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Abrir Macau

Fernando M. Ferreira, Editor-chefe

A proposta apresentada por Ho Ion Sang durante as “Duas Sessões”, em Pequim, merece apoio. A criação de um cartão de residente temporário para talentos estrangeiros e do Interior da China, com acesso a cuidados de saúde, educação dos filhos e benefícios fiscais, responde a uma lacuna real de Macau. Se a região quer diversificar a economia, tem de começar por atrair as pessoas capazes de a diversificar.

Durante anos, Macau habituou-se a falar de diversificação como quem recita um objetivo consensual, mas distante. A fórmula repete-se, os planos sucedem-se, as intenções acumulam-se… mas a mudança continua escassa. E uma das razões é simples: sem talento, não há novos setores que resistam.

A proposta tem o mérito de perceber o essencial. Um investigador, um engenheiro, um médico especializado, um gestor ou um empreendedor não escolhe um destino apenas pelo salário. Escolhe-o pelas condições de vida, pela estabilidade, pela escola para os filhos, pelo acesso à saúde, pelo tratamento fiscal e pela facilidade de circulação. É assim que hoje se disputa talento à escala internacional. E Macau, até agora, tem tido uma oferta frágil para essa competição.

Abrir a porta ao talento não é um luxo. É uma necessidade. E não deve ser visto como ameaça aos residentes locais

Saber atrair investimento e massa crítica é ainda mais importante porque, de facto, Macau pode ter um papel útil na estratégia chinesa de abertura ao exterior. A Região gosta de se apresentar como plataforma entre a China e o mundo lusófono, entre o Interior do país e os mercados internacionais; mas nenhuma plataforma funciona sem pessoas qualificadas para a operar. Nenhuma ponte cumpre a sua função se não houver quem a atravesse nos dois sentidos.

Abrir a porta ao talento não é um luxo – é uma necessidade. E não deve ser visto como ameaça aos residentes locais. Pelo contrário; uma economia mais qualificada, mais internacional e mais diversificada cria mais oportunidades, eleva padrões e reduz a dependência excessiva de um único setor. O risco para Macau não está em receber talento de fora; está em continuar à espera que a diversificação aconteça sozinha.

É evidente que um cartão de residente temporário não resolve tudo. Não substitui reformas na educação, na inovação, na articulação com Hengqin ou na simplificação administrativa. Mas seria um começo sério.

Se Macau quer realmente ajudar a China a abrir-se ao exterior, terá primeiro de mostrar que também sabe ela própria fazê-lo. Abrir a porta ao talento, hoje, é uma das formas mais concretas e urgentes de o fazer. Ho Ion Sang percebe bem isso – não pode é ser o único.

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