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IA chinesa enfrenta desafios apesar de arranque triunfal

Restrições norte-americanas, rentabilidade incerta e concorrência acirrada: por trás das generosas rondas de financiamento e das estrondosas entradas em bolsa, as start-ups chinesas de inteligência artificial enfrentam desafios que podem arrefecer o entusiasmo no setor

Lusa

O ecossistema chinês de IA é impulsionado desde há um ano pela irrupção do chatbot da empresa local DeepSeek, que surpreendeu ao igualar a capacidade dos concorrentes norte-americanos, como o ChatGPT, mas a um custo menor e com ‘chips’ menos potentes.

Sinal da euforia do setor: duas das principais start-ups chinesas de IA – a Zhipu AI e a MiniMax – fizeram entradas em grande na Bolsa de Valores de Hong Kong no início de janeiro. No entanto, o cofundador da Zhipu AI, Tang Jie, alertou que, apesar dos avanços chineses nos grandes modelos de IA de código aberto, a diferença face aos Estados Unidos “pode, na realidade, aumentar”.

“Os modelos de grande escala nos Estados Unidos são maioritariamente fechados. Temos de reconhecer os desafios e as lacunas a que estamos confrontados”, declarou numa recente conferência em Pequim.

A DeepSeek e os seus rivais chineses têm apostado em tecnologia gratuita e de código aberto, estratégia que atrai rapidamente utilizadores, mas gera menos receitas do que os sistemas privados e fechados. Em apenas duas semanas, as ações da Zhipu AI, que fornece chatbots a empresas chinesas, valorizou 80%, enquanto a MiniMax, que visa o mercado de consumo com ferramentas de IA multimédia, disparou 150%.

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As gigantes norte-americanas do setor, OpenAI (ChatGPT) e Anthropic (Claude), ainda não estão cotadas em bolsa.

Apesar de uma valorização que ultrapassou os 500 mil milhões de dólares (426 mil milhões de euros), a OpenAI não prevê ser rentável antes de 2029, devido aos custos colossais para construir a sua infraestrutura informática.

Da mesma forma, a Zhipu AI e a MiniMax registam prejuízos crescentes, à medida que aumentam os custos, sobretudo para o treino de novos modelos: ambas “queimam dinheiro mais rápido do que conseguem gerar fluxos de receitas sustentáveis”, apontou Poe Zhao, especialista e fundador da Hello China Tech, citado pela agência France-Presse (AFP).

Para Zhao, 2026 será um ano crítico para a IA na China, que terá de provar se as empresas “conseguem ir além do código e gerar um valor comercial real”, determinante para a sua sobrevivência.

“O desafio não é apenas tecnológico. É também o elevado custo do processamento, num contexto de sanções, e o difícil equilíbrio entre inovar num quadro regulamentar estrito”, explicou Nick Patience, da consultora Futurum, citado pela AFP.

As tensões geopolíticas podem travar a IA chinesa. Washington restringe a exportação para a China de microprocessadores avançados, nomeadamente os mais sofisticados da norte-americana Nvidia, e de equipamentos de fabrico de ‘chips’ de precisão. Ao usarem ‘chips’ produzidos na China, os programadores de IA chineses precisam de duas a quatro vezes mais capacidade de processamento para treinar os seus modelos, segundo Lian Jye Su, analista da Omdia.

Embora Pequim distribua generosos subsídios para estimular a inovação e rivalizar com os EUA, exige também aplicações concretas da IA. Em janeiro, a China anunciou a meta de implementar, até 2027, três a cinco grandes modelos de IA generalistas na indústria transformadora, prevendo ainda aumentar a capacidade de processamento disponível.

A China, que encara a IA como um motor para a economia real, “tenta construir a fábrica do mundo alimentada por IA”, resumiu Patience. Resta à China a dimensão do mercado interno, um vasto reservatório de engenheiros e custos energéticos moderados, que jogam a seu favor, segundo Tang Heiwai, da Universidade de Hong Kong.

A longo prazo, “estes fatores darão à China maior resiliência do que os EUA para se afirmar como superpotência da IA”, defendeu.

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