As autoridades andaluzas continuam a investigar a origem do fogo e a reconstruir a sequência dos acontecimentos que levou dezenas de moradores a abandonar as suas casas. A principal hipótese aponta para a queda de um cabo ou poste elétrico como origem das chamas, embora a investigação ainda não esteja concluída.
O incêndio começou junto à estrada N-340A, numa zona afetada por temperaturas superiores a 35 graus, baixa humidade e vento intenso. As condições meteorológicas fizeram com que o fogo ganhasse uma velocidade invulgar: segundo as autoridades, as chamas chegaram a avançar cerca de 50 quilómetros por hora, percorrendo vários quilómetros em poucas horas.
A propagação rápida apanhou muitos moradores de surpresa, sobretudo numa zona marcada por habitações dispersas, quintas isoladas e terrenos com ravinas profundas. Sem uma evacuação organizada em algumas áreas, várias pessoas decidiram fugir por iniciativa própria. Foi essa fuga que acabou por ser fatal para muitas das vítimas.
Carros cercados pelas chamas e pessoas encontradas nas ravinas
As autoridades espanholas explicaram que várias vítimas foram encontradas dentro de veículos ou junto a caminhos improvisados. Quatro pessoas foram localizadas no interior de um carro, enquanto outras morreram depois de abandonarem os veículos e tentarem escapar a pé.
O conselheiro da Presidência, Saúde e Emergências da Andaluzia, Antonio Sanz, descreveu algumas dessas rotas como uma “verdadeira armadilha”. Segundo as autoridades, várias pessoas entraram em zonas de barrancos e leitos secos de rios onde ficaram cercadas pelas chamas, pelo calor extremo e pelo fumo.
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“Escolher outro caminho que não o indicado pelas autoridades acabou por ser uma armadilha”, explicou Sanz, apelando para que, em situações semelhantes, a população siga sempre as indicações dos serviços de emergência.
A geografia da região tornou tudo mais difícil. Os vales estreitos e as ravinas impediram uma fuga rápida e limitaram o acesso dos meios de socorro. Em alguns pontos, o incêndio avançava mais depressa do que a capacidade das pessoas para abandonar a zona.
A falsa sensação de segurança durante uma evacuação
Especialistas em incêndios florestais alertam que fugir de um fogo sem orientação pode ser uma das situações mais perigosas. Quando as chamas avançam rapidamente, as estradas podem transformar-se em corredores de morte: o fumo reduz a visibilidade, o calor aumenta a desorientação e uma mudança súbita do vento pode alterar completamente o comportamento do incêndio.
Em muitos casos, permanecer numa habitação preparada para resistir ao fogo pode ser mais seguro do que tentar atravessar uma frente ativa.
Foi esse dilema que muitos moradores enfrentaram em Los Gallardos: ficar e esperar ajuda ou tentar escapar antes que as chamas chegassem.
Uma comunidade com muitos estrangeiros entre as vítimas
Grande parte das vítimas mortais deverá ser de nacionalidade estrangeira, segundo as autoridades espanholas. A zona de Bédar, uma das mais afetadas, é conhecida por acolher comunidades de residentes britânicos, alemães e de outros países europeus.
Testemunhos recolhidos pela imprensa espanhola descrevem momentos de pânico, com moradores a tentar perceber por onde fugir enquanto as chamas se aproximavam das casas.
Julia, uma das residentes evacuadas, contou que o primeiro sinal foi o cheiro intenso a madeira queimada. Pouco depois, viu uma enorme coluna de fumo e percebeu que o fogo estava a aproximar-se rapidamente. “Parecia que íamos ficar presos ali”, relatou.
Alguns moradores tentaram sair de carro, enquanto outros procuraram caminhos alternativos pelas zonas montanhosas daquela zona.
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Buscas continuam enquanto Espanha investiga a tragédia
As operações de busca continuam para localizar desaparecidos. A Guardia Civil, equipas de resgate em montanha e a Unidade Militar de Emergência participam nas operações, com apoio de helicópteros, drones e meios aéreos.
O incêndio obrigou à mobilização de centenas de operacionais e deixou milhares de hectares queimados. As autoridades continuam também a tentar controlar os últimos focos ativos, numa altura em que as condições meteorológicas continuam a favorecer a propagação das chamas.
A investigação terá agora de determinar não apenas a origem do incêndio, mas também se os protocolos de evacuação funcionaram e se algumas das mortes poderiam ter sido evitadas.
A tragédia de Los Gallardos volta a colocar no centro do debate uma das maiores dificuldades dos grandes incêndios modernos: muitas vezes, o perigo não está apenas no fogo, mas na decisão tomada nos minutos em que tudo muda.