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Comércio local exige soluções

Dezenas de comerciantes do ZAPE e NAPE pedem ao Governo que adie o fecho dos casinos-satélite e obrigue as concessionárias a assumir responsabilidades sociais. “É uma crise sem precedentes”, desabafam, temendo o colapso do comércio local após perdas milionárias e quebra abrupta no movimento de turistas

Inês Lei

Mais de 20 lojistas reuniram-se de forma extraordinária, no passado dia 22 de junho, exigindo ao Governo uma resposta concreta ao que consideram ser uma “crise”, perante a quebra de movimento turístico gerado pelos casinos-satélite. “O movimento caiu muito. A nossa rua fica entre os casinos Fortuna e Landmark, ambos com muita afluência… 70 a 80% da nossa clientela vinha desses casinos”, explicou o gestor de uma farmácia local. “Nem rendas mais baixas vão resolver. Não excluímos encerrar”, admite um lojista ao PLATAFORMA.

Nem durante a pandemia senti uma crise tão grande. Isto é sem precedentes”, afirma um comerciante com mais de duas décadas de experiência no setor da medicina tradicional. O impacto, alertam, não se limita ao comércio tradicional. Muitos lojistas assinaram contratos de arrendamento de longo prazo após 2022, confiantes de que os casinos-satélite permaneceriam. “Agora, de repente, o Governo exige que todos encerrem até 2025. Ninguém esperava”, disse o Sr. Wang, agente imobiliário, que estima que os investimentos em renovações — sobretudo em restauração — variem entre um e cinco milhões de patacas: “Com o encerramento, esse dinheiro não será recuperado — as perdas são enormes”.

As estatísticas ignoram restaurantes, farmácias, agências, lojas de ginseng — todas dependentes dos casinos (…) só nesta zona, e sem contar o impacto nas cadeias de fornecimento e nas famílias, estamos a falar de mais de 10 mil pessoas afetadas

Sr. Wang, agente imobiliário

Segundo o Secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip, serão afetados cerca de 320 estabelecimentos, metade diretamente ligados ao Jogo. Mas comerciantes e representantes do setor contestam esses números: “As estatísticas ignoram restaurantes, farmácias, agências, lojas de ginseng — todas dependentes dos casinos”, alerta Wang. “Só nesta zona, e sem contar o impacto nas cadeias de fornecimento e nas famílias, estamos a falar de mais de 10 mil pessoas afetadas”.

Mais de 70 comerciantes assinaram uma petição, apelando ao Governo para suspender o encerramento dos casinos-satélite e instando as concessionárias a assumirem a sua responsabilidade social.

Opções políticas

O apelo à manutenção dos casinos-satélite, neste contexto, é apresentado como uma questão de responsabilidade social. “Quando obtiveram licenças, prometeram responsabilidade social. Agora ignoram comerciantes e funcionários”, acusam vários participantes da reunião de 22 de junho. Wang reforça: “Não se trata apenas de apoiar casinos ou operadores — são mais de 320 lojas e milhares de trabalhadores”. Para ele, é tempo de o Governo negociar diretamente com a STDM: “Se a STDM não quiser continuar, que se negocie com as outras cinco operadoras. Terão capacidade e vontade de assumir esses casinos?”

O deputado Ron Lam também já levantou a questão: “Havia formas de os manter, mas o Governo não vê isso como necessário. Acredita que instalar dispositivos de IP para dinamizar a economia substitui os casinos-satélite. Discordo. Devíamos consolidar as bases antes de diversificar. Esta política não responde à realidade económica nem social”, explica ao PLATAFORMA.

A crítica à “ativação de IP” — aposta governamental para atrair visitantes com experiências visuais interativas, que envolvem marcas específicas — tem sido recorrente. “É demasiado lento e ineficaz”, afirma Wang. “Basta perguntar aos comerciantes do Bairro Norte sobre os resultados do IP”.

Os nossos clientes são de alto poder de compra da China continental — não vêm por causa de bonecos ou fotos. Não são turistas comuns

Sra. Yan, comerciante de ginseng e ninhos de andorinha

A Sra. Yan, que desde 2005 vende ginseng e ninhos de andorinha, considera a medida um “mero formalismo”. “Os nossos clientes são de alto poder de compra da China continental — não vêm por causa de bonecos ou fotos. Não são turistas comuns”. Já o comerciante Sr. Ye, com mais de 30 anos no mesmo local, é direto: “O sucesso desta área vem do mercado, não do Governo. Podem embelezar a rua, mas sem o casino, nada resulta”.

Mesmo com um contexto económico adverso, alguns operadores ainda mostravam vontade de manter os casinos. Uma fonte do setor do Jogo revelou ao PLATAFORMA que foram feitas tentativas de negociação com a STDM em fevereiro e maio. Em junho, receberam a ordem de fecho. “Ficaram surpreendidos”, diz.

Só estes três casinos-satélite– Landmark, Fortuna e L’Arc – geraram, em maio, receitas acima dos 550 milhões de patacas. “Os impostos pagos ao Governo superaram os 200 milhões — o suficiente para pagar o programa de apoio financeiro de Macau”, detalha a mesma fonte.

Encerrar estes casinos não só reduz a receita do Governo, como destrói o comércio local. Não será possível manter alguns, que são rentáveis, em nome da responsabilidade social e da estabilidade económica”, conclui um comerciante.

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