O orçamento da RAEM para 2025 vaticina as fragilidades sobre as quais já escrevemos inúmeras vezes. A despesa pública caminha no sentido de ultrapassar as receitas projetadas com o Jogo, e tudo indica que as obrigações sociais crescentes, sobretudo no apoio à população idosa, vão acentuar a pressão sobre o erário público nos anos que se seguem. A equação é simples: mais apoios, num orçamento de contenção, exigem cortes e maior eficiência administrativa. A distribuição de cheques pecuniários é disso exemplo. Representam uma despesa grande, e são estruturalmente inconsequentes – não tratam da disparidade socioeconómica, e não é líquido que estimulem o consumo.
Porém, o verdadeiro problema de Macau é que se tornou demasiado cara para o novo mercado-alvo, que passa pelo turismo de massas oriundo do Continente. É tão cara que os próprios residentes passaram a fazer compras, comer e entreter-se do outro lado da fronteira. Nada disso se resolve com subsídios ou com financiamento; nesse modelo, só com um completo descontrolo orçamental passaríamos a ser competitivos e isso está fora de questão.
A cidade tornou-se hostil para os jovens que pensam em ter filhos e comprar casa, para os idosos que dependem de reformas modestas, para os negócios que enfrentam rendas proibitivas e concorrência desigual a poucos quilómetros de distância, e até mesmo para os turistas, que gastam cada vez menos. Perante isto, só há mesmo uma solução: desencarecer Macau. Fruto do modelo económico estabelecido – setores monopolizados -, dos salários praticados, da legislação arcaica, não será uma transição nada fácil. É impossível equiparar com Zhuhai, mas é possível aproximarmo-nos dessa realidade se formos corajosos e eficientes.
Preocupa-me o seguinte: parece que parte da solução não passa por mudar Macau, mas sim mudar as pessoas e empresas para Hengqin. A política de incentivos da RAEM, na prática, está a empurrar os residentes para fora. É lá que o Governo projeta os apoios reais, os espaços para instalar empresas com menor custo, os salários subsidiados para os jovens. A tão proclamada diversificação económica não será feita em Macau – vai ser feita do outro lado, pelas próprias palavras de Sam Hou Fai. E, de facto, começa a fazer cada vez mais sentido viver e trabalhar na Ilha da Montanha.
Como aconteceu com a liberalização do Jogo, vai surgir uma rede de negócios e serviços complementares à volta dos novos setores, dos polos industriais e universitários, que em Macau já não têm espaço nem meios para sobreviver: restaurantes, cafés, espaços de lazer e entretenimento. Resolve-se o problema de muitas PME…
Longe de ser o cenário ideal, é aquele que parece estar a ser trabalhado com maior afinco. O objetivo das autoridades centrais é trazer cerca de 120 mil residentes locais para a Zona de Cooperação até 2035, que equivale a metade da população ativa de Macau. Mas nenhuma cidade sobrevive a um êxodo desta dimensão sem ter de redefinir a sua identidade. A questão é: consegue também fazê-lo em dez anos? É inteligente redesenhar Macau como um mero centro administrativo e turístico? Alerto para o seguinte: a Zona de Cooperação, como o nome indica, trata-se do desenvolvimento de uma rede de valor partilhada com Guangdong, num quadro legal onde a província vizinha também defende os seus interesses. Há que pensar um pouco além das mais-valias fiscais que Hengqin pode representar e convém fazê-lo, no mínimo, à velocidade a que se incentiva talentos e negócios a mudarem-se para o lado de lá.
*Diretor Executivo do Plataforma