“O Governo tem discutido o ‘1+4’, e a ‘Big Health’ é uma grande parte do plano de diversificação”, lembra Glenn McCartney, professor da Universidade de Macau e um dos organizadores do primeiro simpósio de turismo médico Macau-Hengqin, que decorreu na passada semana. “Mas para que essa estratégia funcione, precisamos de indicadores claros, metas específicas e um plano de ação”, afirmou ao PLATAFORMA.
“Os resorts estão prontos — alguns até tentaram desenvolver projetos de turismo médico há anos”, diz Niall Murray, especialista em hotelaria e hospitalidade, lembrando a parceria entre a Malo Clinic e a Sands China, que terminou “devido à prática de procriação medicamente assistida, tráfico e contrabando de medicamentos de oncologia, falta de condições de higiene e segurança para a prestação de cuidados de saúde”, de acordo com os Serviços de Saúde. “A infraestrutura legal e institucional não existe. Não há incentivos fiscais, regimes especiais de vistos, nem estrutura clara para atrair instituições médicas de renome. Sem isso, continuaremos num ciclo de pára-arranca.”
Integrar medicina tradicional chinesa em spas, centros de bem-estar e experiências culturais pode criar uma proposta única (…) Mas isso só será possível com uma liderança clara do Governo, definindo metas,
indicadores e um plano de ação
Glenn McCartney, professor da Universidade de Macau
Murray exemplica com Singapura, onde o Governo atua com mão firme, estabelecendo diretrizes específicas para investimentos não ligados ao jogo e incentivando parcerias público-privadas. Em Macau, os operadores de jogo são obrigados a investir 95% dos seus compromissos financeiros em setores não relacionados com o jogo, mas falta clareza sobre onde e como esses investimentos devem ser aplicados.
“Não me parece razoável pedir-lhes que se concentrem em alta tecnologia ou finanças. É razoável que invistam em áreas como turismo médico, cultura e desporto. Mas o Governo precisa de apresentar um plano, criar zonas específicas com políticas ajustadas, e facilitar a entrada de profissionais qualificados”, defende.
Para McCartney, o verdadeiro diferencial competitivo de Macau está na MTC, e o seu sucesso depende de integração com a hospitalidade. “Temos alguns dos hotéis mais luxuosos do mundo. Integrar medicina tradicional chinesa em spas, centros de bem-estar e experiências culturais pode criar uma proposta única (…) Mas isso só será possível com uma liderança clara do Governo, definindo metas, indicadores e um plano de ação”, explica ao nosso jornal.
Estamos a formar profissionais locais altamente qualificados. O Governo tem apoiado essa estrutura, mas ainda falta uma ponte entre a formação e o setor do turismo
Gabriel Li, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau
Por seu lado, Gabriel Li, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST), destaca que a instituição é a única no território a oferecer programas de licenciatura e pós-graduação completos em MTC, com cursos também em inglês — o que permite atrair estudantes estrangeiros. “Estamos a formar profissionais locais altamente qualificados. O Governo tem apoiado essa estrutura, mas ainda falta uma ponte entre a formação e o setor do turismo”, diz ao PLATAFORMA.
Li também destaca a necessidade de combater perceções negativas sobre a segurança e eficácia da MTC. “Muitos ainda acreditam que os produtos são perigosos ou pouco eficazes. Precisamos de campanhas educativas, certificações internacionais e colaboração com a Organização Mundial de Saúde. Há avanços, como o uso de ervas sintéticas e o abandono de ingredientes de origem animal, mas o público ainda não tem essa informação.”
É razoável que os resorts invistam em áreas como turismo médico, cultura e desporto. Mas o Governo precisa de apresentar um plano, criar zonas específicas com políticas ajustadas, e facilitar a entrada de profissionais qualificados
Niall Murray, especialista em hotelaria e hospitalidade
A integração da MTC com o turismo pode ser impulsionada pela tecnologia: “Com o apoio da inteligência artificial, seria possível diagnosticar sintomas e direcionar turistas a estabelecimentos locais para tratamentos personalizados — com confiança, linguagem acessível e suporte institucional”, afirma Li.
Apesar da Região já ter presenciado tentativas frustradas, os especialistas acreditam que Macau ainda pode liderar nesta área — se agir com estratégia. Todos convergem na necessidade de uma task force interdepartamental, unindo os setores do turismo, saúde, educação e investimento, com o objetivo de criar um verdadeiro ecossistema sustentável de turismo médico.