No final de novembro, a Guiné-Bissau voltou a ser palco de instabilidade quando militares assumiram o controlo das instituições horas antes da divulgação dos resultados das eleições presidenciais. O presidente foi detido, o processo eleitoral suspenso e a ordem constitucional interrompida, reacendendo memórias de décadas marcadas por tentativas sucessivas de tomada de poder e mudanças abruptas de liderança. Para Mbembe, este episódio é sintomático de um problema mais amplo.
O académico alerta para um padrão crescente de desgaste institucional, alimentado por desigualdades económicas profundas, frustração social acumulada e uma crescente desconfiança nas elites políticas. Estes factores, combinados com a presença de interesses externos e disputas de influência internacional, criam um terreno fértil para intervenções militares ou rupturas políticas.
Mbembe sublinha também o papel determinante da juventude africana, hoje mais conectada, crítica e consciente das limitações dos seus sistemas políticos. A falta de oportunidades, associada à percepção de governos distantes das necessidades reais da população, torna este grupo social simultaneamente agente de mobilização e alvo de disputas políticas.
Apesar de reconhecer a dimensão estrutural da crise, o filósofo rejeita qualquer narrativa que apresente golpes de Estado como solução. Pelo contrário, defende que representam “sintomas de falência institucional”, cuja repetição pode consolidar ciclos viciosos de instabilidade difíceis de ultrapassar.
O caso da Guiné-Bissau reforça, assim, um ponto central da análise de Mbembe: sem reformas que promovam transparência, legitimidade eleitoral e confiança pública, o risco de novas rupturas permanece elevado em vários países africanos. Com eleições previstas em múltiplas nações do continente e tensões socioeconómicas em crescimento, os próximos anos serão decisivos.