Fundada em 1929, no que é hoje a República Checa, a UNIMA é a mais antiga organização teatral do mundo, reunindo representações de quase 90 países ao longo dos seus 96 anos de história. Dedica-se à preservação do património imaterial da marioneta e à promoção da inovação internacional. No recente 24.º Congresso Mundial da UNIMA, realizaram-se eleições e seminários académicos. A diretora artística da ‘Rolling Puppet’, Teresa Lam, foi eleita como uma das dez conselheiras adicionais independentes, e o diretor executivo Kevin Chio integrou também a Comissão Ásia-Pacífico, promovendo a partilha e integração de recursos regionais no universo da marioneta. O grupo continua a integrar a Comissão de Festivais, contribuindo para festivais internacionais de marionetas e espetáculos de intercâmbio.
O projeto de investigação do grupo, “Estudo sobre a Relação entre Festivais de Marionetas do Oriente e do Ocidente e as Comunidades”, que recebeu apoio financeiro parcial da Fundação Macau, foi também selecionado para apresentação no congresso. Tendo estudado na República Checa, Teresa Lam explica que, embora existam muitos festivais importantes de marionetas no Oriente e no Ocidente, são pouco conhecidos, e por isso espera facilitar o intercâmbio através desta investigação.
“A maioria dos estrangeiros não sabe realmente o que os marionetistas asiáticos estão a fazer, e apenas um pequeno número de marionetistas asiáticos atua regularmente no Ocidente — nós estamos entre eles. Muitos marionetistas na China também não têm conhecimento destes festivais de marionetas”. Teresa Lam crê que a sua eleição poderá dever-se ao seu papel de ponte entre marionetistas do Oriente e do Ocidente: “Talvez os artistas de diferentes países sintam que podemos alcançar algo — pelo menos comunicar melhor. Normalmente, é difícil para os artistas asiáticos estabelecer ligação com os outros, mas eu e o Kevin podemos servir de ponte.”
“Sinto verdadeiramente que Macau é uma ponte”, acrescenta. “Poucos grupos de marionetas falam tanto chinês como inglês, como nós. Mesmo quando as pessoas conseguem comunicar através da língua, há contextos culturais que continuam a ser difíceis de transmitir — mas talvez nós tenhamos uma melhor compreensão desses contextos, por isso acho que a nossa presença é bastante interessante”.
Macau como plataforma de lançamento

O Congresso Mundial da UNIMA deste ano teve lugar em Chuncheon, na Coreia do Sul, coincidindo com o mais antigo e maior festival de marionetas da Ásia, o ‘Chuncheon Puppet Festival’. Teresa Lam explica que, nos últimos anos, a marioneta tem registado grande progresso em várias partes da Ásia: na Coreia, parques culturais apoiam o desenvolvimento do teatro de marionetas local; na China, existem teatros dedicados exclusivamente à marioneta. Além disso, festivais de marionetas ou cimeiras artísticas podem também tornar-se grandes eventos internacionais. Por exemplo, o Congresso da UNIMA na Coreia este ano, atraiu marionetistas de todo o mundo e recebeu grande reconhecimento; e o ‘Festival Mondial des Théâtres de Marionnettes’ em Charleville-Mézières, França, é outro festival artístico de renome, onde são apresentados espetáculos de marionetas de vários estilos por toda a cidade. “As artes e o turismo cultural podem funcionar assim, mesmo num lugar pequeno”, afirma Teresa. Escolas locais profissionais de marionetas impulsionam o desenvolvimento artístico: “Quanto mais profissionais houver, mais se podem desenvolver festivais — e os festivais impulsionam o turismo e a economia”.
“O governo local [francês] está muito disponível para apoiar as artes”. Para Teresa Lam, esse investimento é justificado, tendo em conta o prestígio e os resultados alcançados. “Alguns dizem que Macau é demasiado pequeno para fazer isto, mas não acho que seja verdade — há lugares que conseguem. Por isso, penso que os recursos devem ser aplicados nos sítios certos”.
A ‘Rolling Puppet’ salienta que existem outros grupos artísticos locais que criam obras com elementos de marionetas, havendo, ocasionalmente, colaboração e troca de ideias entre eles. A Casa de Portugal também apresenta espetáculos de marionetas, mas, possivelmente devido a barreiras linguísticas e dificuldades de divulgação, o público de língua chinesa raramente tem acesso a essas apresentações. “A arte pode revelar os pontos fortes de um lugar, e só quando os artistas são valorizados é que a qualidade pode melhorar”, acrescenta Teresa Lam.
O grupo manifesta abertamente o desejo de organizar um Festival Internacional de Marionetas com dimensão, permitindo ao público experienciar espetáculos únicos protagonizados por artistas locais e estrangeiros, e promovendo o intercâmbio no setor. No entanto, a concretização desse objetivo esbarra, por agora, na limitação de recursos disponíveis. Este ano, a ‘Rolling Puppet’ encerrou o seu estúdio de marionetas em Coloane, aberto desde 2021. Kevin Chio explica que o encerramento se deveu ao aumento dos compromissos internacionais e à diminuição dos apoios locais, sobretudo para projetos ligados a Coloane. Considerando os custos, o grupo optou pelo encerramento do espaço.
“Macau pode ser uma excelente plataforma de lançamento”, afirma Teresa Lam. Tomando como exemplo os espetáculos de marionetas oriundos da China continental, apesar de muitos serem grandes produções, existe também um número significativo de obras de pequena escala que precisam de um palco. Se Macau tivesse um festival deste género, funcionaria como uma plataforma.
“Macau pode convidar marionetistas do Interior da China, bem como outras pequenas companhias profissionais da Ásia, da Europa e da América, como as que participam em festivais alternativos. Depois de verem o trabalho dessas companhias, os organizadores de outros festivais de arte podem convidá-las para atuar noutros locais. As companhias grandes exigem muita gestão administrativa, enquanto as pequenas são mais fáceis de organizar. Macau é ideal para espetáculos pequenos, refinados e interessantes. Não temos de estar sempre a comparar-nos com Hong Kong ou com o Interior da China — devemos ter um estilo próprio e distintivo”, explica Teresa Lam ao PLATAFORMA.
Por fim, ao refletir sobre a sua eleição como conselheira adicional independente da UNIMA, Teresa Lam manifesta esperança de que a marioneta em Macau venha a conhecer mudanças, não apenas ao nível da popularidade, mas também da profissionalização. Tanto Teresa Lam como Kevin Chio esperam que esta eleição contribua para aumentar a visibilidade do sector: “Esperamos que, à medida que vamos aprendendo mais sobre o mundo, possamos tornar-nos uma janela, ajudando Macau e as regiões vizinhas a prestarem mais atenção a esta área.”