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Mais vale prevenir

Fernando M. Ferreira*

A decisão dos Serviços de Saúde de reforçar a avaliação e o rastreio médico dos viajantes provenientes da Índia, na sequência de um novo surto do vírus Nipah, deve ser lida como um sinal de maturidade institucional. Não há, até ao momento, qualquer caso registado fora da Índia. O risco imediato é reduzido; ainda assim, há acompanhamento, comunicação e reforço preventivo nos postos fronteiriços.

Macau opta por agir antes de se confrontar com o problema. Fá-lo sem medidas drásticas, sem alarmismo, e sem perturbar a normalidade da circulação; mas também sem cair na tentação de desvalorizar um risco sanitário externo. É uma atitude que importa sublinhar: a prevenção como parte integrante da governação; não como reação de emergência.

Hoje, a inação deixa de ser politicamente defensável. A antecipação torna-se um critério de responsabilidade política

O vírus Nipah não é uma novidade. Os surtos repetem-se há décadas no sul da Ásia, com uma taxa de mortalidade elevada; e ainda sem vacina ou tratamento específico aprovados. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial de transmissão entre humanos. O que muda não é a natureza da ameaça, mas a percepção do risco e a forma como se lida com ele.

A resposta padrão a alertas sanitários foi sempre a espera: confirmações adicionais, casos locais, sinais mais claros de perigo. A pandemia alterou definitivamente esse paradigma; e, hoje, a inação deixa de ser politicamente defensável. A antecipação torna-se um critério de responsabilidade política.

Para uma região pequena, aberta, e altamente dependente de fluxos externos, esta realidade é particularmente sensível para Macau. A mobilidade constante de pessoas – turismo, trabalho, comércio – transforma qualquer foco epidemiológico num risco potencial. A vigilância sanitária não é só uma questão de saúde pública, mas também um pilar da estabilidade económica e confiança coletiva.

Reforçar rastreios, acompanhar a evolução de um surto, e emitir recomendações, não equivale a fechar fronteiras nem semear receios injustificados. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que o custo de medidas antecipadas é sempre inferior ao impacto humano, social e económico de uma resposta tardia. A memória coletiva da pandemia da Covid-19 continua demasiado presente para que esta equação seja ignorada.

Hong Kong fez exatamente o mesmo, o que ajuda a contextualizar a decisão de Macau; mas não a define. O essencial está na capacidade de avaliar riscos de forma autónoma e agir em função da sua própria realidade. Neste caso, essa capacidade foi demonstrada.

Num contexto internacional cada vez mais instável, no qual se sobrepõem crises sanitárias, económicas e geopolíticas, a preparação deixou de ser uma virtude abstrata para se tornar uma exigência concreta. Macau não ganha nada em assumir que os riscos ficam sempre do lado de fora das suas fronteiras. Ganha, isso sim, em mostrar que aprendeu com o passado recente; prefere agir cedo do que lamentar tarde. Mais vale prevenir do que remediar.

*Editor-chefe do PLATAFORMA

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