Num contexto internacional marcado por fragmentação geopolítica, competição estratégica e redefinição de esferas de influência, a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) é progressiva e consistentemente apresentada por Pequim como plataforma singular de ligação entre a China e o exterior, com especial incidência nos Países de Língua Portuguesa (PLP); e, mais recentemente, também no espaço hispânico.
O Presidente Xi Jinping tem várias vezes reiterado esta orientação política. Em dezembro de 2024, quando visitou Macau por ocasião do 25.º aniversário do retorno de Macau à soberania chinesa, sublinhou que a RAEM tem a missão de “aproveitar plenamente as suas vantagens únicas em termos históricos, culturais e institucionais”, sublinhando a “importante ponte de ligação entre a China e os Países de Língua Portuguesa”. Macau deve “expandir a abertura ao exterior” e “alargar continuamente o seu círculo de amigos internacionais”.

Estas declarações não são isoladas. Xi Jinping voltou a dizê-lo na última visita de Sam Hou Fai a Pequim – dezembro passado – e várias vezes reafirma que “a abertura é um traço distintivo da modernização chinesa”. Ou seja, a China “não seguirá um caminho de isolamento, mas de abertura de alto nível”.
Macau surge como instrumento concreto dessa visão, funcionando como espaço de mediação entre sistemas jurídicos, mercados e culturas distintas, num modelo que combina soberania e segurança nacional com conetividade internacional.
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Desde a criação do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, em 2003, Macau tenta consolidar a plataforma sino-lusófona. Este mecanismo destina-se a facilitar o diálogo institucional; promover fluxos de comércio e investimento; e aprofundar a cooperação financeira e empresarial entre a China e os PLP. Para Pequim, trata-se de um canal estável e previsível de relacionamento com economias emergentes e mercados estratégicos no Atlântico.
O Chefe do Executivo de Macau, Sam Hou Fai, assume claramente esta herança como um dos pilares do seu mandato. Logo na apresentação das suas primeiras Linhas de Acção Governativa, – 2024 – afirmou que a RAEM deve “desempenhar de forma mais profunda e eficaz o papel de plataforma de cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, defendendo uma abordagem “mais pragmática, mais orientada para resultados e mais integrada no desenvolvimento nacional”.

E voltou a fazê-lo em novembro de 2025, na Assembleia Legislativa, ao definir as linhas estratégicas para 2026. Desta feita, destacando a promoção do investimento através de mecanismos específicos como o fundo de cooperação e a plataforma de serviços financeiros. Para o Chefe do Executivo, a abertura externa não se resume a um vetor diplomático; é mesmo condição essencial para a diversificação económica e a sustentabilidade de longo prazo da RAEM.
Sam Hou Fai tem igualmente sublinhado a necessidade de alinhar esta vocação internacional com a estratégia nacional chinesa: “Macau deve integrar-se ativamente no desenvolvimento global do país e contribuir para a abertura de alto nível da China”, afirmou recentemente, destacando o papel da Zona de Cooperação Profunda Guangdong–Macau, em Hengqin, como plataforma complementar para serviços financeiros, jurídicos e comerciais orientados para mercados internacionais.

Particularmente revelador da evolução estratégica é o alargamento gradual do foco à Espanha e América Latina. A criação de centros de serviços e mecanismos institucionais destinados a apoiar essa cooperação reflete uma leitura geopolítica sofisticada: o espaço ibero-americano representa um dos maiores blocos linguísticos e culturais do mundo, com peso crescente na economia global e forte complementaridade com os interesses chineses. Segundo Sam Hou Fai, esta expansão “não substitui nem dilui a vocação lusófona de Macau”, antes a reforça: “Devemos utilizar bem a nossa base histórica e linguística, ao mesmo tempo que ampliamos o nosso alcance internacional”.
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Num cenário internacional marcado por incerteza e reconfiguração de alianças, Macau procura afirmar-se como espaço de estabilidade, confiança e diálogo. A visão de Xi Jinping sobre abertura, cooperação e multilateralismo, inclui uma RAEM que, embora não tendo competências constitucionais na diplomacia externa, tem para si reservado um papel complementar; quiçá discreto, mas eficaz, com base em pontes linguísticas e institucionais. A RAEM reforça a sua mais-valia como centro regional, desenvolvendo-se como plataforma global de ligação entre a China, o mundo lusófono e, cada vez mais, o universo hispânico.