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“Elefante branco” em Hengqin

Com um investimento total próximo dos 20 mil milhões de patacas, a Cidade Universitária de Educação Internacional de Macau e Hengqin é uma ambição estratégica para o Governo. No entanto, as opiniões sobre o projeto dividem-se: Au Kam San, ex-deputado, tem dúvidas quanto aos benefícios reais para o mercado de trabalho local ou para as finanças públicas, enquanto Samuel Tong, presidente do Instituto de Gestão de Macau, e Lou Shenghua, professor da Universidade Politécnica de Macau (UPM), sublinha que o projeto reforçará o ensino superior e a capacidade de investigação académica

Viviana Chan

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, propôs, nas suas primeiras Linhas de Acção Governativa, quatro grandes projetos de construção – Bairro internacional turístico e cultural integrado, ‘Hub’ de Transporte Aéreo Internacional, Cidade Universitária de Educação Internacional de Macau e Hengqin, Parque industrial de investigação e desenvolvimento das ciências e tecnologias -, entre os quais se destaca a Cidade Universitária, com um investimento planeado de 20 mil milhões de patacas, um dos maiores investimentos de Macau em Hengqin.

No entanto, Au Kam San não se mostra otimista quanto ao projeto, embora seja uma tarefa atribuída pelo Governo Central no âmbito da participação de Macau no desenvolvimento de Hengqin e da sua integração no desenvolvimento nacional: “Não vejo quaisquer benefícios concretos para Macau”, diz ao PLATAFORMA.

Samuel Tong, presidente do Instituto de Gestão de Macau, tem uma visão positiva sobre o projeto e considera que os “quatro grandes” projetos propostos pelo Chefe do Executivo demonstram a determinação de Macau em alinhar-se ativamente com as estratégias de desenvolvimento nacional. Face à atual conjuntura de perturbações nas cadeias de abastecimento globais, desacoplamento tecnológico e oportunidades de estudo no estrangeiro limitadas, defende que “a China precisa, com urgência, de desenvolver capacidade de inovação local e sistemas próprios de formação de talentos. Macau, através da Grande Baía e de Hengqin, pode simultaneamente desenvolver-se e servir as necessidades do país, promovendo a diversificação económica”.

Quer em termos de emprego, quer em termos de receitas fiscais, o impacto em Macau será provavelmente limitado. A maioria dos novos postos poderá ser ocupada por cidadãos do interior da China, com pouco impacto positivo para os residentes locais

Au Kam San, ex-deputado

Apesar do rápido desenvolvimento do ensino superior em Macau desde a transferência de soberania, a limitação de terrenos torna difícil expandir o setor, diz Lou Shenghua, professor da Universidade Politécnica de Macau. A cooperação regional para criar uma cidade universitária em Hengqin é, por isso, “um passo necessário para proporcionar espaço ao crescimento contínuo do ensino superior em Macau.” Ao mesmo tempo, a localização da cidade universitária em Hengqin ajudará a promover o desenvolvimento educacional e tecnológico da zona, cumprindo os objetivos da Zona de Cooperação — uma decisão descrita como “matar dois coelhos de uma cajadada só”.

Benefícios económicos e académicos

O antigo deputado considera que, mesmo que Hengqin consiga diversificar a sua economia, esse será um sucesso próprio da região, com pouca relação com a transformação económica de Macau: “Alguns residentes de Macau poderão ir trabalhar, fazer negócios ou viver em Hengqin, mas estes casos individuais não têm impacto real no desenvolvimento económico de Macau”, explica.

Quanto aos benefícios esperados da cidade universitária, Au Kam San afirma que “o impacto em Macau, quer ao nível do emprego, quer ao nível da receita fiscal, será provavelmente limitado. A maioria dos novos postos poderá ser ocupada por cidadãos do interior da China, com pouco impacto positivo para os residentes locais.”

A construção da cidade universitária é um investimento estratégico necessário. Macau é pequeno e pouco populoso, e depender apenas dos seus próprios recursos torna difícil atrair talento e capital. Ao ligar-se a Hengqin e à Grande Baía, estamos a ‘construir o ninho para atrair a fénix’ — contando uma história atrativa que dá razões às pessoas para ficar

Samuel Tong, presidente do Instituto de Gestão de Macau

Macau já conta com várias universidades, com um número suficiente de estudantes — muitos dos quais não são residentes locais — o que demonstra que a procura por ensino superior já está, essencialmente, satisfeita. “Se o principal público-alvo forem estudantes do interior da China, então, em termos de alocação de recursos de Macau, para além de cumprir uma missão imposta pelo Governo Central, é difícil ver qualquer benefício concreto para Macau”, explica.

