Início » “Como deve Macau avançar?”

“Como deve Macau avançar?”

“Como pode Macau, outrora conhecida como o ‘jardim mais belo do Extremo Oriente’, reinventar o seu contexto cultural e o seu papel global?”, é a pergunta central de Kathine Cheong, curadora do projeto local “After Oriental Garden”, no âmbito do Arte Macau, que descreve a exposição como um apelo à imaginação coletiva e uma reflexão sobre narrativas de memória e prática estética

Carol Law

Como curadora da exposição “After Oriental Garden”, patente na Fundação Oriente até 5 de outubro, Kathine Cheong diz que o tema deste ano do Arte Macau: Bienal Internacional de Arte de Macau 2025 pode parecer um simples cumprimento, mas na verdade sugere identidade, contexto e coordenadas existenciais, refletindo dinâmicas de poder e potenciais barreiras de comunicação na sociedade.

Foi isso que a inspirou a refletir sobre a relação de Macau com o seu passado e presente. Recorda que, desde a Era dos Descobrimentos, Macau tem vivido ondas de migrações humanas e botânicas. Outrora apelidada de “a cidade-jardim mais movimentada e mais bela do Extremo Oriente”, Macau foi ponto de passagem e de enraizamento de inúmeras espécies vegetais. A exposição “mergulha nos fragmentos de memória que existem como ‘fantasmas’ e que, embora passados, permanecem presentes”. Embora Macau seja hoje uma cidade pacífica, Cheong sente também uma melancolia difusa na sociedade. Espera que o público perceba tanto as forças que levam as pessoas a mover-se como a vitalidade das plantas trazidas pela migração.

Estas plantas continuam a crescer em direção ao sol, independentemente do que enfrentam; essa vitalidade é a minha esperança e a minha bênção”, afirma. “Macau guarda a memória das plantas, e as plantas guardam a memória da cidade. Ninguém sabe como será o futuro — a forma como avançamos é uma questão que transcende o tempo”, explica ao PLATAFORMA.

A exposição reúne cinco grupos de artistas de Macau e do estrangeiro, que transformam arquivos, esculturas e vídeo em criações artísticas. O coletivo “Vividly” parte do desaparecido “Lin Kai” (Ribeira do Lótus) para criar a obra “A Memory Beneath the Vanished Stream”. O grupo nota que os registos históricos do local são dispersos e que as marcas do passado foram alteradas por diferentes razões. Enquanto a vida de uma pessoa é breve, os objetos que permanecem encapsulam histórias concentradas e simbolizam o exercício de poder. Exemplifica-se com o Jardim de Luís de Camões, outrora arrendado à Companhia Britânica das Índias Orientais como viveiro de plantas e amplamente documentado, em contraste com o “Tanque das Tartarugas” transferido do Templo de Lin Kai, — refletindo a narrativa oficial da história de Macau. “É evidente que o viveiro foi considerado mais importante, por se dizer que ligava o Oriente e o Ocidente”, diz.

Existem fotografias de muitos locais de Macau, mas quando Lin Kai existia, quase não há registos. A capacidade de documentar o passado da cidade molda a forma como hoje a recordamos”. Sublinhando não haver uma resposta definitiva sobre que história importa mais, frisam: “Limitamo-nos a continuar a fazer perguntas”.

Sentimentos de pertença

Outro artista participante, Elói Scarva, apresenta “Capsula—Echo Chambers”, obra feita de espelhos e tijolos cinzentos chineses recuperados, formando caixas que contêm fragmentos de porcelana, folhas de chá, conchas de ostras e cinza de incenso de templo — elementos intimamente ligados à história cultural de Macau. Exposta junto à escadaria da entrada do espaço, a instalação produz efeitos visuais diferentes de dia e de noite. Nascido em Macau, criado no Brasil e mais tarde estudante em Portugal, Scarva explica que a inspiração surgiu da reflexão sobre o sentido de “pertencer a um lugar”: “O que é, afinal, Macau? Antes era Portugal, agora é China, mas continua a ser Macau. Tem identidades próprias, à sua maneira”, diz. “O que quero realmente compreender é como alguém se identifica como macaense, português ou brasileiro”.

Na sua perspectiva, muitas pessoas têm origens migratórias, mas o mundo atual é marcado pelo regionalismo. “Acho isso muito tóxico, no sentido de não entender que todos temos dois braços, duas pernas, o mesmo sangue. Essa ideia de regionalismo não é de todo necessária. Se nos ligarmos verdadeiramente através de linguagens como a arte, no fim essas preocupações deixam de ter importância”. E acrescenta: “O que importa é falarmos sobre isso, discutirmos: o que te faz sentir mexicano, chinês ou português?”

Sobre o tema deste ano do Arte Macau, “O que fazes aqui?”, Scarva admite que a primeira impressão foi de simplicidade e informalidade, algo que ele próprio costuma dizer. “É apenas uma frase, mas já nos dá a ideia daquilo de que estamos a falar: exatamente o que é Macau — um lugar de encontro de pessoas de todo o mundo. E espero que continue a ser assim. Não apenas Macau ou China e Europa, ou Ásia e Europa, mas também África e América do Sul”.

Scarva espera ainda que no futuro o festival convide mais artistas de África e da América do Sul. “Macau é um porto para isso. Macau é o centro dessa comunicação. Aqui as coisas fluem melhor, e já temos a infraestrutura. Acho que, aos poucos, está a melhorar. Uma das línguas oficiais aqui é o português. Porque não trazer também a maioria dos países de língua portuguesa, para mostrar como a colaboração entre a China e esses países pode ser muito mais frutífera”, questiona.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website