Investigadoras disseram à Lusa que, para reverter a natalidade mais baixa do mundo, Macau precisa de “medidas mais radicais” do que meros subsídios para melhorar a vida de toda a população.
Em 2025, a região registou 2.871 recém-nascidos, o menor número em quase meio século. No ano anterior, a taxa de fecundidade tinha sido de 0,58 nascimentos por mulher, longe do necessário para a substituição de gerações (2,1).
Macau terá tido em 2024 a mais baixa natalidade do mundo, seguida de Singapura, com uma taxa de fecundidade de 0,95 nascimentos por mulher, segundo estimativas do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas.
Algo que “reflete pressões estruturais comuns em muitas economias urbanas do leste asiático onde o custo de vida é elevado”, disse a socióloga da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, Emma Zang Xiaolu.
Em Hong Kong, 15 escolas primárias estão em risco de fechar após a vizinha região chinesa ter registado em 2025 cerca de 31.100 nascimentos, o número mais baixo de sempre.
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A China continental registou 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o valor mais baixo desde a fundação da República Popular da China, em 1949. A taxa de natalidade também caiu para mínimos históricos.
“Aquelas trajetórias de vida muito convencionais, sobre a idade em que se deve casar e, depois de casar, deve-se ter filhos, essas normas foram enfraquecendo”, disse a socióloga da Universidade Nacional de Singapura, Mu Zheng.
À medida que o leste asiático se tornou mais desenvolvido e rico, as pessoas “valorizam mais as preferências individuais”, apesar da influência “da família e dos valores familiares” ser ainda maior do que no Ocidente, acrescentou.
Mas a pressão da família colide com “muitos outros tipos de pressões”, sublinhou Mu Zheng, incluindo expectativas de um bom desempenho académico e, mais tarde, uma cultura de trabalho “muito exigente”.
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Emma Zang também aponta “as longas jornadas de trabalho” como fatores que dificultam a constituição de uma família, juntamente com “os custos de habitação e a incerteza quanto às oportunidades económicas futuras”.
Macau era a 13.ª cidade mais cara do mundo em 2024, de acordo com um inquérito da empresa de consultoria norte-americana Mercer, sobretudo devido ao preço da habitação.
As pressões sentidas em outras cidades do leste asiático “são intensificadas” em Macau, sublinhou Emma Zang, “por uma economia altamente especializada e pelo espaço habitacional limitado”.
Ter filhos ainda não está nos planos de Emily Cheong, de 29 anos, apesar de já ter casado há três anos. “Ainda estamos a viver com os meus pais, a tentar poupar para a entrada de um apartamento”, explicou a residente à Lusa.
A situação do casal complicou-se no ano passado, quando encerrou o ‘casino-satélite’ em que trabalhava o marido de Cheong, um ‘croupier’ que conseguiu encontrar um novo emprego, mas com um salário mais baixo.
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Dez ‘casinos-satélite’ – espaços sob a alçada das concessionárias de jogo, mas geridos por outras empresas – fecharam portas em 2025, antes da data limite imposta quando a legislação que regula os casinos foi alterada, em 2022.
O Governo de Macau introduziu medidas para incentivar a natalidade, como um subsídio, no valor total de 54 mil patacas (cerca de 5.830 euros), para crianças até aos três anos.
Mas Emma Zang não está otimista: “Incentivos governamentais podem ajudar de forma marginal, mas estudos a nível mundial sugerem que os subsídios financeiros, por si só, raramente revertem o declínio”.
“Muitas dessas políticas não são particularmente eficazes”, confirmou Mu Zheng, porque os incentivos “podem não ser suficientemente grandes para realmente remover toda a ansiedade” dos jovens adultos.
A socióloga deu como exemplo a expectativa, colocada nos pais, de “um investimento intensivo, de tempo, energia e dinheiro, no desenvolvimento e educação dos filhos”.
Emma Zang acredita que “melhor acessibilidade à habitação, equilíbrio entre o trabalho e a família e disponibilidade de cuidados infantis tendem a ser mais importantes para a estabilização demográfica a longo prazo”.
O Governo de Macau prometeu oferecer, de forma gratuita, mais e melhores creches e lançou uma consulta pública, que terminou na segunda-feira, sobre o aumento, no setor privado, da licença de maternidade, de 70 para 90 dias.
Políticas que “realmente apoiem as famílias jovens e incentivem a igualdade de género”, nomeadamente na divisão do trabalho doméstico, podem funcionar, mas Mu Zheng sublinha que mesmo na Escandinávia o efeito foi-se esbatendo.
A socióloga diz que, a longo prazo, é preciso “medidas mais radicais e abrangentes”, incluindo “criar uma cultura de trabalho mais amiga” da vida familiar e “reduzir a pressão sobre a saúde mental”.