Essa maior visibilidade traduz uma mudança clara face ao passado recente, considera Alan, membro do Conselho de Administração da Associação de Macau para a Comunidade de Género Diverso (CGD): “Muitas pessoas tentavam esconder quem eram. Hoje estão mais dispostas a assumir a sua identidade de género e a participar em eventos públicos”, afirma ao PLATAFORMA, sublinhando que o acesso à informação teve um papel decisivo nesta evolução.
A internet e as redes sociais permitiram que mais pessoas contactassem com experiências e movimentos LGBTQIA+ de outros países, “proporcionando-lhes uma perspetiva valiosa, e o crescente debate social em torno desta questão torna-os muito mais dispostos a abrir-se e a partilhar as suas histórias connosco”.
Em Macau, assumir-se continua a ser um processo marcado pela proximidade social: “Macau é uma comunidade muito relacional”, refere o presidente do Conselho de Administração da GDC, Benedict, acrescentando que quem decide revelar a sua orientação sexual ou identidade de género “pensa cuidadosamente com quem está a falar, nas ligações familiares e nos círculos sociais envolvidos”.

Embora ‘sair do armário’ continue a ser arriscado, estes grupos de apoio garantem que não tenham de enfrentar essa situação sozinhos – Daniel, diretor de desenvolvimento da comunidade transgénero da associação CGD
O diretor de desenvolvimento da comunidade transgénero da associação, Daniel, acrescenta que “a pressão social continua a ser forte para muitas pessoas, sobretudo quando as famílias ou escolas são muito religiosas ou têm valores tradicionais profundos”. Nalguns casos, refere, essa pressão leva mesmo algumas pessoas a “entrarem em casamentos heterossexuais”.
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“Felizmente, temos agora grupos de apoio”, observa, sublinhando que, apesar disso, “assumir-se continua a ser um risco para muitas pessoas”.
Apoio e educação comunitária
“Embora ‘sair do armário’ continue a ser arriscado, estes grupos de apoio garantem que não tenham de enfrentar essa situação sozinhos”, explica Daniel. “Se depois disso sentirem tristeza ou solidão, podem recorrer a nós [associação] e encontrar uma comunidade pronta a apoiar”, diz ao PLATAFORMA.
No plano legal, Macau não criminaliza as pessoas LGBTQIA+ desde 1996, mas a associação defende que ainda há espaço para “reforçar a sensibilização para a realidade das pessoas LGBTQIA+”.

A associação tem procurado atuar precisamente nesse campo, chegando a universidades como a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) e a Universidade Cidade de Macau, “sobretudo aos cursos de serviço social, para educar os estudantes sobre questões LGBTQIA+. Também organizamos ‘bibliotecas humanas’, onde membros da comunidade partilham as suas experiências com quem ainda não conhece estas realidades”, explica Benedict ao PLATAFORMA.
A associação desenvolve também ações com empresas, através de formações internas destinadas a aumentar a compreensão sobre questões LGBTQIA+ e a promover ambientes de trabalho mais inclusivos. Além disso, tem colaborado com a Associação de Apoio às Pessoas com SIDA de Macau e com o Festival Internacional de Cinema Queer.
“As pessoas tendem a recear aquilo que não conhecem”, diz Benedict, defendendo que a educação continua a ser a ferramenta mais eficaz para combater ideias feitas.
Não se trata de obrigar ninguém a aceitar imediatamente. Trata-se de ajudar as pessoas a compreender o que significa a diversidade de género – Alan, membro do Conselho de Administração da CGD
“Quando olhamos para Hong Kong e Taiwan, vemos sociedades mais orientadas pela sociedade civil e com uma base de participação muito maior do que a nossa”, afirma.
Em Macau, o caminho tem sido diferente, mas não menos eficaz: assenta em educação comunitária, diálogo e iniciativas de proximidade. “O que estamos a fazer agora, com educação de base comunitária, já é um passo em frente”, afirma Benedict.

Espaço de inclusão
O objetivo para os próximos anos passa por aumentar a aceitação pública através da informação: “Não se trata de obrigar ninguém a aceitar imediatamente. Trata-se de ajudar as pessoas a compreender o que significa a diversidade de género”, explica Alan, acrescentando que “a informação é o que, eventualmente, irá promover uma maior aceitação da nossa comunidade”.
A Festa do Orgulho deste ano contou com a participação da ‘drag queen’ de Hong Kong, Coco Pop e procurou transmitir uma mensagem de inclusão.
Benedict explica que a arte ‘drag’ – uma forma de expressão performativa em que artistas usam figurinos, maquilhagem e atuação para explorar e celebrar diferentes identidades de género – “é uma das expressões mais visíveis da comunidade LGBTQIA+” e pode funcionar como “incentivo para aprender mais sobre a cultura LGBTQIA+ no seu conjunto”.
“As pessoas são atraídas pelo entretenimento, e isso pode levá-las a aprender mais sobre a cultura LGBTQIA+”, disse. Os organizadores sublinham ainda a importância de eventos como este em Macau: “Chamamos-lhe uma ‘festa à volta da fogueira’, mas, na verdade, acolhemos todos os seres humanos”, afirma Daniel. “Não importa se és heterossexual, gay, transgénero ou cisgénero – todos são bem-vindos aqui”.