A condenação de Jair Bolsonaro por crimes que vão desde “golpe de Estado” a “organização criminosa armada”, marca um ponto de viragem na política brasileira. Mais do que o destino pessoal do ex-Presidente, está em causa a liberdade democrática do maior país da América Latina. O que deveria ser um processo conduzido pelas instituições brasileiras – judiciais e políticas – está a ser instrumentalizado por pressões externas.
Washington voltou a vestir a farda do “guardião da liberdade de expressão” e que melhor forma de promover a “liberdade” que impor tarifas como forma de chantagem económica, e até insinuar uma eventual intervenção militar para “proteger direitos”.
Não é novidade. Sempre que a América Latina quis afirmar-se de forma soberana, a resposta dos Estados Unidos oscilou entre a ameaça e a intervenção direta. São vários os exemplos… No Chile, Salvador Allende tentou implementar um projeto socialista pela via democrática, mas os Estados Unidos apoiaram o golpe militar de Pinochet; já na Nicarágua, após derrubar a ditadura de Somoza, o governo sandinista teve de enfrentar os “contras” – financiados e treinados por Washington – numa guerra prolongada.
Washington voltou a vestir a farda do “guardião da liberdade de expressão” e que melhor forma de promover a “liberdade” que impor tarifas como forma de chantagem económica, e até insinuar uma eventual intervenção militar para “proteger direitos”
O Brasil, com a sua dimensão territorial, populacional e económica, não é apenas mais um país no mapa sul-americano. É peça-chave de equilíbrios regionais e globais. Por isso mesmo, a pressão norte-americana não pode ser vista como mero gesto simbólico. Ameaçar com sanções ou com a força é reabrir fantasmas de décadas de ingerência externa, que tantas vezes sufocaram processos democráticos em nome de “valores universais”.
A erosão democrática que Bolsonaro promoveu durante o seu mandato, a violência política que alimentou e o desprezo pelas instituições, é por demais evidente. Mas cabe apenas aos brasileiros – e às suas instituições – decidir como lidar com esse legado. O risco está em transformar a condenação judicial de um político num pretexto para novas formas de tutela imperial.
A democracia brasileira precisa de se fortalecer pelo debate interno, não pelo ‘diktat’ externo. O caminho é turbulento, mas deve ser trilhado em Brasília, não em Washington.
*Editor-chefe do PLATAFORMA