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Resgates continuam na Venezuela enquanto sobe para 1.450 o número de mortos

As equipas de socorro continuam a procurar sobreviventes dos sismos que devastaram a Venezuela, depois de o balanço oficial ter subido para mais de 1.450 mortos. A janela crítica para salvar pessoas sob os escombros está a fechar-se, ao mesmo tempo que aumenta a ajuda internacional e a contestação à resposta das autoridades

AFP

As equipas de emergência, acompanhadas por cães de busca, continuavam este domingo (28) as operações para localizar eventuais sobreviventes dos dois fortes sismos que atingiram a Venezuela, onde o número de mortos ultrapassou os 1.450 e quase 200 edifícios colapsaram por completo.

Um homem e o seu filho adolescente foram encontrados com vida este domingo debaixo dos escombros por equipas de resgate francesas e norte-americanas em Caraballeda, uma localidade situada a cerca de 40 quilómetros a norte de Caracas, testemunharam jornalistas da AFP.

O resgate trouxe um vislumbre de esperança numa tragédia que abalou um país já mergulhado numa crise económica, mas continuavam a ser dadas como desaparecidas dezenas de milhares de pessoas, numa altura em que já passou a janela crítica de 72 horas para salvar vítimas presas sob os escombros após uma catástrofe natural.

Teme-se ainda que milhões de pessoas estejam privadas de condições de saneamento e de outras necessidades básicas, após um dos desastres sísmicos mais devastadores da história da América Latina. Equipas de resgate dos Estados Unidos, do México e de outros países prosseguiram os esforços para salvar sobreviventes, enquanto familiares desesperados escavavam com as próprias mãos os escombros de edifícios de apartamentos que ruíram.

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Ao todo, 774 edifícios sofreram danos graves na sequência dos sismos de magnitude 7,2 e 7,5 registados na noite de quarta-feira, incluindo 189 que colapsaram totalmente, informou este domingo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodriguez.

Numa das zonas mais afetadas, a cidade costeira de La Guaira, Hector Aguilera procurava quatro familiares soterrados nos escombros. “Não temos apoio para retirar a nossa família. Sozinhos não conseguimos. Eles estão ali soterrados. Sabemos que morreram, mas aqui estamos”, afirmou. “Já não temos esperança. Restam-me apenas as recordações.”

Especialistas recordam que as primeiras 72 horas após uma catástrofe natural representam a estreita janela de oportunidade para resgatar pessoas com vida. Depois desse período, as operações passam normalmente a centrar-se na recuperação de corpos.

No bairro de San Bernardino, em Caracas, voluntários escalavam os escombros de um edifício desabado, utilizando berbequins para partir o betão e formando correntes humanas para remover os destroços à mão.

Em Chacao, outra zona da capital, grandes ecrãs eletrónicos habitualmente utilizados para publicidade exibiam fotografias de pessoas desaparecidas, numa tentativa de ajudar a localizá-las.

Este domingo, a Presidente interina da Venezuela atualizou o balanço para 1.450 mortos – um número que deverá continuar a aumentar – e 3.150 feridos.

Enquanto prosseguiam as operações de resgate, registaram-se também surtos de pilhagem em La Guaira, grande parte da qual ficou reduzida a escombros após o desastre de quarta-feira.

Farmácias, supermercados e outros estabelecimentos comerciais foram saqueados, relataram moradores, alguns dos quais criticaram a lentidão e a insuficiência da ajuda prestada pelas autoridades após o sismo.

‘Agarrar à esperança’

A Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, elogiou este domingo as equipas de resgate por continuarem a encontrar sobreviventes entre os escombros. “Hoje resgatámos pessoas que continuam vivas e, por isso, estes esforços não serão suspensos”, afirmou. “Agarramo-nos sempre à esperança.”

Helicópteros norte-americanos transportaram ajuda humanitária, enquanto outros 230 militares dos Estados Unidos estavam a caminho para reforçar a capacidade aeroportuária e reabrir um porto estratégico, com o objetivo de acelerar as operações de assistência, informou este domingo o Comando Sul dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos – que capturaram o antigo Presidente venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar em Caracas, em janeiro – já tinham enviado uma equipa de resposta a catástrofes composta por 250 elementos. No entanto, as possibilidades de encontrar mais sobreviventes diminuem a cada hora.

Um socorrista salvadorenho, que preferiu não ser identificado, resumiu a situação: “Nesta fase, o mais provável é encontrarmos corpos. Com a ajuda de Deus, talvez ainda consigamos encontrar alguém com vida.”

Em algumas localidades, o descontentamento da população aumentou, com residentes a acusarem as autoridades de não estarem a fazer o suficiente para resgatar as vítimas. “O país precisa de vocês. Larguem as armas”, gritou um homem a soldados na zona de Tanaguarena, no estado de La Guaira, apelando para que trocassem as armas por picaretas e pás.

Perante a indignação pública com a resposta das autoridades locais, Rodriguez agradeceu a ajuda enviada por outros países. Segundo a Presidente interina, 24 países enviaram 521 toneladas de ajuda, 86 equipas cinotécnicas especializadas na localização de vítimas soterradas e mais de 2.700 operacionais de busca e salvamento.

Impacto económico

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estimou que, com base nos dados relativos à população e aos danos registados, até 6,76 milhões de pessoas poderão ter sido afetadas e necessitar de abrigo, água, saneamento, cuidados de saúde e bens essenciais.

Os piores sismos registados na Venezuela em mais de um século ocorreram depois de o país rico em petróleo atravessar mais de uma década de colapso económico. A crise fragilizou hospitais e serviços públicos, levando milhões de pessoas a abandonar o país.

As Nações Unidas estimaram os danos materiais em 6,7 mil milhões de dólares (cerca de 5,9 mil milhões de euros), o equivalente a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela.

Também este domingo, a dirigente da oposição venezuelana Maria Corina Machado, atualmente no exílio, anunciou que regressará “muito em breve” ao país. “Chegou o momento”, afirmou à cadeia televisiva norte-americana Fox News. “Precisamos de estar juntos, de nos abraçarmos, de fazer o luto em conjunto, mas também de nos dar força uns aos outros neste momento tão difícil.”

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