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“Acelerar” os investimentos para chegar à diversificação

Na apresentação do seu programa político, o candidato único a eleições para Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, mencionou que era necessário “acelerar” a diversificação económica, trazendo a público ideias concretas para esse efeito. Mais investimento, novos fundos, e mais análises do progresso da diversificação. Economistas explicam como a teoria pode ser posta em prática

Guilherme Rego

Sam Hou Fai apresentou o seu programa político no último sábado, numa plateia composta por membros da Comissão Eleitoral e jornalistas. Abordou várias áreas e apontou algumas das mudanças que quer trazer “se for eleito”, nomeadamente a reforma da Administração Pública, modernização das leis, aperfeiçoamento do regime de segurança social, formação de mais quadros bilingues, proteção dos direitos e interesses dos luso-descendentes, entre outros.

Mas é na área da diversificação económica onde “talvez haja a maior mudança em termos de políticas”, aponta o cientista político Sonny Lo, ressalvando que o candidato “representa continuidade, mais do que mudança”. E sim, continua a haver um alinhamento total com o plano quinquenal em vigor, até 2028, prometendo foco na construção de “um centro, uma plataforma, uma base”, e no modelo “1+4”. Porém, quer trazer consigo novas ideias, sendo claro relativamente aos seus planos para “acelerar” a diversificação económica. Segundo a análise do candidato, foram investidos dois mil milhões de patacas na diversificação, havendo ainda necessidade de “aumentar os montantes disponíveis para as empresas”. Nesse sentido, prometeu estudar a criação de novos fundos controlados pelo Governo para apoiar a diversificação económica.. “As políticas atuais não têm gerado os resultados desejados, tornando essencial que a Administração proponha medidas que possam competir a nível global”, começa por dizer José Alves, diretor da Faculdade de Negócios da Universidade da Cidade de Macau.

Talvez haja a maior mudança em termos de políticas [para a economia]”

Sonny Lo, cientista político

“A diversificação económica de Macau não requer apenas novos investimentos, mas também a realocação de fundos existentes. Este discurso (…) sugere que serão desenvolvidos novos projetos, trazendo, possivelmente, uma renovação na visão e no futuro da Região. Atualmente, a economia de Macau assenta num paradigma do século passado, centrado em serviços de valor acrescentado médio, como o turismo. É já evidente que este modelo atingiu os seus limites”, acrescenta.

Investimento público

Henry Lei, da Faculdade de Finanças e Economia Empresarial da Universidade de Macau, acredita que Sam Hou Fai quer criar fundos setoriais, aumentando a especialização. “É possível estabelecer um fundo de desenvolvimento para as finanças modernas, com objetivos estabelecidos e recursos reservados” para esse efeito. “Estes novos fundos podem ser geridos por especialistas nessas áreas, definindo metas mais realistas e e eficazes, dada a especialização”, explica.

As políticas atuais não têm gerado os resultados desejados, tornando essencial que a Administração proponha medidas que possam competir a nível global”

José Alves, diretor da Faculdade de Negócios da Universidade da Cidade de Macau

Acontece que esta “aceleração”, obriga a maiores investimentos por parte do Governo, algo que Henry Lei assegura que pode ser feito. “A economia de Macau está a recuperar da pandemia e o PIB estabilizou com uma tendência crescente. Torna possível uma estratégia proativa e é por isso que Sam Hou Fai pretende fazer um maior investimento para acelerar o desenvolvimento das novas indústrias, o que é que muito popular numa fase inicial”. Esse apoio “pode ajudar a atrair investimento estrangeiro direto para as novas indústrias, contribuindo para acelerar o progresso da diversificação económica de Macau”, assume, defendendo a necessidade de “maior envolvimento e mesmo um maior empenho do Governo da RAEM, no sentido de utilizar as receitas fiscais cobradas ao Jogo para investir e desenvolver as novas indústrias”, conclui.

Hajam talentos

Sam Hou Fai também destacou como uma das prioridades a atração de talentos de alta qualidade. “A diversidade económica está também ligada à diversidade do capital humano”, diz José Alves, mencionando as vantagens de Hong Kong, Shenzhen, Singapura e Dubai em termos de políticas de vistos, isenções fiscais, entre outros. “Demonstram a importância de políticas ambiciosas e específicas para a atração de profissionais e negócios”, destaca, identificando como ponto de partida “relativamente fácil” a “atração de empresas em setores relevantes e de profissionais qualificados dos Países de Língua Portuguesa”. Lembrar que Sam Hou Fai reafirmou o interesse na manutenção da cultura portuguesa. Foi aliás uma das surpresas para Sonny Lo, confessando que gostaria de saber o que essa afirmação significará na composição do Conselho Executivo.

Apesar de haver um interesse na novas indústrias, José Alves defende que “a diversificação pode e deve” começar “pela revitalização e modernização de setores já existentes”. Isso inclui o comércio tradicional, “que pode ser relocalizado em espaços modernos”, as zonas costeiras, “que devem ser desenvolvidas para lazer e turismo”, e a “preservação rigorosa da paisagem arquitetónica e do património histórico”. Por outro lado, “devemos promover o consumo cultural e artístico, bem como melhorar a saúde e a educação”.

Estes novos fundos podem ser geridos por especialistas nessas áreas, definindo metas mais realistas e eficazes, dada a especialização”

Henry Lei, professor da Faculdade de Finanças e Economia Empresarial da Universidade de Macau

De acordo com o académico, estes setores podem chegar a “níveis de excelência”, desde que haja abertura para receber talentos e organizações externas. “Não devemos temer a competição; pelo contrário, devemos abraçá-la como uma oportunidade de crescimento e inovação”.

Avaliar o progresso

Contudo, para avaliar o progresso da diversificação, é também necessário ter dados concretos sobre a sua evolução. Foi outro ponto que Sam Hou Fai referiu, sugerindo a criação de um grupo de trabalho nesse sentido. Henry Lei apoia a recolha de dados adicionais, “mais técnicos e micro”, como o registo de patentes sobre novas tecnologias, volume de importação e exportação das mesmas, empréstimos às empresas de tecnologia e investimento direto estrangeiro nas mesmas. O académico reconhece que alguns destes indicadores já devem existir para “uso interno”, ou sem estarem “separadas de toda a amostra”. A título de exemplo fala das estatísticas referentes às finanças modernas, que são publicadas apenas no relatório anual. “Se obtivermos estes dados trimestralmente, os investigadores podem fazer uma avaliação mais frequente e precisa”, o que porventura “pode também ajudar a resolver os problemas” com “a apresentação de sugestões”.

Para José Alves, só com objetivos claramente definidos se pode promover “maior responsabilidade e, consequentemente, acelerar a execução das estratégias propostas”.

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