Início » Companhias aéreas pressionam para reduzir direitos dos passageiros na União Europeia

Companhias aéreas pressionam para reduzir direitos dos passageiros na União Europeia

Os direitos dos passageiros do transporte aéreo na União Europeia podem vir a ser enfraquecidos, na sequência da pressão exercida pelas grandes companhias aéreas junto dos governos nacionais. Em causa estão as regras relativas a indemnizações por atrasos e cancelamentos de voos, que representam um custo significativo para o setor e que estão agora no centro de um impasse político entre as instituições europeias.

De acordo com um relatório da Comissão Europeia, os passageiros deveriam receber mais de oito mil milhões de euros em indemnizações só em 2025, caso a legislação atualmente em vigor fosse integralmente cumprida. A lei, que data de 2004, tem sido frequentemente desrespeitada, em prejuízo dos consumidores, e está em processo de revisão desde 2013.

Após mais de uma década de bloqueio, o dossiê voltou à agenda em setembro do ano passado, envolvendo negociações entre a Comissão Europeia, o Conselho e o Parlamento Europeu. No entanto, as conversações entraram novamente em impasse, levando os eurodeputados a votar esta terça-feira uma posição de princípio contra a proposta do Conselho, que prevê uma redução dos direitos dos passageiros.

Entre as alterações defendidas pelo Conselho está o aumento do tempo mínimo de atraso que dá direito a indemnização, passando das atuais três horas para quatro ou seis horas, consoante a distância do voo. Está também prevista uma redução dos valores pagos, que poderiam descer dos atuais 300 a 600 euros para um intervalo entre 300 e 500 euros.

Para Sérgio Gonçalves, eurodeputado do PS e membro da Comissão dos Transportes e do Turismo, estas propostas representam “atrasos maiores e indemnizações mais baixas”, num contexto em que as companhias aéreas já recorrem frequentemente a justificações excecionais para evitar pagamentos aos passageiros.

A eurodeputada Ana Vasconcelos, da Iniciativa Liberal, reconhece que parte do problema reside na dificuldade em identificar os responsáveis pelos atrasos, apontando que nem sempre a culpa é das companhias aéreas, mas sim dos aeroportos. Ainda assim, considera difícil compreender a resistência do Conselho em criar mecanismos que responsabilizem também essas entidades.

O Parlamento Europeu defende uma abordagem mais protetora dos consumidores, propondo uma lista fechada e clara das situações que isentam as companhias do pagamento de indemnizações. Os eurodeputados querem ainda simplificar o processo de pedido de compensação, através da criação de formulários pré-preenchidos com os dados do voo e do passageiro.

Outras propostas incluem o direito a transportar gratuitamente um item pessoal e uma pequena bagagem de mão até sete quilos, bem como o fim de várias taxas adicionais, como as cobradas por correções no nome do passageiro, check-in, ou pela marcação de lugares para crianças até aos 14 anos junto dos pais e para pessoas com mobilidade reduzida.

Portugal está alinhado com a posição do Parlamento Europeu, mas países como Alemanha, França e Espanha apoiam a posição do Conselho, onde estão sediadas grandes companhias aéreas como a Lufthansa, a Air France-KLM ou o grupo Iberia/IAG.

Da votação parlamentar podem resultar dois cenários: o avanço para um processo de conciliação entre as instituições europeias, permitindo a aprovação de uma nova legislação, ou o colapso do processo legislativo, que faria regressar o dossiê ao ponto de partida.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!