Sam Hou Fai é o primeiro Chefe do Executivo nascido no Continente; mas é também o primeiro bilingue – chinês e português -; o primeiro alto magistrado; e o primeiro sem relação com o Jogo, a especulação imobiliária, ou negócios rentistas com o Estado. Tem um discurso nacionalista – natural na circunstância – e responsabilidades na proibição de manifestações e de candidaturas políticas; contudo, mostra ter consciência social e visão estratégica. Os seus primeiros discursos vão da recuperação dos bairros antigos e do apoio às pequenas e médias empresas até aos investimentos na Grande Baía e na plataforma lusófona. No fundo, recentra os eixos da harmonia social e da diversificação económica. O novo ciclo começa com o tradicional cheque em branco: seis meses a um ano para colar a prática ao discurso. Mas há outro elefante escondido na sala.
Em 1995, quando Francisco Gonçalves Pereira publicou “Portugal, a China e a Questão de Macau”, descreveu com admirável presciência o papel que Pequim desempenharia, depois 1999, no lugar antes ocupado por Lisboa. O elefante na sala era então perceber se essa rotação de 180 graus no eixo do poder seria feita à luz de uma visão liberal, autonómica e internacionalista, como tradicionalmente se interpreta o pensamento de Deng Xiaoping; ou se, pelo contrário, surgiriam imperativos ideológicos nacionalistas, a subalternização da Lei Básica à Constituição chinesa e a subjugação do Palácio da Praia Grande ao Palácio do Povo, que é hoje como o Ocidente interpreta o pensamento de Xi Jinping. Ao fim de 25 anos de regresso à Mãe Pátria, é disto que se fala quando se menciona a “verdadeira transição política”. E este novo ciclo será muito marcado por isso.
O pensamento ocidental tem sido muito redutor neste debate. Primeiro, porque seria totalmente descabido esperar em Macau movimentos políticos não controlados por Pequim. Depois, a integração regional; ou seja, a relação de pertença à Grande Baía, é um movimento óbvio – e necessário – para escapar às leis do Jogo. Finalmente, não há dinâmica económica, social e política em Macau que não conjugue dois pilares: a dinâmica da própria China, o que pensa o Partido Comunista das regiões autónomas; e a própria maturidade política em Macau, que tem de ser capacidade de negociar o seu próprio destino, antes demais com Pequim e, só depois, com a Grande Baía e a Lusofonia. Goste-se, ou não, pensar a realidade fingindo que ela não existe é um exercício fútil e inconsequente. E não se pode pedir a Sam Hou Fai aquilo que não lhe compete, nem cabe no perfil de quem quer que fosse o escolhido.
Recentemente, Xi Jinping voltou a citar Deng Xiaoping, dando um sinal claro de que o status quo chinês enfrenta o seu próprio ciclo de reflexão. Ou seja, a China terá de decidir se prefere liderar um bloco antiamericano, ou negociações que reabram o comércio global e o respeito pela China nas instâncias internacionais. E é muito por aí que Macau encontrará novas formas de afirmação. Num contexto, ou no outro, será sempre uma plataforma de contacto internacional e uma das portas para a Grande Baía. Deve por isso preparar-se para esse papel, seja qual for a opção de Pequim.
Neste contexto, vale a pena frisar a mensagem de um alto quadro chinês, em conversa informal com o PLATAFORMA: “A China tem de garantir em Macau as premissas do Primeiro Sistema, incluindo a segurança nacional; compete ao poder local – e não a Pequim – explorar as vantagens do Segundo” Cabe por isso a Sam Hou Fai cumprir o mais alto grau de autonomia que serve a Macau e seja aceite em Pequim. É esse o verdadeiro eixo de crescimento e afirmação de Macau, na Grande Baía, em toda a China, e no resto do mundo.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA