Início » Comunidade LGBTQIA+ ganha espaço em Macau mas ainda luta por aceitação

Comunidade LGBTQIA+ ganha espaço em Macau mas ainda luta por aceitação

A comunidade LGBTQIA+ em Macau tem hoje maior visibilidade, mas continua a enfrentar obstáculos ligados à aceitação social, pressão familiar e necessidade de mais sensibilização pública. A avaliação foi feita por membros da Associação de Macau para a Comunidade de Género Diverso, à margem da Festa do Orgulho LGBTQIA+, evento que reuniu cerca de 100 participantes no passado fim de semana

Diogo Pereira

Essa maior visibilidade traduz uma mudança clara face ao passado recente, considera Alan, membro do Conselho de Administração da Associação de Macau para a Comunidade de Género Diverso (CGD): “Muitas pessoas tentavam esconder quem eram. Hoje estão mais dispostas a assumir a sua identidade de género e a participar em eventos públicos”, afirma ao PLATAFORMA, sublinhando que o acesso à informação teve um papel decisivo nesta evolução.

A internet e as redes sociais permitiram que mais pessoas contactassem com experiências e movimentos LGBTQIA+ de outros países, “proporcionando-lhes uma perspetiva valiosa, e o crescente debate social em torno desta questão torna-os muito mais dispostos a abrir-se e a partilhar as suas histórias connosco”.

Em Macau, assumir-se continua a ser um processo marcado pela proximidade social: “Macau é uma comunidade muito relacional”, refere o presidente do Conselho de Administração da GDC, Benedict, acrescentando que quem decide revelar a sua orientação sexual ou identidade de género “pensa cuidadosamente com quem está a falar, nas ligações familiares e nos círculos sociais envolvidos”.

Embora ‘sair do armário’ continue a ser arriscado, estes grupos de apoio garantem que não tenham de enfrentar essa situação sozinhos – Daniel, diretor de desenvolvimento da comunidade transgénero da associação CGD

O diretor de desenvolvimento da comunidade transgénero da associação, Daniel, acrescenta que “a pressão social continua a ser forte para muitas pessoas, sobretudo quando as famílias ou escolas são muito religiosas ou têm valores tradicionais profundos”. Nalguns casos, refere, essa pressão leva mesmo algumas pessoas a “entrarem em casamentos heterossexuais”.

Leia também: Chefe do Executivo de Macau quer manter-se ligado ao “pulso da sociedade”

“Felizmente, temos agora grupos de apoio”, observa, sublinhando que, apesar disso, “assumir-se continua a ser um risco para muitas pessoas”.

Apoio e educação comunitária

“Embora ‘sair do armário’ continue a ser arriscado, estes grupos de apoio garantem que não tenham de enfrentar essa situação sozinhos”, explica Daniel. “Se depois disso sentirem tristeza ou solidão, podem recorrer a nós [associação] e encontrar uma comunidade pronta a apoiar”, diz ao PLATAFORMA.

No plano legal, Macau não criminaliza as pessoas LGBTQIA+ desde 1996, mas a associação defende que ainda há espaço para “reforçar a sensibilização para a realidade das pessoas LGBTQIA+”.

A associação tem procurado atuar precisamente nesse campo, chegando a universidades como a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) e a Universidade Cidade de Macau, “sobretudo aos cursos de serviço social, para educar os estudantes sobre questões LGBTQIA+. Também organizamos ‘bibliotecas humanas’, onde membros da comunidade partilham as suas experiências com quem ainda não conhece estas realidades”, explica Benedict ao PLATAFORMA.

A associação desenvolve também ações com empresas, através de formações internas destinadas a aumentar a compreensão sobre questões LGBTQIA+ e a promover ambientes de trabalho mais inclusivos. Além disso, tem colaborado com a Associação de Apoio às Pessoas com SIDA de Macau e com o Festival Internacional de Cinema Queer.

“As pessoas tendem a recear aquilo que não conhecem”, diz Benedict, defendendo que a educação continua a ser a ferramenta mais eficaz para combater ideias feitas.

Não se trata de obrigar ninguém a aceitar imediatamente. Trata-se de ajudar as pessoas a compreender o que significa a diversidade de género – Alan, membro do Conselho de Administração da CGD

“Quando olhamos para Hong Kong e Taiwan, vemos sociedades mais orientadas pela sociedade civil e com uma base de participação muito maior do que a nossa”, afirma.

Em Macau, o caminho tem sido diferente, mas não menos eficaz: assenta em educação comunitária, diálogo e iniciativas de proximidade. “O que estamos a fazer agora, com educação de base comunitária, já é um passo em frente”, afirma Benedict.

Espaço de inclusão

O objetivo para os próximos anos passa por aumentar a aceitação pública através da informação: “Não se trata de obrigar ninguém a aceitar imediatamente. Trata-se de ajudar as pessoas a compreender o que significa a diversidade de género”, explica Alan, acrescentando que “a informação é o que, eventualmente, irá promover uma maior aceitação da nossa comunidade”.

A Festa do Orgulho deste ano contou com a participação da ‘drag queen’ de Hong Kong, Coco Pop e procurou transmitir uma mensagem de inclusão.

Benedict explica que a arte ‘drag’ – uma forma de expressão performativa em que artistas usam figurinos, maquilhagem e atuação para explorar e celebrar diferentes identidades de género – “é uma das expressões mais visíveis da comunidade LGBTQIA+” e pode funcionar como “incentivo para aprender mais sobre a cultura LGBTQIA+ no seu conjunto”.

“As pessoas são atraídas pelo entretenimento, e isso pode levá-las a aprender mais sobre a cultura LGBTQIA+”, disse. Os organizadores sublinham ainda a importância de eventos como este em Macau: “Chamamos-lhe uma ‘festa à volta da fogueira’, mas, na verdade, acolhemos todos os seres humanos”, afirma Daniel. “Não importa se és heterossexual, gay, transgénero ou cisgénero – todos são bem-vindos aqui”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website