Macau dispõe agora de um espaço de concertos e eventos ao ar livre com capacidade para 50.000 pessoas — uma infraestrutura que representa, sem dúvida, um salto ambicioso para o panorama cultural da cidade. No entanto, a ambição esbarra na realidade da execução.
O Instituto Cultural anunciou, no início da semana, que o recinto estará disponível para aluguer pelas empresas do setor das artes performativas nos meses de julho e agosto. A intenção é meritória: diversificar a oferta cultural, criar oportunidades para o setor criativo e aproveitar um equipamento com potencial. Mas a prática levanta sérias dúvidas. Estes são, precisamente, os meses em que Macau enfrenta o período mais instável do ponto de vista meteorológico, com chuvas intensas e uma elevada probabilidade de ocorrência de tufões.
Os dados falam por si: apesar de um investimento superior a 80 milhões de patacas, o recinto acolheu até agora apenas dois eventos com mais de 10.000 pessoas. A explicação está nas condições adversas — e não apenas meteorológicas (ver páginas 3-5). Os custos operacionais são elevados, a logística depende fortemente de coordenação com vários serviços governamentais (sem rede de apoio integrada), e os riscos de cancelamento são totalmente suportados pelos organizadores. Parte do problema está também nos horários de abertura e fecho de portas do recinto. Um espetáculo que começa às 20h, em que as portas do recinto abrem às 16h – sem qualquer tipo de animação até á hora do espetáculo – e fecham assim que termina o concerto, não permite aos comerciantes que por lá se encontram – e que muito investiram para lá estar – recuperar sequer o investimento feito.
Um único sinal de tufão pode deitar tudo a perder, sem apelo nem agravo. Num mercado onde os orçamentos já são limitados, estas condições tornam o espaço menos atrativo — especialmente para pequenas e médias empresas
Um único sinal de tufão pode pôr tudo a perder, sem apelo nem agravo. Num mercado onde os orçamentos já são limitados, estas condições tornam o espaço menos atrativo — especialmente para pequenas e médias empresas.
A abertura do recinto nos meses de maior instabilidade climática é, por isso, no mínimo desconcertante. É oferecer palco, mas sem garantir que haverá espetáculo. Ao invés de criar uma plataforma sólida para o florescimento das artes performativas, o risco é de colocar os criadores num cenário de incerteza permanente, obrigando-os a investir tempo, dinheiro e energia em projetos que podem não chegar ao público.
É também um erro estratégico. Se Macau quer afirmar-se como “Cidade das Artes Performativas”, precisa de condições logísticas e administrativas estáveis, de calendário adequado e de políticas públicas que vão além do gesto simbólico. O recinto tem potencial — mas esse potencial só será realizado se houver um planeamento coerente e um suporte concreto. Como está, mais parece um presente envenenado: disponível, mas impraticável.
* Editor-chefe do Plataforma