No entanto, para Lou Shenghua há uma diferença fundamental entre este plano e o novo campus da Universidade de Macau já em construção na Zona de Cooperação. O facto de a cidade universitária envolver múltiplos intervenientes — não só a Universidade de Macau, mas também outras instituições públicas e privadas de ensino superior de Macau.

Quanto ao financiamento, além do investimento público, será também mobilizado capital privado e até financiamento bancário, diversificando as fontes de apoio. A variedade de áreas académicas será mais ampla, com diferentes instituições a enriquecerem a oferta da cidade universitária. As infraestruturas públicas — como instalações desportivas e bibliotecas — serão partilhadas de forma eficiente, e está previsto um sistema inovador de reconhecimento de créditos entre instituições.

Uma vez concluída e com alunos inscritos, o académico acredita que a cidade universitária tenha um impacto significativo no desenvolvimento de Hengqin. O aumento substancial da população estudantil ajudará a resolver o problema atual da fraca densidade populacional de Hengqin e a dinamizar o fluxo de pessoas. Professores e estudantes, enquanto grupos de consumo relevantes, estimularão o consumo local, reduzirão a taxa de imóveis vazios, diversificarão a oferta comercial e enriquecerão o ambiente cultural e social de Hengqin.

Investimento estratégico

Tong vê a cidade universitária como parte indispensável dos “quatro grandes” projetos, comparando-a a Silicon Valley nos Estados Unidos e ao Parque Científico de Hsinchu, em Taiwan — ambos polos de inovação ancorados em universidades de topo que integram investigação e indústria. Sublinha também que “a cidade universitária poderá fomentar a colaboração entre academia, indústria e investigação, funcionando como plataforma para intercâmbio internacional de talentos e cooperação científica”.

A construção da cidade universitária responde não só às necessidades de desenvolvimento do ensino superior em Macau, como também se enquadra no planeamento geral de Hengqin

Lou Shenghua, professor da Universidade Politécnica de Macau

Destaca ainda a complementaridade entre os quatro projetos: a cidade universitária fornecerá talento para a investigação e desenvolvimento; o polo de aviação reforçará a logística e os transportes; e a zona turística/cultural atrairá talentos internacionais e as suas famílias, oferecendo um ambiente de vida de alta qualidade. “É um puzzle completo”, afirma, “com todas as peças a encaixar-se para apoiar a ambição de Macau de se tornar um centro de talentos de alto nível”, explica Tong.

Relativamente às preocupações sobre o nível de investimento, considera tratar-se de um investimento estratégico necessário: “Macau é pequeno e pouco populoso; depender exclusivamente dos seus próprios recursos torna difícil atrair talento e capital suficientes. Ao ligarmo-nos a Hengqin e à Grande Baía, estamos a ‘construir o ninho para atrair a fénix’, contando uma história atrativa que dá às pessoas razões para ficar.”

Au Kam San, por seu lado, manifesta preocupação com as futuras pressões financeiras, lembrando que, apesar das atuais reservas financeiras de Macau, estes investimentos “não são pontuais”. A cidade universitária poderá acabar por se tornar num novo “elefante branco”, à semelhança do metro ligeiro, exigindo subsídios a longo prazo. Com o crescimento das receitas do jogo estagnado, questiona se o Governo conseguirá manter a sua política de “viver dentro das suas possibilidades”.

Para Lou Shenghua, “a construção da cidade universitária responde não só às necessidades de desenvolvimento do ensino superior em Macau, como também se enquadra no planeamento geral de Hengqin”, sublinhando que “as necessidades partilhadas são a base fundamental desta decisão”. Mais reconheceu que a visita de Xia Baolong a Macau “acelerou o projeto”, mas salientou que as discussões internas já estavam em curso. Sobre se haverá mais investimentos semelhantes no futuro, Lou Shenghua explica que “dependerá das necessidades reais”, frisando que, se não houver uma necessidade genuína e o investimento for apenas para cumprir uma tarefa, “acredito que a sociedade não o apoiará”.
O novo campus da Universidade de Macau na Zona de Cooperação iniciou obras em dezembro de 2024 e as infraestruturas ainda estão a ser desenvolvidas, com redes viárias em construção e equipamentos residenciais por completar.

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