur, o troféu original (à esquerda) representava Nike, a deusa grega da vitória, a erguer um cálice e foi fabricado em prata esterlina banhada a ouro e assente numa base de lápis-lazúli. O novo (à direita) foi criado pelo artista italiano Silvio Gazzaniga, representando duas figuras humanas a erguer o Planeta Terra, fundida em ouro de 18 quilates. (Foto: FIFA)
Em 1970, o Brasil conquistou a taça, tornando-se o primeiro país a vencer o Campeonato do Mundo três vezes e o último a receber o Troféu Jules Rimet. Desde 1974, os campeões recebem o atual Troféu do Mundial, concebido pelo escultor italiano Silvio Gazzaniga. Ao contrário do anterior, este permanece sempre na posse da FIFA: a seleção vencedora ergue o original durante a cerimónia de entrega, mas recebe apenas uma réplica banhada a ouro para conservar.
No entanto, houve mais uma reviravolta na história em 1983, quando o Troféu Jules Rimet foi roubado da sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Ao contrário do que aconteceu em 1966, não houve nenhum cão salvador.
O troféu nunca foi recuperado e acredita-se que tenha sido fundido, mas a sua base original foi localizada em 2015. Foi encontrada escondida, sem que ninguém a tivesse notado, numa prateleira do arquivo da FIFA, seis décadas depois de ter sido perdida, e está agora exposta no Museu Mundial do Futebol da FIFA, em Zurique.
Um espelho da globalização
Ao longo de quase um século, o Campeonato do Mundo deixou de ser apenas uma competição entre seleções nacionais. Tornou-se um reflexo da evolução do futebol enquanto indústria global, acompanhando o desenvolvimento da televisão, da publicidade, do marketing desportivo e das novas tecnologias.
O torneio sobreviveu a crises económicas e profundas transformações políticas, mantendo, porém, a ideia que esteve na origem da visão de Jules Rimet: unificar e reconciliar as nações através do desporto. O formato mudou, o número de participantes aumentou e o futebol tornou-se um fenómeno global, mas o objetivo essencial do Campeonato do Mundo permanece praticamente inalterado desde 1930.