– De que forma o Nobel ganho em 1991, pelas descobertas sobre a função dos canais iônicos nas células, mudou a sua vida e carreira?
Erwin Neher – Mudou a minha vida por algum tempo, pois a publicidade do Prémio Nobel leva a uma infinidade de pedidos de aconselhamento, ou apoio, em diversas atividades. É preciso aprender a lidar com essa nova situação para evitar a heteronomia. Acho que consegui voltar a seguir minha a própria agenda como pesquisador após 1 ou 2 anos. Claro que foi mais fácil conseguir fundos, mas isso não era tão importante, uma vez que no Instituto Max Planck temos financiamento institucional a um nível suficiente para um grupo de pesquisa do tamanho que considero mais adequado.
– Após 1991, o foco da sua investigação alterou-se?
E.N. – Em 1991, eu já tinha mudado da pesquisa sobre canais iônicos para iões de cálcio, que regulam processos secretórios; incluindo a libertação de neurotransmissores.
Seria tolo um cientista afastar-se da comunidade científica e desconsiderar o que se pode aprender ao interagir com colegas de todo o mundo
– Como acabou por vir para Macau? As suas expectativas, em termos de vida, e de pesquisa, foram cumpridas nesta cidade?
E.N. – Fui convidado pelo professor Liu Liang – diretor do Laboratório de Referência do Estado para Investigação de Qualidade em Medicina Chinesa – e recebi muito apoio para estabelecer o grupo de pesquisa. No entanto, achei bastante difícil atrair investigadores jovens de excelência vindos do exterior.

– Qual é a missão principal do laboratório que dirige; e que investigações foram realizadas desde 2016?
E.N. – A missão do meu laboratório é entender melhor o modo de ação de compostos derivados da medicina tradicional chinesa. Estou convencido de que há ervas que contêm uma multiplicidade de substâncias que perturbam os mecanismos de sinalização de seus inimigos, como herbívoros e fungos. Nas últimas décadas, através da biologia molecular e da biofísica, aprendemos muito sobre sinais biológicos; e descobrimos que tais sinais são bastante semelhantes em muitas espécies, incluindo nos humanos. Assim, há uma boa chance de que os compostos encontrados em ervas também atuem em sinais no corpo humano, podendo ser usados como compostos principais para novos medicamentos.
– Que papel desempenha a colaboração internacional na sua pesquisa? E como ela pode beneficiar a comunidade científica de Macau?
E.N. – Vejo as colaborações internacionais como uma necessidade essencial para investigação de ponta. A nossa missão é descobrir as leis da natureza, que são as mesmas em Macau ou no resto do mundo. Seria tolo um cientista afastar-se da comunidade científica e desconsiderar o que se pode aprender ao interagir com colegas de todo o mundo.
Muitos dos benefícios que os cidadãos de Macau desfrutam tornam-se disponíveis para os recém-chegados apenas após alguns anos de residência
– Recentemente, há um esforço contínuo para integrar ainda mais a pesquisa académica na Grande Baía. O seu laboratório segue também essa estratégia?
E.N. – Não diria que meu laboratório está focado em integrar a pesquisa académica na Grande Baía. No entanto, o facto de eu também dirigir um laboratório em Shenzhen proporciona boas oportunidades para aumentar os contatos entre o SIAT – em Shenzhen – e Macau. Na verdade, já tivemos uma conferência que reuniu pesquisadores de ambos os laboratórios, e de Hong Kong. Isso resultou em várias colaborações que estão já em andamento.
– Como o seu laboratório procurar nutrir jovens cientistas locais e promover a educação científica em Macau?
E.N. – Procuro estabelecer condições em que jovens cientistas sejam muito independentes e possam seguir as suas próprias ideias. Além disso, tento dar conselhos e aumentar a interação entre grupos de pesquisa por meio de reuniões regulares de laboratório, principalmente por Zoom.
– Recentemente, o Governo de Macau criou um programa para atrair talentos profissionais em várias áreas, incluindo laureados com o Nobel. Isso permite ao seu laboratório trazer cientistas de topo para Macau?
E.N. – O meu laboratório é, de facto, financiado por esse programa de talentos. Isso certamente ajuda a atrair cientistas de excelência para Macau. No entanto, as condições iniciais para jovens cientistas [de fora] ainda são difíceis, uma vez que muitos dos benefícios que os cidadãos de Macau desfrutam só se tornam disponíveis para os recém-chegados após alguns anos de residência.
– Qual é o significado de receber o Prémio de Amizade? E como é que esse reconhecimento influencia o seu trabalho, e colaboração com instituições chinesas?
E.N. – Receber o Prémio de Amizade é uma grande honra. Isso definitivamente proporciona oportunidades para mais colaborações. Aos 80 anos, as possibilidades de iniciar novos projetos são bastante limitadas; no entanto, o prémio é encorajador, tanto para mim como para os meus colaboradores.