O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou na terça-feira (23) que Washington não aceitará a imposição de portagens ou taxas por parte do Irão no Estreito de Ormuz, numa altura em que divergências sobre esta importante via marítima, as inspeções nucleares e os mísseis revelam as primeiras tensões nas negociações para pôr fim à guerra no Médio Oriente.
Washington e Teerão assinaram um acordo preliminar para travar o conflito e concluíram uma primeira ronda de negociações na Suíça, abrindo um período de 60 dias para discutir o levantamento de sanções, o programa nuclear iraniano e o futuro do Estreito de Ormuz.
Um bloqueio iraniano no início da guerra estrangulou o tráfego marítimo através do estreito, provocando uma forte subida dos preços globais do petróleo, mas as travessias começaram a aumentar desde a assinatura do acordo. O Irão tem insistido repetidamente que manterá o controlo sobre esta via marítima.
Na terça-feira, Teerão e Omã afirmaram, numa declaração conjunta, que irão estudar a administração da rota comercial e os custos a cobrar pelos serviços prestados, reiterando simultaneamente a sua soberania sobre o estreito.
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Rubio, que iniciou uma visita regional aos Emirados Árabes Unidos, afirmou que Washington se oporá a qualquer medida nesse sentido. “Trata-se de uma via navegável internacional. Nenhum país está autorizado a cobrar portagens ou taxas numa via navegável internacional”, declarou, acrescentando acreditar que “todos os países desta região concordariam”.
O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, tinha afirmado anteriormente que Ormuz “nunca voltará” à situação anterior à guerra, apesar de ambas as partes terem concordado em estabelecer canais de comunicação para manter o estreito aberto.
Entretanto, a agência marítima das Nações Unidas anunciou que irá iniciar a evacuação de mais de 11 mil marinheiros retidos devido ao bloqueio, trabalhando em coordenação com o Irão, Omã e os Estados Unidos, após obter “as garantias de segurança necessárias”.
O tráfego através do estreito atingiu na segunda-feira o nível mais elevado desde o início da guerra, segundo duas plataformas de monitorização marítima, embora continuasse ligeiramente acima de 40% do volume normal em tempo de paz, estimado em cerca de 120 embarcações por dia.

Passageiros passam por um painel eletrónico que exibe o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian (ao centro), o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif (à esquerda), e o presidente Asif Ali Zardari, instalado numa rua de Islamabad a 22 de junho de 2026, na véspera da visita de Pezeshkian ao Paquistão, no âmbito das negociações de paz entre os EUA e o Irão. (Foto: AFP)
Linhas vermelhas
A atividade diplomática estava em pleno na terça-feira, com o Presidente iraniano em visita ao Paquistão, país mediador, Marco Rubio a iniciar uma digressão pelos aliados do Golfo e negociações mais diretas entre o Líbano e Israel a arrancarem em Washington.
Contudo, Teerão sinalizou que o seu programa de mísseis balísticos não fará parte de qualquer acordo final. “Se os mísseis que possuímos para a nossa defesa não existissem, Israel e os Estados Unidos teriam arrasado o Irão tal como fizeram com Gaza”, afirmou o Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, durante a visita ao Paquistão.
Acrescentou que a República Islâmica “nunca negociará com ninguém, em circunstância alguma, sobre as suas capacidades defensivas”.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, confirmou que o acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irão não faz qualquer referência aos mísseis balísticos, afirmando que não pode haver “dois pesos e duas medidas” relativamente aos países autorizados a possuir esse tipo de armamento.
Durante a guerra, o Irão lançou centenas de mísseis e milhares de drones contra Israel e países vizinhos do Golfo, enquanto Israel considera há muito o programa iraniano uma ameaça existencial.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, que anteriormente procurava incluir os mísseis e o apoio de Teerão a grupos armados aliados nas negociações, pareceu suavizar a sua posição na semana passada, ao afirmar que seria “um pouco injusto” impedir o Irão de possuir alguns mísseis se outros países também os têm.
O Irão rejeitou igualmente uma afirmação do vice-presidente norte-americano, JD Vance, segundo a qual Teerão teria concordado em voltar a receber inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nas instalações nucleares bombardeadas pelos Estados Unidos e por Israel no ano passado.
Trump, contudo, insistiu que o Irão concordou “total e completamente com inspeções nucleares do mais alto nível por muito tempo”.
Quando os Estados Unidos se juntaram à anterior guerra de Israel contra o Irão, em meados de 2025, bombardearam instalações nucleares em Fordow, Natanz e Isfahan, incluindo com poderosas munições concebidas para destruir bunkers subterrâneos. A verdadeira extensão dos danos permanece desconhecida, apesar de Trump afirmar que as instalações foram “obliteradas”.
O embaixador iraniano junto das Nações Unidas, Ali Bahreini, disse igualmente aos jornalistas que “não foi tomada qualquer decisão” para aceitar o regresso dos inspetores da AIEA.
Sanções e Congresso
Os mediadores Paquistão e Qatar afirmaram que ambas as partes concordaram com um “roteiro” para alcançar um acordo final dentro do prazo de 60 dias. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos suspendeu temporariamente as sanções ao Irão para permitir a produção, venda e entrega de petróleo bruto e produtos relacionados até meados de agosto.
Como parte do acordo, Washington comprometeu-se também a libertar 12 mil milhões de dólares (10,6 mil milhões de euros) em fundos iranianos congelados, segundo os meios de comunicação estatais iranianos. O processo diplomático foi igualmente ensombrado por uma repreensão simbólica em Washington, onde o Senado norte-americano aprovou uma resolução já validada pela Câmara dos Representantes apelando ao fim da guerra com o Irão.
Embora o alcance jurídico da medida seja contestado, a votação significa que ambas as câmaras do Congresso passaram a ter uma posição formal contra o conflito enquanto prosseguem as negociações.
Na frente libanesa, teve início na terça-feira, em Washington, uma quinta ronda de negociações entre responsáveis libaneses e israelitas com o objetivo de pôr termo ao conflito entre Israel e o Hezbollah.
Os combates entre Israel e o Hezbollah, que arrastaram o Líbano para a guerra no Médio Oriente a 2 de março, têm ameaçado repetidamente comprometer os esforços de paz.