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“Ouvir cem vezes não é tão bom como ver uma única vez”

Mário Vicente

Dando continuidade à reflexão, se olharmos para a trajetória da cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP) nas últimas duas décadas, é impossível não reconhecer a magnitude do caminho percorrido.

Desde a fundação do Fórum em 2003, quando o fluxo comercial se situava em pouco mais de 10 mil milhões de dólares, até aos impressionantes 225 mil milhões de dólares em 2024, o crescimento foi extraordinário. Este avanço, embora dependente de múltiplos fatores, encontra no Fórum Macau um catalisador institucional e um sistema de pontes que tem sabido promover o diálogo e a proximidade entre os mercados.

Contudo, o sucesso alcançado até agora não deve ser um ponto de chegada, mas o alicerce para uma nova e necessária ambição. Se os números globais são exuberantes, a análise granular revela assimetrias que merecem reflexão.

Países insulares e economias de menor dimensão, embora registem crescimentos percentuais interessantes, mantêm volumes de trocas que representam uma fração mínima do total. Nestes casos, bem como nas outras economias com forte potencial de diversificação como Angola, Moçambique ou Guiné Equatorial, os números situam-se ainda aquém do que a plataforma poderia potenciar se a dinâmica de cooperação fosse mais capilar e presente no terreno.

Atualmente, esta dinâmica assenta essencialmente em dois pilares: vinda de delegações empresariais a Macau para grandes eventos e a realização anual do “Encontro de Empresários China e PLP”, organizado pelo IPIM e parceiros locais de forma itinerante. Embora estes encontros tenham impacto inegavelmente positivos, a sua natureza rotativa o coloca em cada país anfitrião em intervalos de vários anos.

A questão que se coloca para esta nova década é: como complementar este modelo de sucesso com resultados ainda mais tangíveis? A resposta poderá residir na transição para uma estratégia de maior persistência. Além dos grandes eventos anuais, pode a plataforma potenciar a sua presença através de missões sectoriais reduzidas, estratégicas e focadas, que ocorressem em todos os países e com maior frequência.

Participar ativamente nas feiras nacionais e sectoriais – como a FIC em Cabo Verde, a FILDA em Angola, a FACIM em Moçambique, ou outros certames, permitiria um contacto direto e contínuo. Estas missões garantem que os empresários interajam, o investidor conheça a realidade local de forma persistente, e não apenas episódica.

O equilíbrio pode estar na união entre a ciência económica e a sabedoria milenar. Se a economia moderna nos ensina que a “distância psíquica” – o desconhecimento mútuo de mercados – é a maior barreira ao comércio, o provérbio chinês “百闻不如一见” recorda-nos que “ouvir cem vezes não é tão bom como ver uma única vez”.

Esta convergência entre a práxis económica e a sabedoria milenar não é fortuita. Macau é a ponte que deve continuar a encurtar esta distância, garantindo que a cooperação chegue com a mesma eficácia ao coração de cada país que compõe esta plataforma única.

 

 

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