Miura conheceu Wynn em Taiwan, enquanto fazia o mestrado. Na altura, Wynn geria uma pequena padaria especializada em rolos de canela. Miura foi atraída pela ideia de uma marca boutique, com design cuidado e conceito definido, e quis levar algo semelhante para Macau. “Não queria que Macau tivesse apenas cadeias de lojas ou marcas em casinos. Queria uma pequena loja independente, com história e design – algo que surpreendesse as pessoas. Foi por isso que decidi colaborar com a Wynn”. Por sua vez, Wynn sempre quis expandir-se para além de Taiwan. “Queria ir para qualquer lado e arriscar”. Assim nasceu a parceria: uma queria regressar a casa, a outra explorar o mundo.
Em 2023, visitaram Macau à procura de uma loja. Para Wynn, era a primeira vez na cidade: “Naquele momento era impossível arrendar. As rendas estavam altíssimas, Macau estava vibrante, cheio de gente e turistas, com novas lojas a abrir em todo o lado”.
“Foi logo após a pandemia, Macau fervilhava de turistas, por isso estávamos a observar com cautela”, Miura acrescenta. Chegaram a encontrar uma loja disponível no Bairro Horta da Mitra, por 15.000 patacas mensais, mas “não gostámos muito, era apenas a única hipótese”. Sem encontrar o espaço certo, adiaram os planos e regressaram a Taiwan – mas a ideia não morreu.
Oito meses depois, em 2024, voltaram a Macau – e o cenário tinha mudado completamente. “Quando regressámos, vimos que os pequenos negócios estavam em dificuldade. As ruas estavam vazias e as rendas tinham caído drasticamente – sinal de que o comércio local estava em apuros. Podia-se arrendar qualquer loja, até as que tínhamos visto antes, e mais baratas”. Com a experiência de anos de negócio, Wynn percebeu que não era boa altura para abrir: “A diferença era demasiado grande e súbita”.
O caminho até Zhongshan

O encontro com o atual espaço – n.º 8 da Rua Shuiguan – foi uma descoberta inesperada, quase serena. Foi Miura quem sugeriu explorar a Grande Baía para encontrar uma alternativa. Traçaram um itinerário: de Macau para Zhuhai e Zhongshan, depois para norte, por Shunde até Guangzhou.
Wynn recorda: “fomos primeiro a Zhuhai, mas não gostei, era demasiado caótico. Então seguimos para Zhongshan, como a Miura propôs. Ficámos presos no trânsito da Minzu Road e decidimos sair e passear. As ruelas escondem sempre surpresas – e, de repente, demos de caras com a casa”.
Miura ficou maravilhada ao ver o edifício pela primeira vez. Wynn, que já tinha estagiado num atelier de arquitetura, soube de imediato que era o local certo: “Sente-se a ligação. Pensei logo: ‘Ter um negócio aqui seria incrível. Se conseguirmos restaurá-lo bem, seria um projeto extraordinário para as duas’”.
O edifício tem cerca de 140 anos. “A escritura não indica o ano de construção, mas investigámos antes de arrendar. O senhorio disse que tinha sido erguido pelo comerciante mais rico de Shiqi. Depois soubemos que muita gente conhecia o local – há 40 anos tinha sido uma clínica de ortopedia”.
Passaram os dois meses seguintes em obras e design. O senhorio já tinha reforçado a estrutura, mas todo o interior foi renovadopela dupla. Seguindo o princípio de “restaurar o antigo como era”, Miura explica que foi preservado “tudo o que pudemos. O nosso objetivo era manter o carácter original”. Wynn acrescenta que foram contratados “artesãos para remover cuidadosamente a sujidade com lixas, revelando a pintura original. Ao limpar, encontrámos mosaicos antigos no chão. Os trabalhadores disseram que só casas de há 50 ou 60 anos tinham aqueles azulejos, então decidimos preservá-los todos”.
A reabilitação também reconectou o edifício às memórias da comunidade. “Quando o espaço voltou ao estado original, as pessoas puderam vivê-lo de novo. Criaram-se muitas ligações pela memória e pela nostalgia. Alguns clientes vêm só por esse valor sentimental. Uma vez, um idoso entrou de repente e disse: ‘Já estive aqui – isto era um hospital, e o médico era meu amigo. Como ficou tão bonito?’”, explica Miura.
Comparando com Macau, os custos na Grande Baía são muito mais baixos – renda, mão-de-obra e obras são três a quatro vezes mais baratos. “Com o mesmo orçamento, em Zhongshan conseguimos fazer muito mais – mais opções de design, melhores materiais, mais mobiliário. Em Macau, o dinheiro não renderia tanto.” Ainda assim, admite que a concorrência é maior: “É preciso ter um ponto de venda forte, um produto diferenciador e um SOP (procedimento padrão) bem definido.”
O nome “HHH” vem dos três elementos em forma de H na fachada do edifício. Inspirada na cultura dinamarquesa, a designação completa HYGGE HÅB HUS (que significa “aconchego”, “esperança” e “lar” em dinamarquês) reflete a visão da dupla: “Queremos que, ao entrar nesta casa, tal como acontece com este edifício centenário, as pessoas sintam uma renovação, cheia de esperança”.
Quatro meses após a abertura, a loja já dava lucro, com encomendas de todo o país – até da longínqua Heilongjiang. Para Wynn, gerir o negócio na Grande Baía é menos stressante do que em Macau: “Se alguém tem uma grande visão, mas não a consegue concretizar em Macau ou Hong Kong por falta de orçamento, a Grande Baía é o lugar ideal para a realizar”.