Esta semana marca um ano desde que regressei a Macau, depois de cinco anos fora. Voltar é sempre um exercício entre a memória que guardamos e a realidade que encontramos. A cidade que reencontrei é, ao mesmo tempo, mais aberta e mais dependente; mais integrada e mais exposta.
A mudança mais evidente sente-se na liberdade de movimentos além-fronteira. A facilidade com que hoje se cruza a fronteira para a China continental transformou hábitos de consumo e rotinas familiares. A integração na Grande Baía deixou de ser um conceito político para passar a ser uma prática quotidiana. Em poucos minutos, acedemos a uma oferta mais vasta e, sobretudo, mais barata.
Esta liberdade é, sem dúvida, uma conquista. Amplia horizontes, reduz custos, aumenta opções. Para muitas famílias, fazer compras em Zhuhai representa uma poupança significativa num contexto de rendimentos pressionados e preços locais elevados. A mobilidade tornou-se um instrumento de racionalidade económica.
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Ao longo deste último ano, muitas lojas tradicionais, restaurantes e até supermercados fecharam. Não podemos atribuir tudo à concorrência além-fronteira; há fatores estruturais, mudanças nos padrões de consumo e a própria dimensão do mercado, mas seria ingénuo ignorar o impacto da diferença de preços. Quando atravessar a fronteira compensa financeiramente, o comércio local paga a fatura.
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Macau sempre viveu da circulação: de pessoas, de capitais, de oportunidades. A diferença é que, hoje, essa circulação é assimétrica. Continuamos altamente dependentes do exterior para gerar receita – essencialmente através do Jogo – e, simultaneamente, vemos uma parte crescente do consumo a escapar para fora.
É neste contexto que o discurso oficial sobre a diversificação económica ganha particular relevância. A narrativa mantém-se consistente: reduzir a dependência do Jogo, apostar em novas indústrias, promover inovação, integrar-se na estratégia nacional. No papel, pouco há a contestar. Na prática, as mudanças são ténues. A estrutura económica permanece essencialmente inalterada. O peso do Jogo continua dominante; as alternativas surgem como complemento e não verdadeira transformação.
Diversificar não é organizar mais eventos, nem multiplicar fóruns com novos rótulos. É criar cadeias de valor, atrair talento, fomentar tecido empresarial capaz de competir para lá do mercado interno. É garantir que a integração regional não signifique apenas consumo externo, mas também produção interna com escala.
A nova Macau que encontrei é, portanto, paradoxal. Mais conectada do que nunca, mas ainda à procura de um novo modelo. Mais livre nos movimentos, mas vulnerável nas bases económicas.

