Uma mulher de apelido Li saiu recentemente de uma clínica comunitária na cidade de Suzhou, no leste da China, com mais do que esperava. Um exame de rotina por tomografia computorizada ao tórax, realizado para avaliar os pulmões, identificou, através da intervenção silenciosa da inteligência artificial (IA), um risco cardiovascular oculto. “A máquina sabia que havia uma ‘bomba-relógio’ dentro do meu coração”, afirmou Li.
Em toda a China, a tecnologia está a transformar o vasto sistema de saúde num modelo que permite detetar mais cedo, responder mais rapidamente e chegar mais longe.
Desde diagnósticos assistidos por IA até ao controlo de doenças infeciosas e serviços inteligentes para o envelhecimento, a tecnologia tem ajudado a China a avançar com a iniciativa “China Saudável”, que promove uma estratégia centrada na saúde e no bem-estar da população.
Nos últimos anos, a China tem acelerado a adoção da medicina assistida por inteligência artificial. Um plano estratégico nacional prevê que, até 2030, ferramentas apoiadas por IA, desde a análise de imagens médicas até sistemas de apoio à decisão clínica, estejam amplamente disponíveis, incluindo ao nível dos cuidados primários.
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Em Pequim, médicos do Hospital Fuwai, um dos principais centros cardiovasculares, utilizam atualmente algoritmos capazes de analisar imagens cardíacas complexas com elevada rapidez e precisão.
Sistemas semelhantes estão a ser introduzidos em exames de tomografia e ecografia em hospitais distritais e de cuidados primários na província de Hebei, no norte da China, alargando o acesso a conhecimento especializado para além das grandes cidades.
Com a chegada de temperaturas mais elevadas em abril, na província de Anhui, no leste da China, a trabalhadora de saúde pública Liu Zhihong lidera equipas na monitorização de caracóis de água doce, portadores da esquistossomose, uma doença parasitária que já foi amplamente disseminada.
Equipas equipadas com ferramentas de deteção avançadas e sistemas de dados fazem parte de um esforço nacional mais amplo para eliminar a doença.
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Até ao final de 2025, as infeções agudas praticamente desapareceram em todo o país, enquanto o número de casos ativos atingiu mínimos históricos. Dos 450 condados anteriormente afetados, 94% alcançaram os objetivos de eliminação.
Por detrás destes resultados está uma transformação silenciosa: a digitalização da vigilância epidemiológica. Sistemas de notificação em tempo real, aliados à sequenciação genética rápida de agentes patogénicos, permitem às autoridades detetar surtos precocemente e responder com rapidez sem precedentes.
Perante uma população em rápido envelhecimento, uma das mudanças mais profundas no sistema de saúde chinês ocorre não apenas em hospitais ou laboratórios, mas também nas habitações. Até ao final de 2025, mais de 320 milhões de cidadãos chineses tinham 60 anos ou mais, número que deverá ultrapassar os 400 milhões na próxima década.
Também neste domínio a tecnologia desempenha um papel crescente. Sistemas inteligentes de apoio a idosos começam a ser implementados, com sensores integrados em colchões a monitorizar respiração e ritmo cardíaco durante a noite, enquanto dispositivos vestíveis detetam quedas e alertam familiares em segundos. O que antes era reservado a soluções experimentais de elevado custo começa agora a chegar aos lares comuns.
No esboço do 15.º Plano Quinquenal (2026-2030), divulgado no mês passado, a China comprometeu-se igualmente a reforçar a adaptação das infraestruturas públicas ao envelhecimento e a continuar a desenvolver iniciativas de “cuidados inteligentes para idosos”.
“O objetivo não é apenas garantir cuidados seguros e convenientes”, afirmou Zhang Huan, da Escola de Enfermagem do Colégio Médico da União de Pequim. “É combinar a inteligência da tecnologia com o calor do cuidado humano.”