O casal, cidadãos alemães, foi detido na cidade de Munique, no sul da Alemanha, anunciou o Ministério Público Federal. Ambos “trabalham para uma agência de informações chinesa”, segundo as autoridades. As residências e locais de trabalho dos suspeitos em Munique estavam a ser alvo de buscas, bem como outros locais em território alemão.
Os dois são suspeitos de terem “estabelecido contactos com numerosos académicos em universidades e instituições de investigação alemãs, em particular em áreas como engenharia aeroespacial, informática e inteligência artificial”. Para estabelecer esses contactos, alegadamente “faziam-se passar por intérpretes ou funcionários de um fabricante automóvel”.
Alguns cientistas terão sido “convencidos a viajar para a China sob o pretexto de proferirem palestras pagas para um público civil”, acabando, na realidade, por falar perante funcionários de fabricantes estatais de armamento, segundo os procuradores.
Além das detenções, o Ministério Público indicou que estavam a ser realizadas “outras diligências” relacionadas com “um total de 10 pessoas que não são suspeitas de qualquer crime, mas poderão servir como testemunhas” em Berlim, Munique e outras localidades do país.
Leia também: Caso de espionagem pró-Pequim leva Londres a confrontar China
Um dos cidadãos, de 55 anos, é presidente da Associação Germano-Chinesa para o Intercâmbio Tecnológico, Educacional e Cultural, sediada em Munique, de acordo com o diário Handelsblatt.
O jornal refere ainda que o suspeito mantém alegadas ligações estreitas a uma universidade chinesa que coopera ativamente com instituições de investigação alemãs e que também possui relações com a investigação e a indústria de defesa da China.
Nos últimos tempos, vários casos mediáticos de espionagem ligados à China vieram a público na Alemanha. Em fevereiro, um cidadão norte-americano foi condenado por um tribunal da cidade de Koblenz, no oeste alemão, por fornecer informações sensíveis à China enquanto trabalhava como contratado civil numa base militar dos Estados Unidos.
Em setembro, um antigo assessor do político de extrema-direita Maximilian Krah foi condenado a mais de quatro anos de prisão, depois de um tribunal o considerar culpado de actuar como agente de um serviço de informações chinês enquanto trabalhava para Krah.
Os procuradores abriram igualmente uma investigação ao próprio Krah, devido a suspeitas de ter recebido dinheiro da Rússia e da China durante o período em que foi deputado no Parlamento Europeu, acusações que o político nega.
No início desta semana, o deputado ecologista alemão Konstantin von Notz, vice-presidente da comissão parlamentar de supervisão dos serviços secretos, alertou para o aumento da ameaça representada pela China.
“Estamos a subestimar massivamente a energia e a agressividade com que a China atua contra o Ocidente, incluindo contra a Europa e a Alemanha”, afirmou num podcast do site Politico.
Referindo-se às ligações entre Pequim e Moscovo, acrescentou que “os autocratas têm um interesse comum em formar alianças e permanecer unidos contra o que consideram ser o seu inimigo”.
Já o especialista em segurança da CDU, Roderich Kiesewetter, declarou ao Handelsblatt recear que o mais recente caso de espionagem “seja apenas a ponta do icebergue, porque a China actua de forma muito deliberada, com uma perspectiva de longo prazo, utilizando uma vasta rede de ‘soft power’”.