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“Mar deve ser pensado como recurso estratégico”. PR cabo-verdiano lança debate sobre Santa Luzia (com vídeo)

A maioria do plástico que cobre a ilha desabitada do norte do arquipélago, 10 quilómetros a leste de São Vicente, são redes e peças de pesca industrial oriundas de outros países

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O Presidente cabo-verdiano vai lançar um debate internacional sobre o impacto de toneladas de plástico acumuladas na ilha de Santa Luzia devido à poluição marinha, anunciou durante uma visita realizada no sábado à reserva ambiental.

José Maria Neves disse que pretende “debater a questão, fazer com que entre na agenda pública” e “mobilizar parceiros internacionais” na V Conferência da Década do Oceano, a realizar em julho, na ilha da Boa Vista.

A Década do Oceano é uma iniciativa global liderada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o chefe de Estado é um dos patronos.

Ao mesmo tempo, enquanto líder da União Africana (UA) para o património natural e cultural, José Maria Neves vai apresentar o tema à organização e “aos países da região, sensibilizando-os para esta problemática do lixo marinho e para a necessidade de preservarmos este recurso natural extraordinário, que é o mar”.

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O futuro de Cabo Verde “é o mar”, que deve ser pensado como “um recurso estratégico”, assinalou.

A maioria do plástico que cobre a ilha desabitada do norte do arquipélago, 10 quilómetros a leste de São Vicente, são redes e peças de pesca industrial oriundas de outros países, arrastadas pelas correntes para formar um manto a perder de vista pelo areal da praia norte.

“Vamos fazer um evento para pormos todos os parceiros, organizações não-governamentais (ONG) autoridades e armadores de pesca a conversarem para encontrarmos formas de recolher, transportar e reciclar esse plástico”, disse o chefe de Estado.

Segundo José Maria Neves, é necessário também “considerar essas questões no quadro da comissão de pescas da região oeste-africana e das negociações de acordos de pescas, designadamente com a União Europeia”.

“Vou também preparar uma mensagem para os países costeiros, para sensibilizá-los, sobretudo sobre o lixo que vem das indústrias pesqueiras da região”, acrescentou.

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A missão a Santa Luzia ocupou todo o sábado, com uma comitiva que integrou diplomatas, representantes de empresas e organizações não- governamentais até à ilha intocada onde a acumulação de lixo é o único sinal da humanidade — com exceção do acampamento da ONG Biosfera, cujos membros serviram de guias.

A ONG tem equipas na ilha entre junho e outubro, para proteger milhares de tartarugas marinhas durante a época de desova. Santa Luzia é um importante local de nidificação a nível global.

Foto: Justin Carrette/Reporterre

Antes de cada época, a Biosfera junta entre 100 a 150 voluntários, que se revezam, durante quatro a cinco semanas, para limpar o lixo à superfície e reduzir o número de mortes de tartarugas adultas (que põem os ovos) e crias, ao ficarem presas nas redes.

No entanto, ainda não se encontrou solução para retirar da ilha o plástico acondicionado em grandes cercas improvisadas desde as primeiras campanhas, há 15 anos.

“Esperemos que visitas como estas chamem a atenção para as problemáticas que aqui temos”, referiu Tommy Melo, co-fundador da Biosfera, ao mostrar os depósitos de resíduos recolhidos em anos anteriores.

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Segundo referiu, “há um impacto ambiental muito grande nas tartarugas”, porque, além do lixo retirado à superfície, há resíduos em profundidade”, no areal, agravando os riscos para a nidificação.

Noutras ocasiões, chegam à praia “redes com animais marinhos mortos, porque uma rede demora décadas a desfazer-se e, entretanto, fica a fazer ‘caça fantasma’ no mar”, descreveu.

Tommy Melo estima que haja entre 700 a 800 toneladas de resíduos recolhidos acumulados na ilha e todos os anos são recolhidas outras 70 em cada campanha.

“Ficamos chocados com a quantidade de lixo que aqui chega”, referiu Patrícia Portela de Souza, coordenadora residente das Nações Unidas em Cabo Verde, que integrou a comitiva.

As agências e fundos da ONU apoiam diversos projetos de proteção ambiental no arquipélago.

Segundo a representante, a situação remete para uma discussão global, sobre “como trabalhar com as nações de uma maneira mais articulada para prevenir que esse lixo seja atirado ao mar”.

“Acho que essa é a primeira discussão: tem de haver um acordo forte para prevenir que venha mais lixo”, concluiu.

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