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Paris abre janela de distensão entre China e EUA

Paris abriu uma nova frente de entendimento entre Washington e Pequim, com negociações descritas como “notavelmente estáveis” e sinais de abertura em matérias sensíveis, num momento em que, segundo o analista político Sonny Lo, a China procura “redução de tarifas sobre produtos chineses” e a eventual entrada de alguns veículos eléctricos chineses no mercado norte-americano

Fernando M. Ferreira

As conversações entre altos responsáveis económicos dos Estados Unidos e da China em Paris, que terminaram no início desta semana, foram descritas por fontes à agência Reuters como “notavelmente estáveis”, num sinal de distensão entre as duas maiores economias do mundo, num momento em que ambos os lados parecem tentar travar uma nova escalada comercial e preparar terreno para um eventual encontro entre Donald Trump e Xi Jinping.

As discussões, lideradas pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, e pelo vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, centraram-se em três áreas principais: compras agrícolas, minerais críticos e novos mecanismos para gerir comércio e investimento. Segundo as fontes citadas, os contactos foram “francos e construtivos” e poderão abrir caminho a propostas políticas a serem apreciadas pelos dois líderes.

Um dos pontos de maior convergência esteve na agricultura. Pequim mostrou abertura para aumentar as compras de produtos agrícolas norte-americanos, ao mesmo tempo que reiterou o compromisso de comprar 25 milhões de toneladas métricas de soja dos EUA por ano durante os próximos três anos. Também foram discutidas possíveis compras adicionais de aviões da Boeing e de carvão, petróleo e gás natural norte-americanos.

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Para o analista político Sonny Lo, estes sinais sugerem mais do que uma mera trégua táctica. “A possibilidade de concessões chinesas na compra de produtos agrícolas norte-americanos e na exportação de minerais críticos são movimentos importantes que poderão assegurar concessões correspondentes por parte dos Estados Unidos noutros dossiês que afetam os interesses chineses”, afirma ao PLATAFORMA.

Segundo o analista, estes gestos ajudam também a “criar um ambiente favorável nas relações entre os dois países antes do encontro entre Trump e Xi”.

Os Estados Unidos precisam que a China atue como intermediária na guerra com o Irão, persuadindo Pequim a transmitir mensagens a Teerão e a ajudar o Irão a compreender a posição e os movimentos norte-americanos – Sonny Lo, analista político

Mas a reunião de Paris não se limitou ao comércio tradicional. As duas delegações discutiram a criação de novos mecanismos formais de gestão bilateral, incluindo um eventual “Board of Trade” e um “Board of Investment”, desenhados para dar maior previsibilidade à relação económica e resolver questões setoriais sem comprometer a segurança nacional ou cadeias críticas de abastecimento.

Entre os temas mais sensíveis esteve precisamente o acesso norte-americano a minerais críticos produzidos na China, nomeadamente o ítrio, usado em turbinas de motores de avião. As fontes referem que ambas as partes encontraram “algumas formas de aliviar” os pontos mais difíceis, sem detalharem como.

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Na leitura de Sonny Lo, o que está em cima da mesa diz muito sobre as prioridades chinesas nesta fase. O analista aponta para três objetivos principais: “redução de tarifas sobre produtos chineses”, “eventual entrada de alguns veículos eléctricos chineses no mercado norte-americano” e uma promessa dos “Estados Unidos de reduzir as vendas de armas e aviões de combate a Taiwan”.

O alcance das conversações pode, contudo, ir para além da relação bilateral. Para Sonny Lo, Washington quer que Pequim desempenhe também um papel útil no Médio Oriente. “Os Estados Unidos precisam que a China atue como intermediária na guerra com o Irão, persuadindo Pequim a transmitir mensagens a Teerão e a ajudar o Irão a compreender a posição e os movimentos norte-americanos.”

Ainda assim, a margem para avanços concretos permanece condicionada. A viagem de Trump a Pequim, inicialmente prevista para o fim de março, foi adiada por causa do impacto da guerra com o Irão na agenda externa norte-americana, embora Washington tenha insistido que o atraso não resulta de divergências com Pequim.

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